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Acordo UE-Mercosul: como a indústria brasileira pode se prejudicar?


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26/01/2026 13h17

Acordo UE-Mercosul: como a indústria brasileira pode se prejudicar?

Nathália Bellintani


Por Alexandre Pierro

 

 

 

Ampliar fluxos comerciais, reduzir barreiras tarifárias e aproximar dois dos maiores blocos econômicos do mundo. Essa é, pelo menos, a grande promessa do acordo entre a União Europeia e o Mercosul que, depois de longos 25 anos, pode, finalmente, estar próximo de ser oficialmente implementado. No papel, os benefícios parecem evidentes. Na prática, porém, os impactos não tendem a ser tão positivos assim – pelo menos, para a nossa indústria, que pode perder espaço diante de tantos produtos tecnologicamente robustos que virão de fora, sem cobrança de taxas ou juros. 

Aguardando, agora, avaliação do Tribunal de Justiça da União Europeia quanto sua legalidade, esse chegou a ser considerado o maior pacto comercial de todos os tempos do bloco com os membros do Mercosul, que já vinha sendo negociado desde 1999. Pelo acordo, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai eliminariam as tarifas sobre 91% das exportações da UE ao longo de 15 anos, enquanto os países europeus extinguiriam, progressivamente, as tarifas sobre 92% dessas exportações do Mercosul em um período de até dez anos. 

Segundo um levantamento divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), o Brasil tende a ser o principal beneficiado pelo acordo comercial, com um impacto positivo de 0,46% no PIB (US$ 9,3 bilhões) até 2040.  Com isso, a expectativa é de que os investimentos nacionais subam cerca de 1,5% em 15 anos; as exportações e importações em 3% cada. Vantagens realmente promissoras, mas que acabam ocultando perigos que não estão sendo levados em consideração. 

O outro lado da moeda deste acordo aparentemente muito positivo, é que nossa indústria tende a se prejudicar, em termos de produção e vendas, justamente pela importação de produtos de alto valor agregado como tecnologias e automóveis, sem a aplicação de taxas ou juros que costumam encarecer essas vendas por aqui. Competir, em termos de qualidade, com esses itens internacionais, pode ser um tremendo desafio para o nosso mercado, ainda mais se não se atentar a esse risco extremamente realista de ocorrer. 

Nossa história comprova este argumento. Passamos por uma situação parecida na década de 90, quando o então presidente, Fernando Collor, implementou uma política de abertura comercial radical focada no setor automobilístico, reduzindo tarifas de importação e eliminando barreiras que, até então, protegiam a indústria nacional. Esse movimento representou uma mudança abrupta, fazendo com que mais produtos estrangeiros entrassem no nosso mercado, e expondo nossa produção à concorrência internacional sem transição gradual suficiente para minimizar impactos econômicos. 

O resultado deste despreparo? O fim de muitas marcas automotivas que não conseguiram competir em termos de tecnologia e preço. Estamos diante do mesmo risco neste momento, caso o acordo comece a valer e a indústria brasileira não se atente à importância de investir, desde já, em metodologias de gestão e governança que a prepare para se ajustar a essa nova realidade. 

A resposta ao risco do acordo não está em renegociar taxas, mas em mudar o modelo de gestão da indústria brasileira. Metodologias como Lean Manufacturing, Six Sigma eOKRs, quando integradas à estratégia, permitem replanejar as operações industriais com muito mais eficiência e eficácia, sobretudo quando apoiadas por soluções digitalmente robustas provenientes da Indústria 4.0 e 5.0 - usando a tecnologia não apenas para produzir mais, mas para produzir melhor, com mais valor agregado, inteligência e diferenciação. 

O grande erro dos anos 1990 não foi abrir o mercado — foi abrir sem preparar a indústria para competir, o que gerou resultados previsíveis: empresas despreparadas, fechamento de fábricas, perda de marcas nacionais e aumento da dependência externa. Não precisamos repetir o passado, temos tudo o que é necessário para aproveitar o que de melhor este acordo pode fornecer, e reinventar nossa indústria através de uma governança de inovação que catalise seu crescimento contínuo. 

Alexandre Pierro é mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.  

 


 

 

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