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Quando metade do país perde a esperança, o Brasil inteiro paga a conta


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23/10/2026 07h29

Quando metade do país perde a esperança, o Brasil inteiro paga a conta

Ana Borges


Por Brunna Boaventura (*)

A eleição presidencial terminará com um vencedor, mas dificilmente com um país reconciliado. Depois de meses de confronto político, discursos alarmistas e uma disputa apresentada como decisiva para a sobrevivência da democracia, da economia e dos valores nacionais, milhões de brasileiros chegarão ao fim da votação convencidos de que o futuro que desejavam foi derrotado. Não se trata apenas de frustração eleitoral. O problema é o dano psicológico, emocional e social produzido quando uma parcela tão expressiva da população passa a não ter esperança.

Esse processo tem implicações importantes. Quando as pessoas investem parte significativa de sua identidade, de suas relações e de suas expectativas em um resultado eleitoral, a frustração tende a ser acompanhada por sentimentos de impotência, insegurança, raiva e desconfiança. O problema se agrava quando esses sentimentos são continuamente reforçados pelas redes sociais, por discursos políticos e por ambientes de convivência nos quais a divergência passou a ser tratada como uma forma de hostilidade.

A eleição termina, mas o estado de tensão não desaparece com a divulgação do resultado. Ele pode se prolongar nas relações familiares, no ambiente de trabalho e na convivência cotidiana. Pessoas deixam de conversar sobre determinados assuntos, rompem vínculos e passam a enxergar quem pensa diferente como alguém moralmente inferior ou responsável pelos problemas do país. A polarização, nesse estágio, deixa de ser apenas uma característica do debate público e se transforma em um fator de desgaste das relações sociais. É o esgotamento emocional de uma sociedade submetida à sensação permanente de ameaça. 

Essa percepção também importa para a economia. Decisões de consumo, contratação, expansão de negócios e planejamento familiar não dependem apenas de indicadores objetivos. São influenciadas pela confiança que as pessoas depositam no futuro. Uma população convencida de que o país seguirá um caminho desastroso tende a adotar comportamentos mais defensivos, postergar decisões e reduzir sua disposição de assumir riscos. Isso não significa que a derrota eleitoral provoque automaticamente retração econômica, mas que o pessimismo disseminado pode se tornar mais um obstáculo em um ambiente já marcado pela incerteza. 

O problema não está em acreditar na capacidade de transformação de um governo. Está em transformar a eleição na única fonte possível de dias melhores. E a cada pleito, renovam-se expectativas de transformação que, quando frustradas, aprofundam a descrença nas instituições e na própria capacidade do país de avançar.

A esperança, nesse contexto, não é um sentimento abstrato ou uma manifestação ingênua de otimismo. Ela tem uma função concreta na maneira como as pessoas organizam suas vidas. É a expectativa de que o esforço presente possa produzir algum resultado que sustenta decisões como estudar, empreender, buscar um emprego melhor, constituir uma família ou iniciar um projeto. Quando essa perspectiva desaparece, o problema não se resume à tristeza ou à insatisfação política. A perda de esperança pode comprometer a motivação, enfraquecer a iniciativa e reduzir a disposição para enfrentar desafios. Uma metanálise publicada em 2026 no Journal of Clinical Psychology, que reuniu 129 estudos, identificou uma associação entre maiores níveis de esperança e menores níveis de ansiedade, sugerindo que a esperança pode desempenhar um papel relevante na resiliência e na saúde mental.

No melhor cenário, portanto, o resultado das urnas não deveria ser capaz de destruir a perspectiva de vida de milhões de pessoas. Quando isso acontece, estamos diante de um problema que ultrapassa a preferência partidária. Significa que a política passou a ocupar um espaço emocional desproporcional, enquanto outras fontes de sentido, realização e pertencimento foram colocadas em segundo plano. É justamente nos momentos de frustração que se torna necessário recuperar essas referências e compreender que a esperança não precisa depender exclusivamente das circunstâncias externas. Ela também se constrói a partir do reconhecimento das próprias capacidades, da autonomia para fazer escolhas e da possibilidade de encontrar novos caminhos, mesmo quando o cenário não corresponde às nossas expectativas.

O maior desafio do Brasil depois da eleição não será apenas administrar a divisão entre vencedores e derrotados, mas evitar que o desalento se transforme em paralisia individual e coletiva. Para isso, será necessário colocar em prática a flexibilidade cognitiva e olhar além da disputa política para redescobrir a potência que existe em cada pessoa para aprender, produzir, estabelecer relações e transformar a própria realidade. Não se trata de minimizar a responsabilidade dos governantes nem de ignorar as dificuldades econômicas e sociais, mas de reconhecer que o sentido da vida e a capacidade de construir o futuro não podem ficar condicionados à vitória de um candidato. O país do futuro precisa deixar de ser uma promessa depositada nas mãos de quem governa e começar a ser também uma construção de quem vive nele. Afinal, a esperança mais consistente não é aquela que depende de tudo acontecer como desejamos, mas a que nos permite continuar crescendo mesmo quando a realidade nos obriga a reorganizar a rota.

*Brunna Boaventura, PhD, é nutricionista, pesquisadora e educadora, com pós-doutorado em obesidade vinculado à Harvard Medical School