22/09/2026 09h26
Riedel propõe ampliar água, renda e infraestrutura nas aldeias de Mato Grosso do Sul
Leonardo Rocha
Plano de Governo prevê saneamento, inclusão produtiva, geração de renda e valorização cultural; governador diz que parceria entre Estado e União busca enfrentar problema histórico do abastecimento nas comunidades indígenas
Eduardo Riedel propõe ampliar políticas voltadas aos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, com foco em água, saneamento, infraestrutura, geração de renda e inclusão produtiva. O Plano de Governo também prevê valorização cultural, esporte e desenvolvimento comunitário. A estratégia busca combinar proteção social, hoje exemplificada pelo atendimento alimentar a 20 mil famílias indígenas, com medidas destinadas a ampliar autonomia econômica, qualidade de vida e dignidade nas aldeias.
Abrir uma torneira e encontrar água disponível é um gesto cotidiano para milhões de pessoas. Em comunidades indígenas de Mato Grosso do Sul, porém, o acesso regular ao abastecimento ainda faz parte de um conjunto de problemas estruturais que atravessam gerações. É a partir dessa necessidade básica que o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, organiza parte das propostas de seu Plano de Governo para os povos indígenas no período de 2027 a 2030.
A agenda apresentada para um eventual novo mandato vai além do abastecimento. Reúne saneamento, inclusão produtiva, geração de renda, fortalecimento das famílias, valorização cultural, infraestrutura dos territórios e participação dos povos indígenas em políticas públicas de esporte e desenvolvimento comunitário.
Entre esses compromissos, porém, a água ocupa lugar central.
O plano estabelece como objetivo “ampliar as ações de abastecimento de água e saneamento para as aldeias indígenas de MS”. O tema aparece novamente quando o documento propõe ações integradas para os povos indígenas, com fortalecimento da infraestrutura dos territórios e “foco em água”.
A prioridade registrada no programa coincide com o discurso adotado recentemente por Riedel durante entrevista em Dourados. Na ocasião, o governador afirmou que o Estado trabalha na implantação de sistemas de captação, armazenamento e distribuição de água nas comunidades indígenas.
“Nós vamos ter água nessas comunidades indígenas”, afirmou. Segundo Riedel, trata-se de um problema discutido há décadas e que passou a ser enfrentado por meio da articulação entre os governos estadual e federal.
Ao explicar o objetivo dessas intervenções, o governador resumiu a questão em uma palavra: dignidade.
A proposta, segundo ele, é garantir sistemas de “extração, de reservação, de distribuição de água que dê dignidade”. Riedel acrescentou que as ações não devem ficar restritas à região de Dourados, mas alcançar comunidades indígenas em outras partes de Mato Grosso do Sul.
Da segurança alimentar à geração de renda
O Plano de Governo também revela uma mudança de ênfase entre as políticas apresentadas como resultado da atual gestão e aquilo que Riedel propõe para os próximos quatro anos.
No balanço do mandato, o documento informa que 20 mil famílias indígenas residentes em áreas rurais recebem cestas alimentares. O atendimento integra a política estadual de segurança alimentar. Somadas às 47 mil famílias beneficiadas pelo Mais Social, são 67 mil famílias alcançadas pelas duas iniciativas citadas no plano.
Para o próximo ciclo, porém, a proposta procura avançar da proteção imediata para ações voltadas também à autonomia econômica.
O documento prevê “desenvolver ações integradas para povos indígenas, priorizando inclusão produtiva, geração de renda, fortalecimento das famílias e da infraestrutura dos territórios, com foco em água”.
As duas frentes respondem a necessidades diferentes. A distribuição de alimentos busca enfrentar uma situação imediata de vulnerabilidade. Já a inclusão produtiva e a geração de renda procuram criar condições para que as famílias ampliem sua capacidade de produzir, trabalhar e obter renda própria.
Água como base para melhorar a vida
Água e saneamento aparecem entre as propostas mais objetivas do plano.
Além do compromisso específico de ampliar o abastecimento e o saneamento nas aldeias, a água é citada como prioridade no fortalecimento da infraestrutura dos territórios indígenas. A repetição mostra o peso dado ao tema dentro da agenda apresentada por Riedel.
Em Dourados, o governador relacionou esses investimentos a um conceito que vem utilizando para explicar parte das políticas de sua gestão: a mobilidade social.
Na visão apresentada por ele, infraestrutura, saúde, educação e crescimento econômico não devem ser entendidos como fins em si mesmos, mas como instrumentos capazes de melhorar concretamente a vida das pessoas.
Ao falar das comunidades indígenas, Riedel incluiu água e habitação nessa mesma lógica.
“Tudo isso faz parte do processo de melhoria de vida para que haja mobilidade social”, afirmou.
No caso das aldeias, porém, essa discussão começa por necessidades muito concretas. Ter água disponível significa melhores condições para alimentação, higiene e rotina das famílias. O saneamento, por sua vez, alcança diretamente a saúde e a qualidade de vida.
É nesse ponto que aquilo que poderia parecer apenas uma obra de infraestrutura passa a integrar uma política mais ampla de desenvolvimento social.
Moradia entra na mesma estratégia
Durante a entrevista em Dourados, Riedel também mencionou ações habitacionais em comunidades indígenas.
Embora não tenha detalhado naquele momento a abrangência dos projetos, o governador colocou a moradia ao lado da água e da infraestrutura entre as medidas destinadas a melhorar as condições de vida nas aldeias.
No Plano de Governo, essa visão aparece de maneira mais ampla na proposta de fortalecimento da infraestrutura dos territórios indígenas.
A lógica é semelhante: enfrentar carências estruturais que interferem diretamente no cotidiano das famílias antes de avançar para outras dimensões do desenvolvimento econômico e social.
Cultura também pode gerar desenvolvimento
A agenda proposta não se limita às necessidades materiais.
No eixo de Cultura, Patrimônio, Economia Criativa e Desenvolvimento Comunitário, o Plano de Governo prevê “desenvolver programas voltados à valorização das culturas indígenas e das comunidades tradicionais”.
A proposta aproxima preservação cultural e desenvolvimento econômico ao relacionar identidade, artesanato, cooperativismo, turismo e desenvolvimento territorial.
A cultura aparece, assim, sob duas perspectivas complementares. De um lado, como patrimônio e expressão da identidade dos povos indígenas. De outro, como possibilidade de fortalecer atividades produtivas, organização comunitária e geração de renda.
Essa abordagem se conecta diretamente à proposta de inclusão produtiva. Em vez de tratar cultura e economia como campos separados, o plano procura articulá-los por meio da economia criativa, do cooperativismo e do turismo.
Esporte como instrumento de inclusão
Outro eixo prevê ampliar a presença dos povos indígenas nas políticas esportivas estaduais.
O plano propõe aumentar a participação de pessoas com deficiência, idosos, povos indígenas e outros grupos vulneráveis nas ações de esporte.
A medida integra uma estratégia mais ampla de fortalecimento do esporte educacional, comunitário e de participação, especialmente em territórios considerados vulneráveis.
Nesse caso, os povos indígenas aparecem inseridos numa política geral de inclusão, e não em um programa esportivo específico voltado às aldeias.
Uma política que atravessa diferentes áreas
Essa característica se repete em outras partes do Plano de Governo. O documento propõe integrar ações destinadas às populações tradicionais e a grupos historicamente vulneráveis, indicando que a política para os povos indígenas não ficaria restrita a uma única secretaria ou programa.
As propostas atravessam áreas como infraestrutura, proteção social, desenvolvimento econômico, cultura, esporte e políticas comunitárias.
Na prática, a agenda pode ser organizada em quatro grandes frentes: garantir condições básicas por meio de água e saneamento; ampliar a autonomia econômica com inclusão produtiva e geração de renda; valorizar as culturas indígenas associando identidade e desenvolvimento comunitário; e ampliar a participação dessa população nas demais políticas sociais do Estado.
Da proteção imediata à busca por autonomia
Tomadas em conjunto, as propostas indicam uma tentativa de ampliar o alcance das políticas voltadas às comunidades indígenas.
No atual mandato, um dos principais números apresentados pelo governo é o atendimento alimentar a 20 mil famílias indígenas por meio da distribuição de cestas.
Para o próximo período, Riedel mantém a proteção social entre as políticas públicas, mas acrescenta uma segunda frente: criar condições para geração de renda, produção e maior autonomia econômica.
Não se trata, portanto, de substituir a assistência. A proposta apresentada é combinar respostas às necessidades imediatas com políticas capazes de produzir mudanças mais duradouras.
Nesse desenho, água e saneamento formam a base material. Inclusão produtiva e geração de renda procuram ampliar a autonomia das famílias. Cultura e economia criativa aparecem como caminhos para fortalecer comunidades e identidades, enquanto esporte e outras políticas sociais ampliam a presença dos povos indígenas nas ações do Estado.
É nesse terreno que Riedel desenha sua agenda para os próximos quatro anos: partir de políticas de proteção já existentes e avançar sobre problemas históricos de infraestrutura, buscando combinar água, saneamento, renda, produção e valorização cultural.
E é justamente na questão mais básica que o governador sintetiza o objetivo de toda essa estratégia. Ao falar do abastecimento nas comunidades indígenas, Riedel diz que não se trata apenas de construir sistemas de captação, reservação e distribuição.
Trata-se, nas palavras dele, de garantir “dignidade”.
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