06/10/2026 09h00
O nome que permanece: Ana Clara
Diante de uma menina morta aos cinco anos e de um julgamento que nunca aconteceu, resta perguntar o que a memória, a literatura e a justiça ainda podem preservar
por Josué Souza*

Nos últimos dias, viralizou o episódio “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, da série Revelando, apresentado por Camila Pitanga. O vídeo recupera o caso de Ana Clara Gomes Machado, menina de cinco anos morta em fevereiro de 2021, em Niterói, atingida por disparos enquanto brincava perto de casa. Como Camila Pitanga, fiquei pensando na mãe de Ana Clara. Não porque exista palavra capaz de devolver uma criança tirada pela violência que atravessa tantas comunidades periféricas do Brasil, mas porque algo também se interrompe nos adultos que ficam.
A mãe diz, no episódio, que não quer vingança, mas justiça. A vingança olha para trás, procurando resposta para a dor; a justiça olha para o que uma sociedade deve fazer quando uma vida é interrompida.
Ana Clara tinha cinco anos, idade em que uma criança deveria brincar sem precisar saber de onde vem um tiro. Essa realidade também atravessa Elefante, em que uma bala “perdida” interrompe a vida de Gugu. Sua ausência é vivida por seus pais, Guilherme e Joshua, e ele permanece na memória e em POC, seu elefantinho imaginário. Escrevi o livro a partir da inquietação com histórias reais, como as de João Pedro Mattos Pinto e Miguel Otávio Santana da Silva, mortos em 2020, sem reproduzi-las: quis pensar no que fazemos com aquilo que poderia ter sido evitado.
A morte de uma criança não termina quando ela morre. Continua na mãe que precisa falar dela, no irmão que um dia perguntará o que aconteceu, em quem pronuncia seu nome. E continua na Justiça. O episódio reconstrói o processo contra Bruno Dias Delaroli, acusado pela morte de Ana Clara, preso em flagrante e depois solto; o julgamento ainda não aconteceu. Aborda também a atuação do senador Flávio Bolsonaro em recurso para impedir o júri popular. Mas, antes de qualquer disputa política ou judicial, é preciso ver as vidas por trás de processos e cargos: Ana Clara e Gugu, João Pedro e Miguel Otávio, e a dor de mães e pais que não pode ser apagada.
Minha inquietação vai além da violência: é o que vem antes e depois dela. Como olhamos para a criança da periferia e para a infância negra, como aceitamos que certas crianças vivam mais perto da violência e nos acostumamos a ouvir que houve confronto antes de perguntar quem estava no meio. Uma criança não deveria precisar viralizar para que seu nome volte a circular.
A literatura não impede o disparo nem substitui a Justiça. Mas pode recusar-se a esquecer: guardar o nome, a infância, o que existia antes da notícia. Em Elefante, tentei isso com Gugu, para que uma criança continuasse existindo na memória de quem a ama.
Eu gostaria de viver em um país em que escrever sobre infâncias interrompidas fosse apenas literatura, e uma mãe não precisasse esperar anos para saber se a Justiça reconhecerá o que nunca deixou de ser evidente: aquela vida importava e uma criança tinha direito ao futuro. A memória permanece porque se recusa a desaparecer. E olhar novamente é, às vezes, o começo de não aceitar que tudo continue como está.
*Josué Souza é acadêmico de Letras Português/Inglês na Universidade de São Paulo (USP). É autor de Elefante, obra que explora temas como luto, memória, infância, imaginação, diversidade, amor, perda e permanência.
Instagram: @jsescrittor
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