- mell280
22/10/2026 14h03
Desenhos de crianças palestinas revelam as marcas de três anos de guerra em Gaza
Em sessões de apoio psicossocial de Médicos Sem Fronteiras, meninos e meninas retratam perdas, violência, medo e deslocamento, enquanto a crise de saúde mental se aprofunda no território
A fila para buscar comida, a chuva atravessando a barraca, o tanque demolindo edifícios, o quadricóptero sempre presente ou os amigos com quem costumavam brincar. Dina, Rahaf, Motassem e várias outras crianças de Gaza explicam em voz baixa o significado de seus desenhos, mas as histórias que contam estão longe de ser silenciosas. Produzidos durante sessões psicossociais em grupo organizadas por Médicos Sem Fronteiras (MSF), os desenhos retratam o que essas crianças veem e sentem: memórias de uma infância marcada pelo medo e pela violência.
Três anos de uma brutal ofensiva militar israelense tiveram um efeito devastador sobre a saúde mental da geração mais jovem de Gaza. Muitas crianças perderam seus familiares, casas, escolas e amigos, enquanto deslocamentos repetidos e condições de vida catastróficas eliminaram os espaços onde elas deveriam se sentir crianças e brincar sem medo.
“Em toda Gaza, estamos observando níveis alarmantes de luto, ansiedade, distúrbios do sono e sofrimento psicológico, tanto entre adultos quanto em crianças”, afirma Franz Luef, coordenador de projetos de MSF para a Palestina. “Esses sintomas estão sendo agravados por uma crise que evoluiu para uma fase menos visível, caracterizada pelo desmonte sistemático, por parte de Israel, das condições necessárias para a sobrevivência dos palestinos.”
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas em Gaza que necessitam urgentemente de apoio psicossocial e em saúde mental mais do que dobrou desde antes do conflito, passando de cerca de 485 mil para mais de um milhão de pessoas. A assistência em saúde mental tornou-se uma parte crucial do trabalho de MSF: as equipes oferecem consultas individuais, atividades psicossociais e psicoeducativas em grupo para adultos, além de atividades recreativas para crianças e adolescentes, que são particularmente vulneráveis.
Uma infância roubada pelo genocídio
Para as crianças que tinham idade suficiente para se lembrar da vida antes do genocídio promovido por Israel, quase nada restou do mundo que conheciam. Os lugares onde elas cresceram foram destruídos. Os elementos básicos que deveriam definir a infância, como sentir-se seguro, brincar com amigos, ir à escola e passar tempo com a família, foram roubados e substituídos por memórias de violência, pela ameaça constante de novos ataques e pela paisagem de destruição. Buscar água, enfrentar filas por comida ou ajudar suas famílias a sobreviver agora faz parte de suas responsabilidades diárias. Para as crianças menores, as consequências são diferentes: algumas nem sequer conheceram outra realidade que não o deslocamento forçado e o som dos bombardeios.
“Crianças que cresceram durante a guerra e que hoje têm três ou quatro anos perderam a compreensão de muitos conceitos fundamentais”, explica Mahmoud Al-Balbisi, conselheiro de saúde mental de MSF. “Muitas não sabem o que significa ‘lar’. A barraca se tornou a casa delas, porque nunca tiveram a experiência de viver em uma residência.”
As crianças também passaram a reproduzir em brincadeiras e desenhos aquilo que veem ao seu redor. Em vez de jogos que refletem uma infância comum, os conselheiros observam crianças imitando a distribuição de ajuda humanitária, descrevendo ataques ou brincando entre os escombros de prédios destruídos.
Dina, uma menina de nove anos, lembra-se de ter sido forçada a deixar sua casa com a família enquanto empurrava o pai ferido em uma cadeira de rodas, depois que o pé dele foi atropelado por um caminhão durante a coleta de ajuda humanitária. Dina deseja algo simples: “Que tudo volte a ser como era antes. Minha avó e meu avô.”
Rahaf, uma menina de 11 anos, contou: “Às vezes fico na janela e vejo os tanques atirando. Digo para minha mãe: ‘Venha para dentro porque os tanques estão atirando e disparando projéteis’. Tenho medo pela minha família, então peço para ela entrar. Minha prima morreu. Não consigo esquecê-la. Eu brincava com ela o tempo todo.”
Efeitos da violência prolongada
Os efeitos da violência prolongada são visíveis no comportamento cotidiano das crianças. Os conselheiros relatam aumento de ansiedade, medo, gritos, comportamento agressivo, hábito de roer unhas e episódios de micção involuntária entre os mais jovens.
Na clínica de MSF em Zaytoun, na Cidade de Gaza, conselheiros oferecem apoio psicossocial às crianças por meio de música, jogos, histórias e desenhos, proporcionando um espaço para se expressarem. Nas sessões de acompanhamento, eles ajudam as crianças a se reconectarem com quem elas eram antes da guerra e a compreenderem suas emoções. “Tentamos lembrá-las de sua humanidade e de que elas são crianças”, afirma Al-Balbisi.
Atividades como “Meu corpo é meu reino” ajudam as crianças a reconhecer seu direito à segurança e à proteção física em um ambiente onde elas estão cada vez mais expostas ao perigo.
“Após três anos de violência, com condições de vida e perdas desumanas, as crianças não carregam apenas memórias da guerra; suas experiências remodelaram a forma como elas entendem a segurança e a própria infância”, diz Luef. “Ainda não existe segurança para as crianças em Gaza. Bombardeios podem ocorrer a qualquer momento, e elas continuam vivendo em medo constante, sem oportunidade de se recuperar ou escapar do que já suportaram. As necessidades em saúde mental em Gaza são enormes, mas os serviços e os espaços disponíveis para a recuperação das crianças permanecem severamente limitados após a destruição sistemática do sistema de saúde pelas forças israelenses.”
Entre o final de 2023 e setembro de 2026, equipes de MSF realizaram mais de 132 mil consultas individuais de saúde mental e ofereceram suporte a mais de 246 mil pessoas por meio de atividades em grupo.
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