- mell280
09/10/2026 15h05
Dólar recua e juros caem: mercado reage a novas pesquisas eleitorais
Análise de mercado | Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue - 09/10/2026
Análise de mercado | Fernando Saad Benatti, estrategista global da Avenue – 09/10/2026
O movimento que estamos observando hoje é essencialmente local, concentrado no Brasil. Podemos afirmar isso porque, enquanto o dólar se valoriza globalmente, conforme indica o DXY, a moeda americana perde força frente ao real, chegando a ser negociada abaixo de R$ 5.
Em primeiro lugar, tivemos a divulgação de duas pesquisas eleitorais, AtlasIntel e Datafolha, que apontam Flávio Bolsonaro à frente de Lula em um eventual segundo turno.
Como venho destacando, o mercado trabalha com uma espécie de cálculo de probabilidades: considera as chances de vitória de Flávio Bolsonaro e os possíveis benefícios de uma política fiscal mais disciplinada em comparação com um cenário de reeleição de Lula. Essa combinação gera maior otimismo, favorecendo o recuo das taxas de juros, a valorização do Ibovespa e o fortalecimento do real.
As pesquisas divulgadas reforçam essa percepção, ao elevar a probabilidade atribuída pelo mercado a uma vitória de Flávio Bolsonaro. Embora o movimento de segunda-feira tenha sido muito mais expressivo, observamos, ao longo da semana, que as notícias e os desdobramentos relacionados à candidatura contribuíram para sustentar o otimismo dos investidores.
Por outro lado, tivemos hoje a divulgação do IPCA de setembro, que registrou alta de 0,82%, acima das expectativas do mercado. O resultado mostrou avanço de preços em todas as categorias, após uma leitura anterior marcada pela deflação.
Em condições normais, um dado de inflação acima do esperado tende a pressionar a curva de juros. No entanto, apesar do recuo observado nos principais vértices da curva brasileira, ainda identificamos pressão nos prazos mais curtos.
Isso indica que, embora o mercado continue trabalhando com a possibilidade de mais um corte da Selic na próxima reunião do Banco Central, essa expectativa parece menos consolidada. A inflação acima do esperado adiciona incerteza à trajetória de curto prazo dos juros, mesmo diante do otimismo relacionado ao cenário eleitoral.
Há ainda um componente político importante nessa leitura do IPCA. O mercado acompanhava o indicador com atenção diante da possibilidade de que um resultado de inflação abaixo das expectativas pudesse ser utilizado pelo governo Lula como argumento eleitoral, reforçando a narrativa de controle dos preços na reta final da campanha.
Com o IPCA acima do esperado, esse possível argumento perde força. Embora esse fator tenha um peso bastante marginal, ele também pode contribuir para parte do alívio observado hoje na curva de juros.
Em síntese, o movimento do mercado brasileiro nesta sexta-feira parece ser predominantemente influenciado pelo cenário político doméstico. As pesquisas eleitorais ampliam, na percepção dos investidores, a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro, candidato ao qual o mercado atribui expectativas de maior disciplina fiscal.
Essa leitura ajuda a explicar a valorização do real e o recuo dos juros, mesmo diante de um cenário internacional de fortalecimento do dólar e de um resultado de inflação doméstica acima das expectativas.


