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Da China ao Paraguai: empresas brasileiras estão redesenhando suas operações em um cenário de maior protecionismo global


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16/06/2026 07h01

Da China ao Paraguai: empresas brasileiras estão redesenhando suas operações em um cenário de maior protecionismo global

Thamiris Rezende


Dados mostram que empresas brasileiras aceleram estratégias de internacionalização, diversificam mercados e buscam maior competitividade diante das mudanças no comércio mundial

 

 

 

A proposta do governo dos Estados Unidos de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros, sendo uma alíquota de 25% sob a justificativa de práticas anticoncorrenciais e outra de 12,5% relacionada a alegações de trabalho forçado, reacendeu uma discussão que já vinha ganhando espaço nas estratégias empresariais: a necessidade de reduzir a dependência de mercados específicos e ampliar a presença internacional. 

 

 

Embora a medida tenha aumentado a preocupação de exportadores brasileiros, especialistas afirmam que o movimento de internacionalização das empresas nacionais começou muito antes das recentes tensões comerciais e vem sendo impulsionado por fatores como competitividade, eficiência operacional, diversificação de riscos e expansão para novos mercados.

Para Pedro Ricco, mestre em economia e CEO do Delta Global Bank, a medida adotada pelos Estados Unidos não deve ser analisada como um episódio isolado, mas como parte de um movimento mais amplo de reorganização das relações comerciais globais.

“O aumento de tarifas não acontece apenas na relação entre Estados Unidos e Brasil. Estamos vendo diversas economias adotando medidas para proteger mercados locais em um momento em que muitas enfrentam desaceleração do crescimento e buscam fortalecer suas cadeias produtivas. Trata-se de um movimento global de maior protecionismo, e não de uma ação isolada contra um único país”, afirma.

Os números ajudam a explicar essa tendência. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), de julho de 2025, mostra que ao menos 70 empresas brasileiras mantêm investimentos produtivos em 23 dos 50 estados norte-americanos. Em 2024, o estoque desses investimentos alcançou US$22,1 bilhões, valor 52,3% superior ao registrado em 2014. Apenas entre 2020 e 2024, empresas brasileiras anunciaram mais de US$3,3 bilhões em novas operações nos Estados Unidos.

A busca por mercados internacionais também aparece nas projeções das próprias empresas. Pesquisa da Fundação Dom Cabral (FDC) revelou que 64,4% das companhias brasileiras com atuação internacional pretendem ampliar sua presença nos países onde já operam. Além disso, 68,9% afirmam ter planos de entrar em novos mercados estrangeiros nos próximos anos.

Segundo Ricco, a busca por novos mercados já fazia parte do planejamento de muitas empresas brasileiras, mas os recentes movimentos comerciais aceleraram decisões que estavam em análise há anos.

“A internacionalização já era uma tendência, mas agora ela deixa de ser apenas uma possibilidade para se tornar uma necessidade estratégica. Muitas empresas já vinham avaliando alternativas e agora passaram a acelerar esse processo diante das mudanças no cenário internacional”, explica.

Para o advogado empresarial Daniel Cabrera, especialista em estratégias de expansão internacional, a internacionalização deixou de ser um projeto restrito às grandes multinacionais e passou a integrar o planejamento de empresas dos mais diversos portes e setores.

“A competitividade deixou de estar ligada apenas ao produto ou serviço oferecido. Hoje ela também depende da capacidade das empresas de diversificar mercados, reduzir riscos e construir operações mais eficientes. O empresário percebeu que depender excessivamente de um único mercado ou fornecedor representa uma vulnerabilidade importante em um cenário global cada vez mais dinâmico”, afirma.

Segundo Cabrera, movimentos como o nearshoring, estratégia que aproxima a produção dos mercados consumidores, e a regionalização das cadeias produtivas devem ganhar ainda mais força nos próximos anos.

Paraguai ganha espaço na estratégia das empresas brasileiras

Um dos exemplos mais claros dessa transformação acontece dentro do próprio Mercosul.

Nos últimos anos, o Paraguai passou a atrair um número crescente de empresas brasileiras interessadas em ampliar competitividade e eficiência operacional por meio da chamada Lei de Maquila. O regime permite que empresas produzam no país pagando um tributo único de 1% sobre o valor agregado localmente, além de contar com incentivos para importação de insumos, máquinas e equipamentos utilizados na produção.

Dados do Ministério da Indústria e Comércio paraguaio indicam que o país já possui mais de 300 empresas maquiladoras em operação e que aproximadamente 70% delas são de origem brasileira.

Além da tributação reduzida, fatores como energia elétrica mais barata, menores custos operacionais e proximidade geográfica contribuem para o avanço do modelo.

“O Paraguai passou a ocupar uma posição estratégica para empresas brasileiras que desejam ampliar competitividade sem abrir mão da proximidade geográfica e da integração comercial proporcionada pelo Mercosul. É um movimento que acompanha uma tendência global de busca por eficiência logística e operacional”, explica Cabrera.

O especialista ressalta, porém, que a internacionalização exige planejamento jurídico e tributário adequado.

“A estrutura precisa possuir atividade econômica real. É necessário demonstrar operação efetiva, funcionários, cadeia produtiva e substância econômica. A internacionalização deve ser construída como uma estratégia de crescimento sustentável e não apenas como uma alternativa tributária”, alerta.

Produção global como diferencial competitivo

Se algumas empresas encontraram no Paraguai uma oportunidade de expansão regional, outras apostaram na construção de cadeias globais de produção.

É o caso da Bom Bom Book's, editora especializada em literatura infantil que mantém sua produção gráfica na China desde 2007. A decisão foi tomada após a empresa identificar limitações do mercado nacional para atender ao volume e à complexidade técnica exigidos pelos projetos editoriais desenvolvidos pela marca.

O que começou como uma solução operacional acabou se transformando em um diferencial competitivo que impulsionou a expansão internacional da empresa.

Hoje, a Bom Bom Book's comercializa seus livros em 72 países, traduzidos para sete idiomas, e também presta serviços de produção e importação para grandes grupos educacionais brasileiros.

Para a CEO Jéssica Bruin Cavalheiro, a internacionalização permitiu que a empresa ganhasse escala e ampliasse sua capacidade de atuação em diferentes mercados.

“Quando passamos a produzir na China, nosso objetivo era encontrar uma solução capaz de atender às necessidades da empresa. Com o tempo, percebemos que essa decisão nos trouxe escala, competitividade e abriu portas para novos mercados. Hoje conseguimos atuar globalmente sem perder nossas raízes brasileiras”, afirma.

Segundo ela, a diversificação de operações tornou-se um diferencial importante em um cenário econômico cada vez mais conectado.

“Ter presença em diferentes mercados amplia nossa capacidade de adaptação. O cenário global muda constantemente e as empresas precisam estar preparadas para responder a essas transformações”, diz.

Expandir mercados sem sair do Brasil

A internacionalização, no entanto, não passa necessariamente pela transferência da produção para outros países.

Muitas empresas brasileiras vêm ampliando sua presença global mantendo suas operações produtivas no Brasil e utilizando a exportação como ferramenta de crescimento.

É o caso da Conexled, fabricante de iluminação industrial de alta performance que vem consolidando sua presença na América Latina ao mesmo tempo em que mantém sua estrutura produtiva nacional.

Com mais de 20 representantes distribuídos pelas cinco regiões do país, a empresa atende setores como mineração, siderurgia, operações offshore, indústrias químicas, alimentícias, portos e infraestrutura. Nos últimos anos, a companhia também ampliou sua atuação internacional por meio de projetos voltados a ambientes industriais e empreendimentos de grande porte em outros países da região.

Para Tatiana Feitosa, gerente de marketing da Conexled, a internacionalização deixou de representar apenas uma oportunidade de crescimento e passou a ser uma estratégia de fortalecimento empresarial.

“A expansão internacional nos permite diversificar mercados, reduzir riscos e ampliar sua competitividade. Ao mesmo tempo, abre espaço para que a tecnologia e a expertise desenvolvidas no Brasil ganhem novos mercados e contribuam para o crescimento sustentável dos negócios”, afirma.

Com capacidade produtiva de até 14 mil peças por mês, mais de 2.300 produtos desenvolvidos e atuação em projetos que somam mais de 40 milhões de metros quadrados, a empresa enxerga a expansão internacional como parte natural de sua estratégia de longo prazo.

Uma tendência que deve se intensificar

Para especialistas, as recentes mudanças no comércio internacional não criaram o movimento de internacionalização das empresas brasileiras, mas devem acelerar uma transformação que já estava em curso.

Na avaliação de Pedro Ricco, diversificar mercados não significa apenas ampliar oportunidades de negócios, mas também reduzir a exposição a riscos regulatórios e comerciais.

“Empresas que atuam em diferentes mercados conseguem reduzir sua dependência de decisões econômicas ou políticas de um único país. A diversificação ajuda a mitigar riscos regulatórios, tributários e até oscilações de consumo que acontecem naturalmente em cada economia”, afirma.

Para ele, o agronegócio brasileiro continuará liderando boa parte desse movimento de expansão internacional.

“O Brasil possui uma combinação difícil de ser replicada por outros países: disponibilidade de terras, clima favorável, tecnologia e ganho constante de produtividade. O agronegócio continuará sendo um dos setores mais conectados ao mercado global e deve seguir abrindo portas para a presença brasileira no exterior”, conclui.

Para Daniel Cabrera, o cenário atual reforça uma mudança de mentalidade no empresariado brasileiro.

“A competitividade hoje está diretamente ligada à capacidade das empresas de construir operações eficientes, resilientes e conectadas a diferentes mercados. Quem compreender essa dinâmica terá mais condições de crescer de forma sustentável nos próximos anos”, conclui.

 


 




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