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Por que a democracia precisa de uma educação para a divergência?


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  • mell280

06/10/2026 06h28

Por que a democracia precisa de uma educação para a divergência?

Luísa Santini


Professor de Linguística e autor de "Comunicação Responsiva", Lucas Nascimento aponta caminhos para uma educação que ensine a lidar com opiniões diferentes sem transformar quem discorda em inimigo

O resultado das urnas no primeiro turno das Eleições 2026 reafirmou uma polarização bastante extremada, mas a maioria da população brasileira está cansada da animosidade política. Contraintuitivo, não?! A divisão política que vivenciamos hoje não brota apenas de divergências profundas de valores, mas também da maneira como temos nos comunicado uns com os outros. Quando nos relacionamos com o contraditório sob a premissa de que possuímos o monopólio da virtude e da verdade, o debate cede espaço à humilhação, à desqualificação moral e à diabolização do opositor, levando à construção de “muros de Berlim” relacionais e políticos. Penso que precisamos, mais do que nunca, de uma educação para a divergência democrática. 

Por mais que muitos se engajem em torno de discursos estridentes, há uma parcela maior que deseja a superação da hostilidade e da polarização tóxica em que estamos metidos. As violências verbais e simbólicas diárias alimentam um fenômeno em que o adversário político deixa de ser visto como alguém com prioridades distintas e passa a ser enxergado como uma ameaça ou um inimigo a ser exterminado. Levantamentos do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP apontam que, embora a tensão cresça nas franjas engajadas das redes sociais, cerca de 69% dos brasileiros não se enquadram na lógica extremada, revelando que a maioria sofre os impactos de um debate tóxico. 

O debate rudimentar, pautado pelo cancelamento, pela ofensa e "lacração" ideológica, tem gerado um efeito colateral grave: o afastamento do cidadão comum das instâncias de deliberação. O primeiro turno da eleição, por exemplo, bateu recorde de apatia: 21,08% não foram às urnas, ou seja, 33,4 milhões de eleitores deixaram de votar. O maior percentual desde as eleições gerais de 1998. O que está por trás disso? Muita coisa, porém uma delas é a ausência de letramento argumentativo que empurra parcelas da população para o distanciamento político ou para os braços de extremistas. 

As democracias só existem porque o dissenso as move – uma vez que ele é inerente à pluralidade humana –, mas diante de novas maneiras de interagir, especialmente em ambientes digitais, precisamos dispor de mecanismos civilizatórios atualizados para processar o desacordo sem deixar a população tão vulnerável aos conspiracionismos, negacionismos e aos preconceitos. Nesse sentido, compreender o alcance da polarização exige políticas voltadas à educação cidadã e digital, sendo o letramento argumentativo precondição para que a democracia deixe de ser um conceito abstrato e convide minorias, religiosos e laicos para o debate respeitoso sobre que coletividade realmente queremos. 

Como tudo começa pela educação, nosso sistema educacional precisa ser melhor em educar para a divergência democrática. Infelizmente, as escolas ainda tratam o dissenso de maneira superficial, reduzindo-o à aplicação de fórmulas mecânicas para a redação de exames. Educar para a pluralidade passa pela educação para argumentação, e argumentar não é vencer o outro pela imposição de razões, mas construir soluções coletivas para problemas em comum. Não podemos mais alimentar uma sociedade adoecida em sua forma de debater que transforma qualquer troca de ideias em um campo minado. 

A democracia só sobrevive se formos capazes de restaurar a civilidade sem abdicar da franqueza intelectual. Precisamos saber comunicar o que pensamos ser o melhor, sem nos calar e sem humilhar e ferir. Ideias conflitantes precisam coexistir no mesmo espaço, seja na praça pública, na empresa ou na sala de estar, sem exigir a eliminação simbólica ou moral do opositor. Se quisermos superar a polarização tóxica que corrói o nosso futuro coletivo, o primeiro passo é aceitar que discordar é um direito democrático e que respeitar a humanidade de quem pensa diferente é o melhor antídoto contra a barbárie. 

Sobre o autor: Lucas Nascimento é Professor de Linguística, Discurso e Argumentação da UEFS, intelectual público, escritor e consultor de empresas. Doutor pela UFBA, com pós-doutorados pela USP. É autor do lançamento "Comunicação Responsiva: a virtude de transformar conflitos em oportunidades" (Alta Books, 2026), e de "O Veneno da Língua" (Editora Mundo Cristão, 2025). 

 

 


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