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Grupos da machosfera questionam voto feminino em eleição marcada por ataques a candidatas


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  • mell280

30/10/2026 15h03

Grupos da machosfera questionam voto feminino em eleição marcada por ataques a candidatas

Tais Gomes


Levantamentos identificam ofensas contra mulheres na campanha eleitoral e discursos contrários ao voto feminino; direita amplia representação no Congresso eleito para 2027

 

 

 

Dos 1.101 ataques contra candidatas identificados no X desde o início da campanha eleitoral, em 16 de agosto de 2026, 1.083 ainda estavam disponíveis em 15 de outubro. O levantamento do MonitorA, divulgado pelo InternetLab, analisou publicações direcionadas a 143 mulheres que disputaram as eleições. Em outra pesquisa, a Fundação Getulio Vargas (FGV) identificou comunidades da chamada machosfera que chegam a defender o fim do voto feminino.

Em outro recorte do monitoramento, entre 1º e 4 de outubro, o MonitorA analisou 2.202 comentários em perfis de candidatas no Instagram, YouTube, X e TikTok. Cerca de 31% foram classificados como ofensivos. Erika Hilton, Marina Silva e Simone Tebet estiveram entre os principais alvos, com ataques relacionados, sobretudo, à identidade de gênero, à idade e à condição de mulher.

O economista Erik “Ahanti” Camarano, que trabalha com grupos de homens há mais de 20 anos, discute essas correntes com a atriz Rachel Ripani no Manual da Machosfera, segunda temporada do podcast Homem Autêntico. Com dez episódios, a série tem lançamento previsto para 31 de outubro, em São Paulo.

Para ele, um dos discursos difundidos nesses ambientes apresenta os direitos conquistados pelas mulheres como uma perda para os homens. “A conversa dos red pills é que as mulheres agora mandam no mundo e os homens viraram os oprimidos. A mulher conquista um direito e o sujeito entende aquilo como uma perda dele. Se você leva isso para a política, começa a achar normal questionar até um direito como o voto feminino”, explica.

Já a pesquisa da FGV examinou 126 publicações sobre o voto feminino em 18 comunidades abertas da machosfera no Telegram, entre dezembro de 2020 e julho de 2026. Em 87% das publicações analisadas, havia manifestações explicitamente contrárias ao voto feminino.

Entre os argumentos encontrados estão afirmações de que as mulheres seriam incapazes de fazer escolhas políticas por serem supostamente mais emocionais. Há também mensagens que associam o voto feminino ao crescimento da esquerda e classificam sua conquista como um dos maiores erros da sociedade ocidental.

Das redes sociais ao debate político

A eleição de 2026 também definiu a composição do Congresso que assumirá em 2027. Segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), os partidos classificados à direita ampliaram sua representação na Câmara dos Deputados, passando de 248 eleitos em 2022 para 260 em 2026. No Senado, o número de parlamentares desse campo político passou de 32 para 48.

A Câmara terá 109 deputadas federais, ante 90 eleitas em 2022. Elas ocuparão 21,2% das cadeiras, enquanto as mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na atual legislatura, a discussão sobre a misoginia já expôs divergências no Congresso. A Câmara aprovou, em julho, o regime de urgência do Projeto de Lei 896/2023, que busca incluir crimes motivados por misoginia na legislação brasileira, por 293 votos favoráveis e 158 contrários. Dos votos contrários, 83 foram de deputados do PL. O texto, aprovado pelo Senado em março, ainda aguarda votação de mérito pelos deputados.

A atriz Rachel Ripani, cofundadora do Levante Mulheres Vivas, participou da mobilização em defesa do projeto. Ela chama a atenção para as consequências da intimidação digital na participação das mulheres em espaços públicos.

“O projeto passou pelo Senado, mas ainda depende da Câmara. A gente está falando de um problema que não fica na internet. Tem mulher que recebe ameaça de morte e tem medo de aparecer em público. Como é que se participa da vida política assim?”, questiona.




 

 




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