- mell280
25/09/2026 07h00
86,5% dos trabalhadores admitem esconder comportamentos da empresa, revela pesquisa nacional
Levantamento da Heach com 2.487 profissionais mostra que 69,4% já procuraram outro emprego sem contar ao empregador, 54,7% fizeram entrevista durante o expediente e quase metade admite fingir estar ocupada para evitar mais trabalho
Existe uma parte importante da vida profissional brasileira que não aparece nos relatórios de RH, nas avaliações de desempenho ou nos indicadores de produtividade.
Uma pesquisa nacional realizada pela Heach Recursos Humanos com 2.487 profissionais revela que 86,5% dos entrevistados admitem ter praticado pelo menos um de oito comportamentos que normalmente permanecem fora do conhecimento das empresas. São aproximadamente 2.151 pessoas entre os participantes do levantamento.
Batizado de “A Vida Secreta do Trabalhador Brasileiro”, o estudo investigou situações que vão da procura silenciosa por outro emprego ao uso do tempo durante o expediente, passando por produtividade, faltas, atestados e informações apresentadas no currículo. Os resultados expõem uma relação entre empresas e trabalhadores consideravelmente menos transparente do que aquela registrada pelos sistemas corporativos.
O comportamento mais comum é também um dos dados que mais chamam a atenção para a gestão de talentos: 69,4% dos profissionais afirmam já ter procurado outro emprego sem comunicar à empresa atual. Em números absolutos, são 1.726 dos 2.487 entrevistados.
O segundo resultado mostra como as fronteiras entre vida pessoal e trabalho se tornaram permeáveis. Para 66,8% dos participantes, resolver assuntos particulares durante o expediente já fez parte da rotina profissional.
Mais da metade, 54,7%, afirma ter participado de uma entrevista para outro emprego durante o horário de trabalho. Outros 51,2% reconhecem que já disseram estar trabalhando quando, na realidade, realizavam alguma atividade pessoal.
Quase metade já fingiu estar ocupada para evitar mais trabalho
Um dos resultados mais provocativos do levantamento está diretamente relacionado à produtividade. Quase metade dos entrevistados, 48,6%, afirma já ter fingido estar ocupada para evitar receber novas tarefas. São 1.209 profissionais dentro da amostra.
O número levanta uma questão que ultrapassa o comportamento individual: até que ponto as empresas conseguem distinguir quem está efetivamente sobrecarregado, quem está desengajado e quem simplesmente aprendeu a administrar a própria percepção de disponibilidade?
É nessa fronteira entre comportamento individual, cultura e gestão que a pesquisa ganha relevância para o debate sobre produtividade no Brasil.
O levantamento também avançou sobre temas mais sensíveis. Entre os entrevistados, 39,7% afirmam já ter inventado ou exagerado uma justificativa para atraso ou ausência. Outros 33,6% dizem já ter utilizado atestado mesmo considerando que poderiam trabalhar. E 29,4% reconhecem ter mentido, omitido ou exagerado alguma informação apresentada no currículo.
Não se trata simplesmente de uma pesquisa sobre “maus funcionários”
Para Elcio Teixeira, CEO da Heach Recursos Humanos, interpretar os números como uma lista de transgressões seria uma leitura equivocada.
Segundo ele, os oito comportamentos pesquisados têm naturezas diferentes e não podem ser tratados como equivalentes. Procurar uma nova oportunidade sem comunicar ao empregador, por exemplo, faz parte da autonomia profissional e não representa, por si só, qualquer irregularidade.
O que o conjunto dos resultados revela é algo mais amplo. Existe uma distância relevante entre a organização formal do trabalho e aquilo que efetivamente acontece na rotina profissional.
“As empresas sabem muito sobre seus funcionários do ponto de vista cadastral, contratual e de desempenho, mas sabem muito menos sobre o que acontece na relação cotidiana entre indivíduo e trabalho. Quando 86,5% dos profissionais reconhecem pelo menos um comportamento que permanece fora do radar da organização, talvez o dado mais importante não seja a transgressão, mas a dimensão dessa zona invisível na relação de trabalho”, afirma Elcio.
De acordo com Teixeira, os números também precisam ser compreendidos dentro das transformações recentes do mercado de trabalho.
“Não podemos colocar no mesmo lugar alguém que procura outra oportunidade profissional e alguém que falseia uma informação no currículo. São fenômenos completamente diferentes. Mas, quando observamos o conjunto, surge uma pergunta importante para as empresas: quanto do comportamento real das pessoas nossas ferramentas de gestão conseguem, de fato, enxergar?”, complementa o CEO.
O desafio da produtividade pode ser também um desafio de confiança
Se 51,2% dos entrevistados já disseram estar trabalhando enquanto faziam algo pessoal e 48,6% já fingiram estar ocupados para evitar novas demandas, indicadores baseados exclusivamente em presença, disponibilidade aparente ou tempo conectado podem oferecer uma fotografia incompleta do trabalho efetivamente realizado.
Há outro sinal importante. Se 69,4% dos profissionais já procuraram uma nova colocação sem o conhecimento da empresa, parte relevante dos movimentos de carreira começa muito antes de aparecer nas estatísticas de turnover.
Conforme Elcio, isso significa que uma organização pode acreditar que possui uma equipe estável justamente quando uma parcela de seus profissionais já está olhando para fora. A resposta a essa distância entre o comportamento observado e o comportamento real não deveria ser simplesmente ampliar os mecanismos de controle.
“Quanto maior a distância entre aquilo que as pessoas fazem e aquilo que sentem que podem dizer à organização, maior é o ponto cego da gestão. A resposta não necessariamente está em vigiar mais. Talvez esteja em compreender melhor cultura, liderança, carga de trabalho, confiança e qualidade das relações”, conclui o especialista.


