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Vendavais e crises climáticas: empresas precisam transformar contingência em prioridade


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  • mell280

18/09/2026 11h28

Vendavais e crises climáticas: empresas precisam transformar contingência em prioridade



Por Anna Karla Teixeira Dias 

Não podemos mais tratar eventos climáticos extremos como acontecimentos pontuais, distantes da realidade empresarial ou como algo que, simplesmente, “acontece de tempos em tempos”. Os recentes alertas de vendavais, tornados e demais instabilidades climáticas passaram a ser variáveis que precisam entrar na gestão de riscos das organizações - não para gerar alarmismo, mas para gerar preparação, de forma que as empresas deixem de perguntar se “isso pode acontecer?”, para questionar “se acontecer, qual é a nossa vulnerabilidade, em quanto tempo conseguiremos voltar a operar, e como vamos responder?”. 

Números recentes ajudam a dimensionar essa mudança de cenário. Até o fim de julho deste ano, segundo a Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots), o Brasil já havia registrado 81 tornados, quantia próxima do recorde de 92 ocorrências notificadas ao longo de todo o ano anterior. Em média, esses e demais desastres naturais provocam perdas anuais de, aproximadamente, R$ 110 bilhões por ano ao PIB brasileiro, de acordo com o Centro Internacional Celso Furtado (CICEF). 

Os dados evidenciam que um dos maiores erros das organizações, nesse sentido, é avaliar o risco climático olhando apenas para dentro dos limites físicos da empresa. As enchentes que acometeram o Rio Grande do Sul, em 2024, ressaltaram essa questão, mostrando que uma empresa pode estar fisicamente preservada e, ainda assim, ficar impossibilitada de operar porque uma rodovia foi bloqueada, seu fornecedor crítico parou, não há energia, forma de comunicação, seus colaboradores não conseguem se deslocar ou porque a infraestrutura da região foi comprometida. 

Uma gestão de risco aplicada à realidade considera a vulnerabilidade de toda a cadeia produtiva, e não somente da instalação em si – abrangendo questões como onde estão os fornecedores críticos; se há fornecedores alternativos; quais rotas logísticas são utilizadas; se existe alguma dependência energética, de água ou infraestrutura; e quanto tempo conseguem operar sem determinado insumo, por exemplo. Até porque, os impactos gerados são sistêmicos, não se limitando a questões financeiras. 

Quanto custa perder a confiança de um cliente porque você não conseguiu entregar? Um fornecedor estratégico? Uma resposta inadequada diante de uma comunidade? Comprometer a reputação construída durante anos? E, principalmente, colocar pessoas em risco por que a organização não estava preparada? Existem perdas que um balanço financeiro consegue registrar. Outras, não. 

Toda crise acaba testando a governança da organização, mostrando se as responsabilidades estavam claras, se os riscos eram conhecidos, se existiam recursos disponíveis, se a comunicação funcionava e se as lideranças estavam preparadas para tomar decisões sob pressão. É justamente por isso que a preparação não deveria ser entendida apenas como custo, mas como a construção da resiliência corporativa, transformando essa experiência em aprendizado organizacional e prevenção. 

Nesse sentido, a gestão ambiental é um dos pontos que mais precisa evoluir. Ao invés de ser lembrada somente quando precisam renovar uma licença, destinar um resíduo, atender uma condicionante ou responder a uma fiscalização, precisa ser capaz de antecipar vulnerabilidades e apoiar decisões, compreendendo o contexto da organização, seus aspectos e impactos ambientais, obrigações e, ao mesmo tempo, olhando para aquilo que pode afetar a capacidade corporativa de continuar operando. 

Outra ferramenta extremamente importante capaz de ajudar as organizações a identificarem e gerenciarem riscos ambientais de forma mais estruturada, é a ISO 14001, a qual obriga a organização a sair da lógica de ações isoladas para estruturar um sistema de gestão eficaz nesse sentido. Ela traduz um risco climático global para um risco operacional que precisa acontecer, ajudando a organização a conhecer suas vulnerabilidades, estabelecer controles, testar sua capacidade de resposta, acompanhar resultados e melhorar continuamente. 

Mas, para que atinja esses benefícios, sua implementação precisa começar pelo mapeamento dos processos internos, identificando onde estão seus principais aspectos e impactos ambientais, quais são suas obrigações, quais riscos podem comprometer suas atividades e quais controles já existem. Ainda, ser incorporada à rotina da empresa, ao invés de ser um sistema paralelo. 

A liderança também tem papel decisivo, afinal, não existe sistema de gestão ambiental sustentável quando o meio ambiente fica restrito ao setor responsável por isso. A alta direção precisa compreender os riscos, participar das decisões e garantir recursos para prevenção, preparação e resposta – compreendendo que todo risco é dinâmico. Uma ISO 14001 realmente eficaz precisa estar viva: monitorando indicadores, reavaliando riscos, realizando auditorias, aprendendo com as ocorrências, revendo os planos de emergência e utilizando a análise crítica da direção para tomar decisões. 

Não podemos controlar quando haverá uma chuva extrema, um vendaval ou uma enchente. Mas, podemos controlar o quanto conhecemos nossas vulnerabilidades e o quanto estamos preparados para responder. Para as empresas, essa talvez seja uma das principais mudanças de mentalidade necessárias para os próximos anos, construindo organizações que estejam, de fato, preparadas para lidar com essas adversidades climáticas quando chegarem. 

Anna Karla Teixeira Dias é Consultora e Auditora Líder em Sistemas de Gestão, Especialista em ESG e Sustentabilidade da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.         

 


 

 

 

Nathália Bellintani


Tel: +55 (11) 9848-4042
Email: nathalia@informamidia.com.br
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