09/09/2026 10h10
Safra 2026/27 começa antes do plantio e coloca margem no centro das decisões do produtor
A safra brasileira de grãos 2026/27 começa a ser definida antes mesmo da entrada das plantadeiras no campo. Para o produtor de soja, uma parcela relevante da margem já está contratada, enquanto a comercialização ainda está abaixo da média histórica e o clima começa a ganhar importância nas decisões para os próximos meses. Nesse cenário, o desafio passa a ser equilibrar proteção de receita, custos já assumidos e flexibilidade para aproveitar novas oportunidades de mercado.
As primeiras projeções apontam para uma área de soja entre 49,0 milhões e 49,5 milhões de hectares, crescimento de apenas 0,3% a 1,2% em relação ao ciclo anterior. Com uma expansão limitada da área, a produtividade passa a ter peso ainda maior para determinar o tamanho da próxima safra. Para que a produção brasileira continue avançando, será necessário obter ganhos de rendimento por hectare.
De acordo com Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, a configuração da nova temporada exige que o produtor olhe para a margem antes mesmo do início efetivo do plantio. “Uma parte importante da estrutura de custos já está definida, então as decisões comerciais passam a ter um peso maior sobre a margem. O produtor precisa avaliar quanto da receita pode ser protegida agora sem perder a flexibilidade necessária para o restante do ciclo.”
Fertilizantes já representam uma parcela definida do custo
A compra de insumos é um dos pontos que ajudam a explicar por que a margem da safra começa a ser construída antecipadamente. Até o fim de julho, cerca de 82% das necessidades de fertilizantes para a soja 2026/27 já estavam contratadas no país.
Na relação de troca, o MAP exigia 45,3 sacas de soja por tonelada em Sorriso, patamar 27,7% acima da média de quatro anos. Já o KCl estava praticamente em linha com a referência histórica. Com isso, parte relevante do custo por hectare já está definida antes do plantio, fazendo com que o preço de venda e a produtividade efetivamente alcançada ganhem importância na formação da margem.
“O momento de compra dos insumos e o momento de venda da produção precisam ser analisados em conjunto. Quando uma parcela do custo já está contratada, movimentos favoráveis de preço podem ser utilizados para proteger parte da margem e reduzir a exposição da operação”, explica Isabella.
Soja encontra janela para avançar na comercialização
A comercialização da soja 2026/27 está próxima de 15% da produção nacional, ligeiramente acima dos 14,5% registrados no mesmo período do ciclo anterior, mas ainda abaixo da média histórica de aproximadamente 21%.
O cenário atual, porém, abre espaço para uma postura mais ativa. Chicago opera acima dos US$ 13,00, enquanto os prêmios nos portos ajudam a sustentar referências consideradas favoráveis mesmo diante das oscilações da bolsa e do câmbio.
Para os produtores que ainda estão pouco vendidos, a Biond Agro avalia que o momento permite avançar gradualmente nas travas, chegando perto de 45% de uma produção conservadora. A estratégia busca proteger parte da margem antes que o risco climático brasileiro tenha maior influência sobre as cotações.
“O produtor não precisa tomar uma decisão de uma única vez. A construção de margem pode ser feita por etapas, aproveitando momentos em que a relação entre preço de venda e custo contratado seja favorável”, afirma Isabella.
Calendário de plantio coloca clima no centro das atenções
A largada da safra também será diferente entre os estados brasileiros devido ao calendário do vazio sanitário. No Paraná, Norte, Noroeste, Centro-Oeste e Oeste, o plantio está liberado desde 1º de setembro. Em Mato Grosso, a abertura ocorreu em 7 de setembro. Já outras regiões do Paraná e Goiás terão liberações ao longo de setembro, com Goiás iniciando apenas no dia 25.
Em Mato Grosso, por exemplo, uma melhora da umidade antes da abertura oficial não é suficiente para antecipar o início da semeadura. Depois da liberação, o ritmo dependerá da combinação entre água disponível no solo e continuidade das precipitações. Em Goiás, a abertura mais tardia concentra parte dessa decisão no fim de setembro e aumenta a importância das condições de outubro para o avanço da safra.
El Niño aumenta o peso da produtividade
O clima ganha ainda mais relevância em uma temporada de pouca expansão de área. Segundo o boletim, há probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com possibilidade de permanência do fenômeno até o início de 2027.
No Brasil Central, eventuais atrasos ou interrupções na reposição de umidade podem reduzir o ritmo de plantio, aumentar a necessidade de replantio e comprometer o potencial produtivo. No Sul, por outro lado, o excesso de chuva pode reduzir os dias disponíveis para operação e aumentar a pressão de doenças.
“Quando a expansão de área é pequena, qualquer desvio de produtividade passa a ter um impacto maior sobre a produção nacional. Por isso, o clima precisa ser acompanhado não apenas pelo efeito que pode ter sobre os preços, mas também pela capacidade de alterar o potencial produtivo da safra”, avalia Isabella.
Milho ainda deixa espaço para novas decisões
O mesmo princípio de construção gradual de margem aparece no milho, mas em um estágio diferente. Enquanto cerca de 60% da safra atual já foi comercializada, apenas 10% da produção de milho 2026/27 havia sido negociada, deixando grande parte do volume futuro exposta às oscilações do mercado.
A relação entre milho e ureia voltou para perto da média dos últimos cinco anos, ao redor de 57 sacas por tonelada de fertilizante. Ao mesmo tempo, a ureia no Brasil voltou a ganhar firmeza, com referências próximas de US$ 430 a US$ 445 por tonelada CFR.
O clima também pode criar novas oportunidades. Um aumento do risco sobre a soja e, consequentemente, sobre a janela de plantio da segunda safra tende a elevar a volatilidade do milho 2027. Nesse contexto, construir margem em etapas ganha importância.
Safra começa com menos espaço para erro
A combinação entre pouca expansão de área, custos parcialmente definidos, comercialização abaixo da média histórica e incertezas climáticas faz com que o timing das decisões tenha um papel maior na safra 2026/27. Na soja, o ambiente atual permite antecipar parte da receita antes que o clima brasileiro ganhe ainda mais peso sobre os preços. No milho, a baixa comercialização da próxima temporada mantém aberta a possibilidade de aproveitar novas janelas de preço ao longo dos próximos meses.
“A estratégia para a nova safra passa por entrar no plantio com parte da margem já protegida, mas mantendo flexibilidade para aproveitar as oportunidades que podem surgir durante o ciclo. O equilíbrio entre proteção e exposição é o que vai permitir ao produtor administrar melhor os riscos da temporada”, conclui Isabella.
Mais do que buscar o melhor preço ou antecipar todas as decisões, a safra 2026/27 exige uma visão integrada entre custos, comercialização, produtividade e clima. Com parte da margem podendo ser definida antes mesmo do plantio, o produtor que acompanhar esses fatores de forma conjunta terá mais espaço para ajustar sua estratégia ao longo do ciclo.
Sobre a Biond Agro
Empresa especializada em gestão e comercialização de grãos para o produtor brasileiro, originária de um grupo de companhias com 25 anos de experiência (Fyo, CRESUD e Brasil Agro). Compreendendo os números e especificidades do negócio e como interagir com os mercados. A Biond Agro desenha estratégias de comercialização e execução de negócios, profissionalizando a gestão de riscos para tornar o agronegócio sustentável no longo prazo. Saiba mais em https://www.biondagro.com/




