- mell280
06/11/2026 08h30
A cultura de propriedade dos equipamentos ainda é um obstáculo à inovação nas empresas brasileiras
A crença de que a propriedade física é a única garantia real de controle, segurança e solidez patrimonial é um traço sociocultural bastante enraizado no ambiente corporativo brasileiro. Historicamente acostumadas a atrelar estabilidade ao número de bens registrados no ativo imobilizado, muitas companhias atualmente tomam decisões de infraestrutura sob a lógica de que "é preciso comprar para poder gerir". Se essa premissa já fazia pouco sentido na era industrial tradicional, no contexto da transformação digital ela se tornou um dos maiores entraves à competitividade e à modernização dos negócios.
Equipamentos de tecnologia não funcionam como imóveis ou terrenos, eles não acumulam valor ao longo do tempo. São ferramentas em constante e acelerada depreciação. Contudo, ao optar pela aquisição direta (CAPEX), muitas diretorias caem em uma ilusão de controle. Acreditam que, ao deterem a nota fiscal e o patrimônio da máquina, estão reduzindo riscos, mas na prática, o que assumem é uma sucessão de custos ocultos.
O primeiro desses custos é a obsolescência forçada. Em um momento em que a inteligência artificial generativa e a automação de processos aceleram muito os ciclos de inovação, o hardware corporativo atinge seu pico de defasagem técnica em intervalos cada vez menores. Manter um parque tecnológico próprio frequentemente obriga as empresas a estender a vida útil de computadores, servidores e maquinários muito além do recomendável. O resultado dessa retenção é a perda de produtividade operacional, lentidão em processos críticos, vulnerabilidade na segurança da informação e equipes internas de TI sobrecarregadas com manutenções corretivas e "apagamento de incêndios", em vez de focadas na atividade-fim do negócio.
Além disso, a cultura da propriedade costuma ignorar a fase final da vida útil dos ativos. Quando um equipamento adquirido chega ao seu limite de uso, ele costuma se transformar em um passivo complexo, resultando em estoques de máquinas paradas em depósitos, descarte inadequado que alimenta os índices de lixo eletrônico no país e riscos reais de vazamento de dados corporativos ao final do ciclo. Para se ter dimensão desse impacto, o relatório Global E-waste Monitor (ONU) revela que o Brasil é hoje o quinto maior produtor de lixo eletrônico do mundo, gerando mais de 2 milhões de toneladas anuais e reciclando adequadamente apenas cerca de 3% desse volume. Ter o bem, no fim das contas, não significou ter controle, mas assumir integralmente o risco de sua desvalorização e de seu descarte.
É diante desse cenário que o modelo de tecnologia como serviço, impulsionado pelo leasing operacional e pela gestão completa do ciclo de vida dos ativos, deixa de ser uma mera alternativa contratual para se consolidar como uma decisão estratégica de governança. A evolução para modelos baseados no uso permite que as empresas separem, em definitivo, a utilidade da ferramenta da sua titularidade. O valor da tecnologia para uma empresa reside no que suas equipes são capazes de produzir com ela, e não no fato de terem o bem inventariado em seu balanço. Quando se migra para o leasing operacional aliado à gestão contínua de ponta a ponta, a companhia não transfere apenas a aquisição, ela delega a manutenção preventiva, o monitoramento técnico, a substituição programada no tempo adequado e a destinação final ecologicamente responsável.
Sob a ótica operacional, o ciclo fecha de forma sustentável e transparente. O ativo é recolhido, passa por processos certificados de exclusão de dados, garantindo total conformidade com legislações de privacidade, e é recondicionado para reinserção em mercados secundários. A economia circular deixa de ser um discurso distante de sustentabilidade e passa a fazer parte da mecânica diária de operação.
Do ponto de vista financeiro, os impactos também são decisivos. Ao converter pesados investimentos de capital (CAPEX) em despesas operacionais distribuídas e previsíveis (OPEX), preserva-se o fluxo de caixa para áreas prioritárias e inovação. Em um cenário econômico caracterizado por volatilidade de crédito e custo de capital desafiador, imobilizar recursos em ativos que perdem valor a cada trimestre é uma escolha que penaliza a saúde financeira das organizações. A previsibilidade das parcelas elimina os custos inesperados de manutenção e permite que a renovação do parque ocorra de forma fluida, sem a necessidade de novos aportes a cada três ou quatro anos.
O maior desafio para que esse modelo se torne a regra no Brasil não é tecnológico, nem financeiro ou regulatório: é estritamente cultural. Ainda é necessário desmistificar a percepção de que terceirizar a infraestrutura represente perda de autonomia. Pelo contrário, na velocidade com que a economia moderna se move, flexibilidade é a melhor forma de controle.
As companhias que liderarão seus setores nos próximos anos serão aquelas que entenderam que o apego à propriedade é um freio de mão puxado na corrida da inovação. A tecnologia precisa ser encarada como um serviço vivo, dinâmico e flexível, que deve estar sempre disponível para sustentar a ambição e o crescimento dos negócios.
*Gabriela Monastero é vice-presidente de vendas no Brasil da CHG-MERIDIAN, multinacional alemã especializada em leasing operacional e gestão do ciclo de vida de ativos

Pamela Moraes
pamela.moraes@rpmacomunicacao.com.br
(11) 5501-4655
| Você está recebendo este email por estar cadastrado nas editorias Economia. Caso não trabalhe |


