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Fêmeas superprecoces a pasto reduzem pressão por novas áreas e ampliam a produção de bezerros


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19/08/2026 07h00

Fêmeas superprecoces a pasto reduzem pressão por novas áreas e ampliam a produção de bezerros

Márcia Midori


Parceria entre Trouw Nutrition e Colpar Participações SA mostra como a prenhez antecipada pode poupar cerca de 5 mil hectares, aumentar a eficiência reprodutiva e fortalecer a sustentabilidade da pecuária de cria

Produzir mais bezerros sem ampliar a área de pastagens é um dos principais desafios da pecuária brasileira. Na prática, isso significa aumentar a eficiência reprodutiva, reduzir o tempo de permanência de animais improdutivos no sistema e, ao mesmo tempo, diminuir a pressão por abertura de novas áreas. A adoção de fêmeas superprecoces a pasto, que entram em reprodução entre 12 e 14 meses de idade, vem se consolidando como uma das estratégias mais eficazes para alcançar esse objetivo.


Um exemplo desse modelo está no trabalho desenvolvido pela Colpar Participações SA em parceria com a Trouw Nutrition. Com quase 10 anos de implementação, o sistema permitiu antecipar a prenhez das novilhas, elevar o desfrute do rebanho e reduzir a necessidade de área. Segundo estimativas do grupo, a adoção em larga escala das superprecoces poupou cerca de 5 mil hectares que seriam necessários em um sistema tradicional de recria.


Detentor de um dos maiores rebanhos da pecuária nacional, a Colpar Participações SA reúne atualmente mais de 85 mil animais distribuídos entre Mato Grosso do Sul, São Paulo e Mato Grosso. O crescimento observado nos últimos 15 anos, e a meta de dobrar o rebanho até 2030, está baseado em uma estratégia que combina nutrição ajustada às diferentes categorias, melhoramento genético e manejo criterioso das pastagens, com destaque para o uso das fêmeas superprecoces como ferramenta central de expansão produtiva.


A decisão de investir nesse modelo começou em 2015, quando o grupo buscava acelerar o crescimento do rebanho. A experiência inicial com animais F1Angus evoluiu e, desde 2019, passou a ser aplicada também com fêmeas Nelore. Hoje, o programa está consolidado: cerca de 7.500 novilhas superprecoces entram anualmente na estação de monta, e o objetivo é que, em até dois anos, 100% das primíparas façam parte desse sistema.


Em um modelo tradicional, novilhas entram em reprodução apenas aos 24 ou até 36 meses, permanecendo por mais tempo na fazenda sem produzir bezerros. Ao reduzir essa fase improdutiva, a Colpar aumenta o número de bezerros por matriz, melhora o desfrute e ganha eficiência sem ampliar a área de pastagens.


“Produzir mais bezerros na mesma área, sem pressão por desmatamento, é um pilar importante para nós”, afirma o gerente do Núcleo 1 da Colpar, Ângelo Nakagawa. Além da redução na demanda por novas áreas, ele destaca que o sistema contribui para o aumento do sequestro biológico de carbono, impulsionado por pastagens mais bem manejadas e produtivas.


Sustentabilidade na produção
O trabalho conduzido pela Colpar ilustra como a intensificação sustentável, baseada em manejo criterioso das pastagens, adubação, suplementação estratégica e uso de aditivos, pode elevar a eficiência produtiva e reduzir impactos ambientais. Para o professor titular de Zootecnia da Unesp - Campus de Jaboticabal e parceiro da Trouw Nutrition, Ricardo Andrade Reis, práticas agronômicas bem executadas são determinantes tanto para manter a produtividade quanto para aumentar o estoque de carbono no solo.


Pesquisas conduzidas na FCAV/Unesp em sistemas de recria mostram que o manejo adequado das pastagens, com preservação da massa radicular e oferta contínua de forragem, permitiu elevar o acúmulo de carbono no solo, que subiu de 0,3 tonelada por hectare ao ano em sistemas tradicionais para 0,9 tonelada de carbono por hectare em sistemas melhorados. O aumento no sequestro de carbono representa uma mitigação de até 3,3 toneladas de CO₂ equivalente por hectare ao ano, resultado associado ao sequestro de carbono pelo sistema radicular e parte aérea das plantas, resultando em aumento da produtividade dos pastos e consequentemente na taxa de lotação, ou seja, maior número de animais por área.


Reis acrescenta que a eficiência zootécnica exerce influência direta sobre a pegada de carbono da pecuária, especialmente na fase de cria. Indicadores como desfrute e taxa de desmame têm papel central na emissão de CO2 por quilo de carcaça. Sistemas com melhor manejo de solo, nutrição consistente e entrada antecipada das novilhas em reprodução reduzem o tempo de permanência dos animais no sistema e aumentam o número de bezerros produzidos por matriz, diminuindo a intensidade das emissões.


A presença das superprecoces na composição do rebanho reduz a idade média das matrizes, cerca de 40% são jovens, e eleva as exigências nutricionais. Isso demanda planejamento forrageiro mais preciso e suplementação adequada, mas resulta em pastagens mais produtivas, maior produção de biomassa radicular e maior incorporação de CO₂ atmosférico no solo.


Nutrição estratégica
A antecipação da prenhez exige rigor técnico. Para que uma novilha Nelore esteja apta a emprenhar a partir dos 12 meses, ela precisa atingir entre 60% e 65% do peso adulto. No caso da Colpar, cujas matrizes pesam em torno de 480 quilos, isso implica metas de ganho de peso bem definidas desde a desmama até a estação de monta, entre março e outubro.


O uso contínuo de suplementação proteico-energética, aliado a pastagens com alta oferta de forragem e, em anos de seca mais severa, à produção de alimento extra, compõe o pacote necessário para alcançar esses objetivos. “Sem um plano nutricional forte a pasto, essas fêmeas não atingem o peso mínimo para entrar na estação de monta e manter desempenho nos anos seguintes”, explica o gerente técnico de Gado de Corte da Trouw Nutrition no Centro-Oeste e Sul, André Alves de Oliveira.


Segundo ele, o desafio não termina com a prenhez. Fêmeas jovens precisam sustentar crescimento, gestação e lactação simultaneamente, o que exige manejo diferenciado em relação às vacas adultas. Por isso, o grupo mantém monitoramento contínuo das condições de pasto e ajusta a suplementação conforme clima, oferta forrageira e desempenho dos lotes. As visitas técnicas ocorrem a cada 30 ou 40 dias, e a meta é que as fêmeas superprecoces cheguem ao primeiro parto com 85% do peso adulto.


Genética e sanidade
Os resultados desse manejo aparecem nos índices produtivos. A Colpar mantém taxas de prenhez das superprecoces entre 70% e 75%, mesmo trabalhando exclusivamente a pasto, com níveis semelhantes de reconcepção. “É comum ver projetos que performam bem no primeiro ano e depois caem drasticamente por falta de cuidado com as primíparas. Aqui, o manejo é permanente”, observa o zootecnista e representante comercial da Bellman/Trouw Nutrition, Gil Cléver Coelho.


O foco em genética reforça o sistema. Desde 2017, o grupo intensificou o uso de marcadores moleculares, seleção e redução do intervalo entre gerações. Atualmente, 40% das matrizes têm menos de 36 meses, e a meta é reduzir a idade média do rebanho para seis anos. A precocidade também se reflete nos machos, grande parte abatida antes dos 24 meses, com carcaças superiores a 20,5 arrobas.


No manejo sanitário, a atenção é redobrada. O médico-veterinário e consultor independente Sidney Elzidio destaca que novilhas precoces apresentam menor maturidade imunológica, o que exige protocolos específicos. Vacinas reprodutivas no pré-parto são essenciais para garantir a gestação e ampliar a resposta imunológica das matrizes jovens, além de proteger os bezerros na fase inicial de vida.


Eficiência produtiva
A combinação de nutrição, genética, manejo de pastagens e sanidade elevou de forma estrutural a produtividade da cria. “A taxa de desfrute, que antes girava entre 30% e 35%, passou para cerca de 45%. Mesmo assim, o custo do bezerro desmamado permaneceu estável porque o ganho de eficiência compensa os desafios associados ao uso de fêmeas mais jovens”, explica o coordenador técnico da Bellman/Trouw Nutrition, Rodrigo Lopes.


A Colpar segue ampliando estudos em parceria com universidades como Esalq/USP e Unesp, campus de Araçatuba, com foco no aperfeiçoamento zootécnico das superprecoces. O objetivo é integrar produtividade, genética, qualidade da carne e menor pegada de carbono. O modelo consolidado mostra que a intensificação bem conduzida não é apenas uma alternativa técnica, mas uma estratégia viável para a pecuária brasileira avançar em escala, eficiência e responsabilidade ambiental.

 

 

Colpar: Fêmeas superprecoces a pasto  

 





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