16/06/2026 07h24
O corpo sedentário que tenta performar como atleta
Aumento de treinos intensos entre adultos sem preparo adequado tem elevado casos de lesão no joelho e sobrecarga articular
A busca por desempenho físico nunca esteve tão presente na rotina dos brasileiros. Corrida de rua, beach tennis, provas de resistência, treinos funcionais e academias seguem em expansão no país, impulsionados pela combinação entre redes sociais, busca por qualidade de vida e cultura de alta performance. Ao mesmo tempo, cresce nos consultórios o número de adultos lesionados tentando acompanhar uma intensidade de treino para a qual o corpo ainda não estava preparado.
Dados da Associação Brasileira de Academias mostram que o Brasil ocupa uma das maiores posições do mercado fitness mundial, com mais de 60 mil academias em funcionamento. O número de corredores amadores também aumentou nos últimos anos, assim como a procura por esportes de alta intensidade entre pessoas acima dos 35 anos.
O problema é que o condicionamento cardiovascular costuma evoluir mais rápido do que a capacidade estrutural do corpo de absorver impacto, controlar movimento e sustentar carga repetitiva. Na prática, isso significa que muitas pessoas conseguem “aguentar” o treino antes que músculos, tendões e articulações estejam realmente preparados para ele.
Segundo o ortopedista especialista em joelho Thales Rama, essa diferença ajuda a explicar o aumento de lesões em pacientes considerados ativos, mas que passaram anos sedentários antes de iniciar atividades mais intensas.
“Muitos pacientes começam a treinar motivados, melhoram o fôlego rápido e acreditam que o corpo inteiro acompanhou essa evolução. Mas estabilidade articular, força muscular e capacidade de absorver carga levam mais tempo para se adaptar”, explica.
Entre as lesões mais comuns estão quadros inflamatórios por sobrecarga, fraturas por estresse, lesões de menisco, tendinites e rupturas ligamentares, principalmente no joelho. Estudos internacionais apontam que essa articulação está envolvida em até 40% das lesões esportivas recreativas.
Outro ponto que chama atenção é o perfil dos pacientes. Em vez de atletas profissionais, os consultórios recebem executivos, profissionais que passam horas sentados e pessoas que concentram atividade física em poucos dias da semana. Em muitos casos, o corpo alterna longos períodos de sedentarismo com picos de alta exigência física.
A influência das redes sociais também aparece nesse cenário. O crescimento de desafios esportivos, metas de corrida e conteúdos relacionados à performance contribuiu para acelerar processos que normalmente deveriam acontecer de forma gradual.
Na prática clínica, isso se traduz em pacientes que aumentam carga rapidamente, treinam com dor ou negligenciam recuperação. “Existe uma ideia de que sentir dor faz parte obrigatória da evolução física. O problema é quando o corpo começa a compensar até entrar em um processo de lesão”, afirma Rama.
O joelho costuma avisar antes da lesão
Embora muitas lesões pareçam repentinas, grande parte delas é construída ao longo do tempo. Antes do trauma, é comum o paciente apresentar sinais como rigidez, dor após treino, sensação de instabilidade, perda de mobilidade e dificuldade de recuperação muscular.
Esses sintomas costumam ser ignorados porque ainda permitem continuidade da atividade física em muitos dos casos.
O excesso de carga sem recuperação adequada também preocupa. Estudos recentes sobre medicina esportiva mostram que períodos insuficientes de descanso aumentam o risco de inflamação persistente, fadiga muscular que podem levar a lesões e compensações biomecânicas, principalmente em articulações de impacto.
Fortalecimento muscular, progressão gradual de treino e recuperação adequada seguem entre os principais fatores de prevenção, especialmente para pessoas que passaram anos sedentárias antes de iniciar atividades mais intensas.
“O objetivo não é reduzir atividade física. É preparar o corpo para sustentar aquilo que está sendo exigido dele”, conclui.
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