- mell280
14/07/2026 09h43
Para escrever: NASCEMOS!
O dia 3 de julho de 1969 não é simplesmente um dia comum no calendário. Pelo contrário é uma data importante e iluminada por duas razões constituídas não pelo tempo sendo registrado no dia a dia do mundo, mas pela fonte de luz que sustenta dois sentimentos de gratidão.
No primeiro desses sentimentos, ponho meu coração serviço da admiração infindável que sinto pelo dono deste dia. Pois foi a época em que minha consciência conheceu a vontade de Deus em dotar e enviar alguém à Terra, com a missão de vida e a coragem de criar, pelo poder da escrita, um tempo de bem-aventuranças e bons exemplos. Por isto esta é uma data fora do calendário. É uma marca de agradecimentos por termos recebido o espírito pacífico, original e poderoso, como são suas narrativas inesgotáveis e envolventes, extraídas, com zelo e rigor léxico, das esperanças máximas de que sejamos, todos, leitores que componham uma melhor humanidade. Então esta á a primeira razão: nasceu neste dia o escritor de nossa perteição espiritual.
Todas as letras do mundo desejaram ser escritas no caderno que meu irmão usou desde sua juventude, para anotar procedimentos e maneiras de amar ao mundo proposto pelos seus textos, escritos com amor a uma nova realidade transformadora.
Já a segunda razão do meu eterno agradecimento pela data de 3 de julho, que aqui destaco, com irrefreável emoção, aponta para o destino que nos selou como profissionais da escrita (eu e meu irmão): porque foi neste dia, em 1969, exatamente às 7:23 horas da manhã, que desembarcamos do trem do Pantanal, na estação ferroviária de Campo Grande. Minha família chegou de mudança de Corumbá, onde nascemos.
Dia iluminado porque sendo eu o filho primogênito do contra-mestre navegador do Rio Paraguai, pela Marinha Mercante do Brasil, Manoel Dantas de Oliveira e Dair Aquino de Oliveira e, tendo precocemente sentido a necessidade de compartilhar meus encantamentos com a beleza da vida, então, Deus me agraciou ao enviar um irmão, o Wilson (que logo foi chamado de Pimba, depois veio o Edson, o Tuca e a Edna, a Dinha. Marcia, a caçula chegou em 1975, nascida na cidade morena).
Eram os anos 1960. Corumbá avançava no tempo como uma pequena metrópole. Eu e Wilson, desde os primeiros dias de meninice, maravilhados com os desafios instigantes oferecidos pela natureza, unimos nossa capacidade de realizar sonhos e assim crescemos cada vez mais unidos pelo privilégio de explorar e descobrir as riquezas ambientais nas quais estávamos sendo bem criados pelos nossos pais.
Como irmãos, nos complementávamos, como se fôssemos um só. Dava a impressão de que tínhamos a mesma alma, a mesma curiosidade pela vida. Teríamos recebido de Deus, cada um, sua própria matriz espiritual, porém feita com a mesma matéria-prima. Assim, compartilhávamos a satisfação das descobertas e conhecimentos gerados pelas nossas pequenas aventuras infantis.
Certo dia, descobrimos que a melhor parte da infância era ouvir histórias, historinhas, causos, relatos reais ou ficcionais. Corumbá, naquele tempo não tinha televisão. A oralidade das rádios era enraizada em nossos interesses pelo conhecimento dos feitos e realizações da humanidade. Tão logo descobrimos nossa paixão pela arte cinematográfica (com heróis de nomes poderosos, como Hércules, Sansão, Bem Hur, Maciste, Zorro, Roy Rogers, etc), também passamos a amar o rádio. A comunicação centralizava em nosso destino a força de uma raiz. Ao meio dia, após um programa radiofônico chamado “Janela Aberta” para a cidade (na qual o locutor lia uma crônica de costumes), eu e Wilson ajeitávamos no soalho os nossos travesseiros diante da radiola, e ali por meia hora, absorvíamos invariavelmente, fascinados, a história infantil do dia. Nem piscávamos. E. sedimentando nosso crescente apetite pela arte da palavra, fomos igualmente agraciados pelo incentivo paterno para fazermos do livro um vórtice, um centro de gravidade de nossos sonhos e projetos.
Nesse tempo, descobrimos, que gostávamos de criar nossas próprias histórias. É curioso notar que eu criava personagens e narrativas para fazê-lo rir. Wilson, por sua vez, contava causos que inventava na hora. A tal ponto era essa convivência criativa, que toda noite reuníamos vizinhos na calçada de casa, organizando uma plateia de oito a dez infantes, para ouvir nossas narrações improvisadas.
Assim, chegamos ao ano de 1969. Ano de mudança profunda em nossas existências. Embarcamos para Campo Grande na madrugada do dia 2 de julho. Aqui chegamos para cumprir nossa missão de vida: escrever. Quatro anos depois, eu começava minha carreira numa redação de jornal. Seis anos depois, Wilson ingressava, com seu talento para narrativas reais e rebuscadas em relevantes reportagens e artigos de reflexões sociais e espirituais, tornando-se este admirável cronista de toda semana. Eu faço ficção. E a ele devo, a forma como crio personagens. Ele era um personagem raro, e agora escreve sobre a realidade de cada um. Combatemos o bom combate. Os dois nascemos para a arte da escrita. Nosso propósito: trabalhar as palavras. Então percebo, hoje, no aniversário de Wilson, que, para escrever: nascemos!


