- mell280
16/07/2026 13h00
Três séculos sobre rodas
Há histórias que simplesmente se recusam a ser esquecidas.Ontem (15), por acaso, lembrei de uma delas. Hoje percebi uma coincidência curiosa: tudo aconteceu exatamente dez anos antes, em um sábado, 16 de julho de 2016.
Tios de coração, na verdade tios da minha querida madrasta, sofreram um acidente em uma rotatória no bairro Sudoeste, em Brasília, por volta da hora do almoço. Eles seguiam para a casa da filha do casal, Cavalcante e Lurdinha.
Naquele momento, eu assistia ao telejornal da TV Globo quando o apresentador anunciou:
"Carro capota com três passageiros com mais de 90 anos."
Parei na hora. Fiz rapidamente uma conta mental e pensei: dentro daquele carro viajavam praticamente três séculos de experiência de vida. Sorri com a inusitada soma de idades.
Ao olhar atentamente para as imagens da reportagem, tive uma sensação imediata de familiaridade. E falei em voz alta:
"Eu acho que conheço esses três..."
A reportagem exibida no telejornal da TV Globo informava:
"Uma colisão envolvendo dois carros terminou com um veículo capotado no Sudoeste, Distrito Federal. A batida aconteceu neste sábado. Os dois veículos se acidentaram no balão de acesso às quadras 104/105 da região, na 1ª Avenida. Entre os passageiros que estavam no carro que acabou de cabeça para baixo, três possuem mais de 90 anos. No outro veículo, uma mulher de 49 anos estava sozinha e nada sofreu; no carro capotado estavam o condutor, de 94 anos, duas senhoras de 90 e 99 anos e uma outra mulher, de 34 anos."
Bastaram alguns segundos para confirmar minha suspeita. O veículo acidentado transportava Tia Ira, cunhada de Cavalcante e irmã de Lurdinha.
Tia Ira era uma senhora encantadora, que havia acabado de se mudar definitivamente para Brasília, depois de morar a vida inteira no Largo do Machado, no Rio de Janeiro.
Felizmente, o acidente ficou apenas como um grande susto e uma história curiosa para ser lembrada.
Infelizmente, todos eles já partiram, depois de uma vida longa, alegre e muito bem vivida.
Tia Ira foi uma grande companhia para mim quando morei no Rio de Janeiro, nos anos 1980. Seu jeito lembrava a atriz Fernanda Montenegro. Elegante, inteligente e dona de uma conversa envolvente, ela tinha o talento de transformar qualquer encontro em uma experiência especial.
Com ela, conheci um Rio de Janeiro distante dos roteiros tradicionais. Juntos, fizemos passeios maravilhosos por uma cidade cheia de histórias, memórias e personagens, muito além dos cartões-postais.
Seu marido era ourives de uma famosa rede de joalherias do Rio de Janeiro, um profissional reconhecido pelo cuidado e pela precisão do seu trabalho.
Um dia, Tia Ira abriu cuidadosamente um pequeno saquinho de veludo e me mostrou um punhado de diamantes brutos. Entre aquelas pedras havia uma raridade: um diamante cor de rosa. Nunca mais esqueci aquela cena.
Cavalcante, Lurdinha e Tia Ira eram, na verdade, três experientes jovens. Gostavam de viajar, de conhecer lugares, de conversar sem pressa e de jogar muita conversa fora.
O acidente acabou sendo apenas mais uma história para entrar no repertório daquela turma. Um episódio que poderia ter sido lembrado pelo susto, mas que o tempo transformou em motivo de boas risadas.
Hoje, dez anos depois, percebo que o telejornal não anunciava apenas um capotamento. Sem saber, ele me devolveu um encontro inesperado com três pessoas que marcaram uma fase muito feliz da minha vida.
Afinal, algumas histórias não terminam no momento em que acontecem. Elas continuam vivas nas memórias, nas risadas e na saudade de quem teve o privilégio de compartilhá-las.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.


