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Quem cobra posicionamento também precisa ter coragem de se posicionar


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17/10/2026 00h56

Quem cobra posicionamento também precisa ter coragem de se posicionar

Hosana de Lourdes


 Na democracia, cada voto tem seu peso, mas a coerência entre discurso e atitude também diz muito sobre quem somos.

 
 
 
Há situações cotidianas que nos fazem pensar mais do que qualquer debate político. Às vezes, uma frase dita em um salão de beleza, em uma roda de conversa ou durante um encontro casual revela muito sobre a maneira como algumas pessoas enxergam a democracia, a responsabilidade individual e o direito de escolha.
 
Dias depois do primeiro turno das eleições, ouvi uma frase que me fez refletir: “Viu? Se você tivesse votado, nós não teríamos passado por isso”.
 
Naquele momento, preferi o silêncio. Não por concordar, tampouco por me sentir culpada, mas porque compreendi que algumas cobranças não merecem uma resposta imediata. Merecem reflexão.
 
 
 
 
Como jornalista, sempre soube que a possibilidade de um segundo turno fazia parte do processo eleitoral. Como cidadã, também sei que tenho apenas um voto. Um único voto, entre milhões de outros, dentro de uma democracia em que cada eleitor faz sua escolha de acordo com suas convicções, suas expectativas e aquilo que considera melhor para o país.
 
 
 
Transformar um resultado eleitoral na responsabilidade individual de alguém é ignorar a dimensão coletiva de uma eleição. Ninguém, isoladamente, carrega o peso de uma decisão tomada por milhões de brasileiros.
 
Mas aquela frase me levou a uma reflexão ainda mais profunda: por que algumas pessoas se sentem tão à vontade para cobrar posicionamento dos outros, enquanto preferem manter o próprio posicionamento longe dos olhos de todos?
 
Existe uma diferença entre defender uma ideia e apenas esperar que os outros a defendam por nós.
 
Em tempos de polarização, há quem queira ver determinadas bandeiras levantadas, determinadas campanhas fortalecidas e determinadas vozes expostas. Entretanto, quando chega a hora de assumir publicamente suas próprias convicções, o entusiasmo parece diminuir. A cobrança continua, mas a exposição fica sempre para o outro.
 
E é justamente aí que mora a contradição.
 
Não estou dizendo que todo cidadão precisa transformar suas redes sociais em palanque, participar de atos políticos ou anunciar seu voto a quem quer que seja. A liberdade de não se manifestar também faz parte da democracia. Cada pessoa tem o direito de preservar sua intimidade e decidir até onde deseja tornar públicas suas escolhas.
 
O que não parece coerente é exigir dos outros uma postura que não se está disposto a assumir. É cobrar coragem, visibilidade e compromisso de quem está ao nosso lado, enquanto se prefere permanecer na segurança da discrição.
 
No meu caso, nunca escondi que tenho posições, relações políticas e convicções que assumo publicamente. Participo, compareço, colaboro e não tenho dificuldade em dizer em quem acredito politicamente. Faço isso de maneira consciente, sabendo que a exposição também traz questionamentos, críticas e responsabilidades.
 
Ser uma figura pública não significa abrir mão da liberdade individual, muito menos aceitar que outras pessoas determinem como devo pensar ou agir. Significa, porém, compreender que minhas atitudes são visíveis e que tenho o direito — e a responsabilidade — de responder por elas.
 
Tenho minhas escolhas e meus compromissos políticos. Reconheço as lideranças com as quais caminho e apoio os projetos nos quais acredito. Não espero que todos pensem como eu. O que espero é que o respeito seja uma via de mão dupla.
 
A democracia não pode funcionar à base da culpa, da intimidação ou da tentativa de transferir a responsabilidade de uma escolha para o eleitor ao lado. Tampouco deveria ser um ambiente em que alguns se reservam o direito de cobrar enquanto outros assumem sozinhos o peso da exposição.
 
Quem deseja mudanças precisa compreender que elas não se constroem apenas com cobranças. Exigem participação, responsabilidade e coerência. Cada um contribui à sua maneira, dentro dos limites de sua consciência e de sua liberdade.
 
No fim das contas, não se trata de quem fala mais alto, de quem aparece mais ou de quem prefere o silêncio. Trata-se de entender que convicção não é aquilo que exigimos dos outros, mas aquilo que estamos dispostos a sustentar com responsabilidade.
 
Porque, na política e na vida, há uma pergunta que vale a pena fazer antes de cobrar alguém: estou exigindo do outro uma atitude que eu mesmo tenho coragem de assumir?
 
Às vezes, a resposta diz muito mais sobre nós do que sobre a pessoa que estamos tentando responsabilizar.
 
Hosana de Lourdes
Jornalista — Portal Tudo do MS
 
 
 




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