- mell280
22/10/2026 09h00
Após votações, ajuste fiscal pode levar Selic de 11,75% para perto de 10% até 2028
"O principal erro seria concentrar o ajuste no aumento de impostos, penalizando ainda mais a atividade", Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
“A questão fiscal brasileira vai além de equilibrar receitas e despesas. O país precisa recuperar sua capacidade de crescimento. Enquanto a Fitch projeta expansão de apenas 1,4% para o Brasil em 2027, o FMI estima crescimento global de 3,4%. Um ajuste estrutural adicional de 0,6 ponto percentual do PIB até 2028, conforme simulação do FMI, permitiria reduzir os juros em até 0,7 ponto percentual, mas o resultado econômico dependerá de como o governo preservará investimentos e estimulará a produtividade.
A desaceleração inicial tende a ser compensada mais rapidamente quando o setor privado encontra condições para investir e inovar, embora não exista uma projeção confiável desse prazo até 2030. Nesse cenário, o venture capital assume papel relevante ao financiar startups de inteligência artificial, tecnologia e serviços financeiros, capazes de elevar a produtividade e criar novas fontes de crescimento para a economia brasileira”, Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest.
“A redução da Selic não significa que o crédito ficará barato imediatamente. A Fitch projeta juros de 11,75% no final de 2027, mas consumidores e empresas continuarão sujeitos aos custos de financiamento, à inadimplência e às condições de garantia. O ajuste fiscal precisa ser suficientemente consistente para reduzir a percepção de risco, sem retirar da economia mais demanda do que ela consegue recuperar no curto prazo. O FMI estima que um esforço estrutural adicional de 0,6 ponto percentual do PIB até 2028 permitiria uma redução adicional dos juros de até 0,7 ponto. O impacto sobre o crescimento dependerá da velocidade com que esse alívio chegará ao consumo e aos investimentos, sem prazo de compensação definido até 2030. Para empresas, produtores rurais e famílias, o planejamento financeiro e as operações de crédito estruturadas com garantias representam instrumentos importantes para aproveitar a redução gradual dos juros com maior previsibilidade”, Thiago Alves Secco, CFO da Friggi & Secco.
“O ajuste fiscal de 2027 precisa resolver um problema que vai além das contas públicas: a baixa capacidade da economia brasileira de transformar recursos em produtividade. A Fitch projeta desaceleração do PIB de 1,9% em 2026 para 1,4% em 2027, enquanto a economia mundial deverá crescer 3,4% no próximo ano, segundo o FMI. A instituição estima que um ajuste estrutural adicional de 0,6 ponto percentual do PIB até 2028 permitiria reduzir os juros em até 0,7 ponto percentual além do cenário-base. Entretanto, o benefício sobre o crescimento não será automático, nem existe um prazo definido para compensar a desaceleração inicial até 2030. Para acelerar a recuperação, será necessário melhorar a circulação do crédito, reduzir custos financeiros e ampliar investimentos produtivos. Nesse contexto, as finanças integradas permitem que empresas incorporem pagamentos, crédito e contas digitais às operações, criando novas receitas e aumentando a eficiência financeira”, Letícia Moschioni, sócia da Finscale.
“O alerta da Fitch é importante porque mostra que o ajuste fiscal deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade, seja quem for o vencedor. Com déficit nominal acima de 8% do PIB e dívida caminhando para mais de 80%, o país não tem espaço para adiar. A agência projeta crescimento de apenas 1,4% em 2027 e Selic de 11,75% no fim do ano. A questão é como fazer o ajuste sem derrubar ainda mais a economia. O caminho é gradual: melhorar o resultado das contas em cerca de meio ponto do PIB por ano, cortando principalmente gastos correntes e benefícios tributários e preservando o investimento público, que é o gasto que mais ajuda o crescimento. Os estudos sobre a economia brasileira mostram que cortar gasto corrente tem efeito relativamente pequeno sobre o PIB. Pelas minhas contas, um ajuste desse tamanho tiraria algo entre 0,2 e 0,4 ponto percentual do crescimento em cada um dos dois primeiros anos. Em troca, se o ajuste for crível, o Banco Central ganha espaço para levar a Selic para perto de 10% até 2028, em vez de mantê-la acima de 12%. Com juros e inflação menores, o crédito barateia, o consumo e o investimento voltam a crescer, e o Brasil poderia crescer de meio a um ponto a mais por ano entre 2028 e 2030. Nesse cenário, o benefício compensaria o freio inicial em cerca de dois anos, e até 2030 o ganho acumulado superaria a perda. O que não funciona é um ajuste brusco, concentrado em um único ano, ou um ajuste que ninguém acredita que vai continuar, porque aí o país paga o custo do aperto sem colher a queda dos juros”, André Matos, CEO da MA7 Capital.
“O Brasil precisa de um ajuste fiscal consistente, mas gradual, priorizando a redução de gastos ineficientes e privilégios tributários, sem comprometer investimentos. Um ajuste muito agressivo, com os juros ainda elevados, poderia aprofundar a desaceleração econômica. se o governo conseguir transmitir credibilidade fiscal, a redução do risco-país, da inflação esperada e dos juros poderá estimular novamente o crédito, o consumo e os investimentos. Nesse cenário, vejo potencial de ganho adicional de 0,3 a 0,5 ponto percentual no crescimento anual até 2030, compensando a perda inicial entre 2029 e 2030. O principal erro seria concentrar o ajuste no aumento de impostos, penalizando ainda mais a atividade. O mercado responderá melhor a um ajuste estrutural, capaz de controlar a dívida pública e permitir juros menores de maneira sustentável”, Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
“O Brasil precisa de um ajuste fiscal que permita reduzir os juros de forma sustentável. A intensidade e a composição desse ajuste serão decisivas: cortar investimentos públicos ou elevar impostos indiscriminadamente pode aprofundar a desaceleração e prejudicar a capacidade de crescimento. Uma estratégia razoável seria melhorar o resultado primário em cerca de 0,5 a 1 ponto percentual do PIB em 2027, com continuidade nos anos seguintes, priorizando revisão de benefícios tributários, despesas ineficientes e controle do crescimento dos gastos obrigatórios. Esse esforço precisa integrar um plano capaz de estabilizar a dívida; uma melhora isolada não resolve o problema. Para dimensionar os efeitos, podemos trabalhar com um cenário ilustrativo: um ajuste de 1 ponto do PIB, com multiplicador fiscal entre 0,3 e 0,6, retiraria aproximadamente 0,3 a 0,6 ponto percentual do crescimento no primeiro ano, antes da compensação por juros menores. Isso significa crescer menos, sem necessariamente entrar em recessão. Se o plano tiver credibilidade, as expectativas de inflação cederem e o Banco Central puder reduzir os juros, é possível imaginar um ganho de 0,3 a 0,5 ponto percentual no crescimento anual entre 2028 e 2030, comparado a um cenário sem ajuste consistente. Nesse exercício, o PIB chegaria a 2030 aproximadamente 0,3% a 1,2% maior, já descontada a perda inicial. São hipóteses de cenário, não uma previsão fechada. A compensação do freio inicial poderia ocorrer em dois a três anos. O consumo e as contratações sentiriam primeiro a desaceleração; depois, crédito mais barato e maior previsibilidade favoreceriam investimentos e emprego, especialmente em setores sensíveis aos juros, como a construção civil. Esse benefício depende da execução: se o ajuste não reduzir o risco fiscal ou se a inflação persistir, a recuperação demorará mais”, André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.
“O mercado internacional não avaliará o próximo governo brasileiro apenas pelo resultado eleitoral, mas pela capacidade de apresentar uma trajetória sustentável para a dívida pública. Em um cenário de crescimento mundial projetado pelo FMI em 3,4% para 2027, com riscos comerciais e geopolíticos persistentes, países emergentes precisam oferecer previsibilidade para atrair capital. A Fitch projeta Selic de 11,75% ao final de 2027, enquanto o FMI estima que um ajuste estrutural adicional de 0,6 ponto percentual do PIB até 2028 permitiria reduzir os juros em mais 0,4 a 0,7 ponto percentual.
A melhora fiscal tende a reduzir o prêmio de risco, mas a recuperação do crescimento dependerá também do dólar, dos juros americanos e dos fluxos internacionais. Não existe uma estimativa precisa do prazo de compensação até 2030. Para os investidores brasileiros, esse ambiente reforça a importância da diversificação global, com ETFs internacionais e ativos dolarizados, equilibrando oportunidades domésticas e proteção patrimonial de longo prazo”, Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.


