01/10/2026 06h27
A eleição que também nos educa
Miriã Salles, diretora do Colégio Santo Ivo International School.
"A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele." Hannah Arendt
Em períodos eleitorais, o país volta sua atenção para as propostas, as declarações e os confrontos entre os candidatos. Mas existe outra dimensão desse processo que merece ser observada: o que as crianças aprendem ao acompanhar não apenas o debate político, mas também a maneira como os adultos reagem a ele.
Depois de quase meio século dedicado à educação e à convivência com crianças e adolescentes, aprendi que eles não escutam apenas aquilo que lhes dizemos. Observam, sobretudo, quem somos quando não estamos tentando ensiná-los.
Essa constatação não me coloca em uma posição confortável. Ao contrário, obriga-me a perguntar quantas vezes minhas atitudes ensinaram algo diferente daquilo que eu pretendia defender com minhas palavras. A distância entre o discurso e a maneira como agimos não é um problema exclusivo dos outros. Ela atravessa todos nós.
É fácil reconhecer a intolerância naquele de quem discordamos. Mais difícil é percebê-la em nosso vocabulário, na impaciência com que interrompemos alguém, no prazer com que ridicularizamos o adversário ou na facilidade com que compartilhamos uma informação apenas porque ela confirma nossas convicções.
As crianças observam essas pequenas escolhas. Percebem como reagimos no trânsito, como tratamos quem nos atende no mercado, como nos comportamos diante de uma derrota no futebol e o que fazemos quando somos contrariados em uma conversa familiar. Também escutam comentários que julgamos inofensivos e acompanham, muitas vezes em silêncio, nossas reações nas redes sociais.
Todos somos educadores, ainda que em diferentes graus de proximidade e influência.
Essa responsabilidade é coletiva, embora não se distribua igualmente. Quanto maior for a visibilidade, a autoridade ou o alcance da palavra de um adulto, maior será o impacto do modelo que ele oferece.
Não educamos apenas quando assumimos formalmente essa tarefa. Nossos comportamentos passam a compor o mundo com base no qual as crianças constroem referências sobre como viver com os outros.
Os estudos do psicólogo Albert Bandura mostraram a importância da aprendizagem por observação. Isso não quer dizer que uma criança reproduza automaticamente tudo o que testemunha. Significa que as atitudes dos adultos passam a integrar o repertório com o qual ela interpreta situações, estabelece relações e faz suas escolhas.
Essa compreensão muda a pergunta que costumamos fazer. Em vez de pensarmos apenas em como devemos educar as crianças, talvez precisemos perguntar: quem devemos nos tornar para que elas encontrem em nós referências que mereçam levar para a vida?
Educar as crianças exige que os adultos continuem educando a si mesmos.
Adela Cortina nos lembra que o ethos, o caráter, se forja nas escolhas reiteradas. Não é algo que possuímos de maneira definitiva, mas uma construção cotidiana. Formamo-nos cada vez que escolhemos como reagir: contendo um impulso, escutando antes de responder, reconhecendo um erro ou revendo uma certeza.
Não se trata de aparentar perfeição diante das crianças. Elas não precisam de adultos infalíveis. Também aprendem quando presenciam alguém admitindo uma falha, pedindo desculpas e tentando reparar o dano.
As campanhas eleitorais intensificam divergências, mobilizam emoções e expõem nossas convicções. Podem estimular a argumentação e a participação democrática, mas também alimentar rótulos, simplificações e hostilidades. Nenhum de nós está inteiramente protegido desse risco.
Por isso, as eleições podem representar uma grande oportunidade de humanização das relações. Não precisamos esconder nossas posições nem criar diante das crianças uma falsa aparência de unanimidade. Podemos mostrar que pessoas com ideias diferentes não precisam se transformar em inimigas e que escutar não significa concordar.
Humanizar o debate, porém, não significa considerar equivalentes todas as posições. Divergências democráticas não podem ser confundidas com discursos que atacam direitos, incitam a violência ou negam a dignidade de determinados grupos.
A tolerância não exige passividade. Ideias devem ser examinadas, questionadas e, quando necessário, rejeitadas. O desafio está em confrontá-las sem reproduzir a mesma desumanização que condenamos. É possível estabelecer limites e defender convicções sem sentir prazer em humilhar quem está do outro lado.
Essa talvez seja uma das aprendizagens mais difíceis da democracia.
Se queremos que as novas gerações construam um mundo mais humano, não basta esperar que sejam melhores do que nós. Precisamos permitir que a presença delas também nos eduque, revele nossas incoerências e nos faça reconsiderar a maneira como convivemos.
Este período pode nos conduzir a uma pergunta que antecede a escolha de qualquer candidato: quem nos tornamos enquanto escolhemos?
A urna registrará nosso voto. As crianças, porém, estarão aprendendo com o caminho que fizermos até ela.
*Miriã Salles é pedagoga, psicopedagoga e diretora do Colégio Santo Ivo International School.



