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22/10/2026 06h30
Deslocou o ombro uma vez: qual é o risco de acontecer novamente?
Por Dr. Raphael Ferreira Jorge, médico ortopedista e traumatologista, especialista em cirurgia do ombro e cotovelo
Deslocar o ombro pela primeira vez pode parecer um episódio isolado, especialmente quando a articulação é recolocada no lugar e a dor diminui. No entanto, a luxação não deve ser banalizada. Dependendo da idade, da prática esportiva e das lesões provocadas pelo deslocamento, o risco de acontecer novamente pode ser elevado. Por esse motivo, mais do que tratar a dor imediata, é fundamental avaliar o que aconteceu dentro da articulação e quais medidas podem evitar novos episódios.
A idade é o fator mais importante nessa avaliação. Quanto mais jovem o paciente for no momento da primeira luxação, maior tende a ser o risco de repetição. Em pacientes com menos de 20 a 25 anos, a probabilidade de recorrência pode ultrapassar 50% e, em determinados grupos, como atletas de esportes de contato, chegar a 70% a 90%. Na maioria dos casos, um novo deslocamento ocorre nos primeiros dois anos após o episódio inicial.
Entre pessoas acima dos 40 anos, a possibilidade de um novo deslocamento diminui consideravelmente, mas cresce a preocupação com lesões associadas, como a ruptura do manguito rotador, conjunto de músculos e tendões responsáveis por ajudar a movimentar e estabilizar o ombro. Outros fatores também influenciam esse risco, como o sexo masculino, a frouxidão ligamentar, a prática de esportes de contato ou que exigem movimentos frequentes com os braços acima da cabeça, além da presença de perda óssea identificada nos exames de imagem.
Mas por que o ombro pode ficar mais vulnerável depois da primeira luxação? A explicação está nas estruturas que mantêm a articulação estável. Quando a cabeça do úmero, osso do braço, sai de sua cavidade, pode ocorrer o desprendimento do lábio glenoidal, estrutura que ajuda a aprofundar o encaixe e serve de fixação para os ligamentos, essa alteração é conhecida como lesão de Bankart. Além disso, a cápsula articular pode sofrer distensão, e o impacto entre os ossos pode provocar lesões na cabeça do úmero ou na borda da cavidade do ombro. Em pacientes jovens, essas estruturas nem sempre cicatrizam na posição adequada, favorecendo a instabilidade e aumentando a possibilidade de novos deslocamentos. Por isso, o atendimento após a primeira luxação é decisivo.
Em caso de lesão, a principal orientação é procurar um pronto-socorro e evitar qualquer tentativa de colocar o ombro no lugar por conta própria. O procedimento, chamado de redução, deve ser realizado por um profissional, preferencialmente após uma radiografia para descartar fraturas que poderiam ser agravadas por manobras inadequadas. Depois da redução, uma nova radiografia permite verificar o posicionamento da articulação. O uso de tipoia por um curto período pode ajudar no controle da dor, mas o acompanhamento não deve terminar nessa etapa. A avaliação com um ortopedista especialista em ombro é importante para identificar possíveis lesões internas. Em jovens e atletas, a ressonância magnética pode ser indicada para orientar a escolha do tratamento.
Mas toda luxação precisa de cirurgia? Nem sempre. O tratamento sem cirurgia, que envolve um período curto de imobilização e fisioterapia para fortalecimento dos músculos do ombro e da escápula, pode ser suficiente para pacientes mais velhos, menos ativos e sem perda óssea relevante. Por outro lado, quando o ombro já se deslocou mais de uma vez, existe perda óssea significativa ou são identificadas lesões associadas, a cirurgia pode ser indicada. Em jovens atletas, principalmente aqueles que praticam esportes de contato, o procedimento pode ser considerado já após o primeiro episódio, com o objetivo de reduzir o risco de recorrência e evitar danos adicionais à articulação.
A cirurgia, entretanto, não elimina completamente a possibilidade de uma nova luxação. Na técnica artroscópica, realizada por vídeo para reinserir o lábio glenoidal no osso, as taxas de recorrência ficam em torno de 5% a 15%, podendo ser maiores em atletas de contato. Nos casos de perda óssea, técnicas como a cirurgia de Latarjet permitem reconstruir a borda da cavidade do ombro, apresentando taxas de recorrência ainda menores. A escolha do procedimento depende das características de cada paciente, das lesões identificadas e das demandas físicas individuais. Por isso, a decisão deve ser compartilhada entre médico e paciente, considerando também a importância de uma reabilitação adequada.
Independentemente do tratamento escolhido, alguns cuidados ajudam a reduzir o risco de novos episódios. A fisioterapia deve ser realizada até a conclusão do programa indicado, com atenção ao fortalecimento do manguito rotador e dos músculos que estabilizam a escápula. Nas primeiras semanas, também é importante evitar movimentos de risco, especialmente aqueles em que o braço fica aberto e girado para trás, como na posição de arremesso.
O retorno às atividades esportivas precisa ser gradual e ocorrer somente após liberação médica, quando houver recuperação da força e da amplitude dos movimentos. Mesmo depois da alta, manter os exercícios de fortalecimento é uma medida importante para a estabilidade da articulação. Outro cuidado é reconhecer os sinais de que o ombro continua instável. Sensação de que a articulação está escapando ou saindo e voltando ao lugar, insegurança para realizar determinados movimentos, estalos acompanhados de dor e episódios súbitos de fraqueza ou formigamento são motivos para uma nova avaliação. O mesmo vale para luxações que passam a ocorrer com traumas cada vez menores ou até durante o sono.
É importante compreender que cada novo deslocamento pode provocar danos adicionais ao lábio glenoidal e à cartilagem, além de aumentar a perda óssea. Com o tempo, essas alterações podem tornar o tratamento mais complexo e elevar o risco de artrose precoce. Como principal mensagem de orientação como especialista, afirmo que o primeiro episódio de luxação merece atenção, mesmo quando a recuperação inicial parece satisfatória. Identificar precocemente os fatores de risco e as lesões associadas permite definir o tratamento mais adequado para cada caso, preservar a estabilidade do ombro e reduzir a possibilidade de complicações futuras.


