- mell280
04/11/2026 05h23
Varejo físico recua 1,9% no 3º trimestre sob pressão de juros, clima e cautela eleitoral, aponta estudo da Seed Digital
Levantamento do IICV SEED indica que retração no fluxo de lojas de rua (64,1%) e de shoppings (54,8%) no dia da votação do 1º turno refletiu a mudança de prioridade do consumidor no período
O fluxo no varejo físico brasileiro encerrou o 3º trimestre de 2026 com uma retração de 1,9% em comparação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do mais recente balanço do Índice de Intenção de Compra do Varejo (IICV SEED), divulgado pela Seed Digital. A retração do fluxo de clientes foi progressiva ao longo dos meses, iniciando em julho com baixa de 1,1%, avançando para 1,5% em agosto e atingindo 3,1% em setembro.
Triplo impacto pressiona o bolso do consumidor
Essa desaceleração observada no período é explicada por uma combinação de fatores macroeconômicos e conjunturais que comprimiram o poder de compra e alteraram o comportamento das famílias. A manutenção da taxa Selic em patamares elevados encareceu as linhas de crédito e o parcelamento, fazendo com que o consumidor priorizasse a quitação de dívidas acumuladas. Além disso, a volatilidade política e as chuvas atípicas decorrentes do fenômeno El Niño prejudicaram diretamente a mobilidade urbana e a frequência às compras físicas.
Eleições e efeito clima alteram rotina nas cidades
O clima e o calendário eleitoral desempenharam um papel decisivo no tráfego dos estabelecimentos no período. Nos dias de votação do primeiro turno das eleições, por exemplo, o movimento de clientes caiu mais de 50%, com uma retração de 64,1% nas lojas de rua e de 54,8% nos shopping centers em relação a datas comuns. Segundo Sidney Raulino, CEO da Seed Digital, a concorrência por atenção do consumidor no período foi atípica.
"A reta final do terceiro trimestre colocou o varejo presencial diante de um cenário de volatilidade sem precedentes. Tivemos uma combinação forte entre a incerteza política e eventos climáticos extremos que alteraram radicalmente a rotina das cidades. O consumidor não apenas reduziu as idas ao comércio para focar no orçamento básico e na quitação de dívidas, como alterou totalmente sua rota nos dias de votação", avalia Raulino.
Shoppings reagem, enquanto comércio de rua sofre deterioração contínua
Analisando os canais de venda, tanto os estabelecimentos de rua quanto as lojas de shopping fecharam o trimestre com retração idêntica de 1,9%, revertendo o quadro positivo registrado no mesmo período de 2025. No entanto, a trajetória mês a mês revelou dinâmicas distintas. Enquanto as lojas de rua sofreram uma deterioração contínua de julho a setembro, os shoppings demonstraram capacidade de recuperação na reta final do trimestre, atraindo o público que buscava maior segurança, infraestrutura coberta e conveniência para fugir das instabilidades do tempo.
Panorama regional: Sudeste lidera quedas e Sul registra única alta
Regionalmente, a retração do consumo físico foi generalizada, mas com disparidades marcantes. O Sudeste registrou a maior queda do país (2,8%), fortemente impactado pelo clima desfavorável e pela facilidade de migração das compras presenciais para o e-commerce. O Nordeste (2,1%), o Centro-Oeste (1,9%) e o Norte (1,9%) também fecharam no vermelho, influenciados pelo endividamento das famílias, retração de investimentos no agronegócio e bases de comparação elevadas. A única exceção foi a região Sul, que registrou alta de +1,6% no trimestre, impulsionada pelo bom desempenho em julho e agosto, embora tenha sido freada por tempestades severas no mês de setembro.
Desafios e estratégias para a reta final do ano
Projetando os desafios para a reta final do ano, marcada pela Black Friday e pelas compras de Natal, Sidney ressalta que o setor precisará focar na eficiência de conversão do tráfego existente. "Para o quarto trimestre, a recuperação do varejo físico dependerá da capacidade dos lojistas de transformar a experiência na loja. Embora a eventual desaceleração das apostas virtuais ajude a estancar a perda de renda das famílias, esse orçamento poupado deve ir primeiro para o pagamento de contas acumuladas. Por isso, cada cliente que entrar na loja precisa ser trabalhado com atendimento consultivo, agilidade e integração omnichannel", conclui o empresário.



