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06/10/2026 06h44
A influência convertida em votos e o novo mapa de primeiras-damas no Brasil
Karina Torres
Por Ana Nery de Farias
As eleições de 2026 comprovam que a função de primeira-dama está deixando de ser apenas coadjuvante aqui no Brasil: a força de Michelle Bolsonaro nas urnas é o retrato mais claro dessa mudança. Eleita senadora pelo Distrito Federal com 938.496 votos, Michelle entra para a história como a senadora mais votada da capital. Na posse de Jair Bolsonaro, em 2019, a ex-primeira-dama quebrou o protocolo e discursou em Libras. Aquele gesto pode ter sido o embrião de uma identidade política própria, construída diante das câmeras e sem cargo formal.
Outro dado que merece atenção é o de Gracinha Caiado, ex-primeira-dama de Goiás, eleita senadora por seu estado. O marido, Ronaldo Caiado, não chegou ao segundo turno da disputa presidencial, mas ela se elegeu. A força eleitoral de uma primeira-dama pode, portanto, ser independente da do marido, porque nasce também da presença territorial e da proximidade com a população. É o chamado soft power: um poder invisível. Não há cargo, mas há influência real e, mais do que nunca, há também voto.
A primeira-dama é, quase sempre, a pessoa mais próxima de quem governa, e essa proximidade, somada à exposição pública permanente, produz um capital político que não depende de previsão legal. Nesse espaço, a comunicação é parte central do exercício da função. Por isso, para quem decide atuar, a função exige preparação, conhecimento do território e coerência entre imagem e atuação.
A próxima legislatura traz outros dados. Há primeiras-damas que chegam ao posto já eleitas para cargos legislativos e que talvez nem tenham a intenção, ou a possibilidade prática, de exercer a função tradicional, em razão dos mandatos. É o caso de Rayssa Furlan, no Amapá, e de Marina JHC, em Alagoas, eleitas senadoras paralelamente à vitória dos maridos nos estados. Também teremos primeiras-damas deputadas federais: Alessandra Harber, no Pará, e Rosangela Moro, no Paraná. Essas mulheres talvez não possam ser "a esposa que acompanha", como normalmente são vistas. Elas são parlamentares que precisarão equilibrar agenda legislativa e papel institucional.
Há também a possibilidade de o país dobrar o número de primeiros-cavalheiros em relação aos últimos anos. Com mulheres que podem ser eleitas governadoras no Acre, Amazonas, Distrito Federal e Tocantins, é possível chegar a quatro “homens consortes” na próxima legislatura. A diferença de tratamento poderá ser acompanhada de perto: como não há uma tradição que dite como eles devem ocupar o espaço público, os primeiros-cavalheiros costumam despertar mais curiosidade do que avaliação.
O saldo do primeiro turno já ajuda a dimensionar o novo mapa das primeiras-damas dos governos estaduais do Brasil. Dos 20 estados com a disputa resolvida já na primeira rodada, 9 terão novas primeiras-damas como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Maranhão. Cada troca traz uma nova gestão de imagem, de causas, de relação com o território e de uso do soft power. Outras 8 se mantêm. Os governadores de Mato Grosso, Pernambuco e Santa Catarina não têm cônjuge oficial que exerça a função.
Já o posto de primeira-dama do Brasil segue aberto. Não sabemos se Janja Lula da Silva permanecerá por mais quatro anos ou se Fernanda Bolsonaro assumirá a função. O fato é que, antes mesmo do segundo turno, as duas já ocupam o centro da cena. Janja foi lembrada nominalmente por Lula em seu discurso neste domingo (04/10), no qual ele disse que ela teria exclusividade em um momento com ele antes do trabalho para o segundo turno. Fernanda, por sua vez, já participou da organização da entrevista coletiva concedida por Flávio Bolsonaro antes mesmo do resultado final das eleições.
Em ambos os casos, a primeira-dama já aparece como parte das estratégias de comunicação. Mas só as urnas dirão qual dos candidatos vencerá a eleição e, consequentemente, qual das duas ficará com um dos postos mais observados e avaliados do país.
Ana Nery de Farias é jornalista, com mais de 15 anos de cobertura política, e consultora de primeiras-damas desde 2019. Já atuou na comunicação de três esposas de governadores.



