21/09/2026 07h00
Produtividade no campo: produzir mais já não basta, é preciso produzir melhor
(*) Por Welinton Silva, coordenador Nacional Comercial da YANMAR South America
A possibilidade de uma maior pressão sobre o abastecimento global de alimentos a partir de 2027, segundo um relatório recente da JPMorgan, colocou novamente a segurança alimentar no centro das discussões do agronegócio. A análise, que ganhou repercussão após um alerta sobre a necessidade de ampliar estoques de alimentos, não representa uma certeza de crise, mas chama atenção para um conjunto de fatores que já desafia o produtor: custos elevados, volatilidade das commodities, restrições de crédito, disponibilidade de insumos, eventos climáticos extremos e dificuldades logísticas.
Nesse cenário, a produtividade passou a significar mais do que produzir um volume maior por hectare. O desafio é produzir mais e melhor, utilizando de forma eficiente os recursos disponíveis.
Durante muito tempo, o aumento da produção esteve associado principalmente à expansão da área cultivada. Hoje, essa equação é mais complexa. O produtor precisa buscar maior produtividade dentro da área que já possui, reduzindo perdas, controlando o custo por hectare e realizando cada operação no momento adequado.
Isso exige olhar para toda a cadeia produtiva. Do preparo do solo ao plantio, passando pelo manejo e pelas aplicações, até a colheita e o transporte, onde cada etapa interfere no resultado final. Quando uma operação é realizada fora da janela ideal, por exemplo, pode haver perda de potencial produtivo, além de retrabalho e aumento do consumo de combustível, mão de obra e outros recursos.
É justamente nesse contexto que a mecanização ganha importância. Mas mecanizar não significa simplesmente escolher uma máquina maior ou mais potente. Significa encontrar o equipamento adequado à realidade da propriedade, à cultura, ao relevo, às condições do solo e ao tempo disponível para realizar cada atividade.
Em culturas com janelas operacionais mais curtas, ter a máquina disponível no momento certo pode ser decisivo. Um equipamento com capacidade insuficiente pode provocar atrasos, enquanto uma máquina superdimensionada pode permanecer subutilizada e elevar o custo por hectare. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre investimento, capacidade operacional e necessidade real.
A eficiência também precisa ser medida de forma mais ampla. O volume produzido por hectare continua sendo um indicador fundamental, mas, isoladamente, não mostra toda a realidade da operação. É preciso considerar quanto foi gasto para produzir, o consumo de combustível, o tempo necessário para cada atividade, os custos de manutenção e o período em que os equipamentos ficaram efetivamente disponíveis para o trabalho.
Essa visão se torna ainda mais relevante diante da possibilidade de restrições na oferta ou de aumento dos preços de insumos. Os últimos anos mostraram como conflitos geopolíticos e problemas logísticos em diferentes partes do mundo podem afetar cadeias essenciais à agricultura. Quando um recurso se torna mais caro ou mais difícil de obter, aproveitar melhor aquilo que está disponível passa a ser ainda mais importante.
O planejamento, portanto, assume um papel central. Monitorar as condições climáticas, programar a compra de insumos, realizar a manutenção preventiva das máquinas e antecipar as operações são medidas que ajudam o produtor a reduzir a exposição aos imprevistos. Em uma atividade tão dependente de janelas específicas, disponibilidade e confiabilidade dos equipamentos também fazem parte da estratégia.
A mecanização ainda pode contribuir para enfrentar outro desafio estrutural do campo: a disponibilidade de mão de obra. Em diferentes culturas e regiões, determinadas atividades continuam dependendo de trabalho manual, enquanto outras podem ganhar eficiência com a mecanização adequada. O exemplo de países como o Japão mostra como a falta de mão de obra pode acelerar esse processo, mas o caminho brasileiro precisa considerar a diversidade das propriedades e das culturas existentes no país.
Por isso, ampliar o acesso à mecanização, especialmente entre pequenos e médios produtores, não significa apenas disponibilizar equipamentos maiores e mais potentes. É necessário desenvolver soluções compatíveis com diferentes escalas de produção e necessidades. A realidade de uma grande propriedade de grãos é diferente daquela encontrada em uma operação de fruticultura ou em uma pequena propriedade familiar.
Para a indústria, essa realidade reforça a necessidade de uma mudança de perspectiva. Mais do que oferecer produtos, é preciso compreender os desafios enfrentados pelo produtor e desenvolver soluções que contribuam para a eficiência de toda a operação. Questões como disponibilidade de peças, assistência técnica, confiabilidade e adequação do equipamento também interferem diretamente na capacidade de cumprir as janelas de trabalho.
O Brasil tem condições de ampliar sua contribuição para a produção mundial de alimentos sem que o aumento da oferta dependa exclusivamente da expansão de áreas. Reduzir perdas, melhorar a eficiência das operações e aproveitar melhor os recursos das áreas já cultivadas são caminhos igualmente importantes.
Se o alerta para 2027 aponta para um cenário em que a oferta global de alimentos pode enfrentar novas pressões, a resposta do campo precisa ser construída desde agora. E ela passa por uma combinação de tecnologia, planejamento e eficiência.
No fim, produtividade não deve ser entendida apenas como quantidade produzida. É a capacidade de transformar terra, insumos, máquinas, mão de obra, tempo e capital em resultado. Produzir mais continua sendo fundamental, mas produzir com eficiência, previsibilidade e rentabilidade será cada vez mais determinante para a sustentabilidade da atividade agrícola.
Welinton Silva é bacharel em Administração pela Estácio e possui MBA em Business/Commerce pela USP/Esalq. Com mais de 15 anos de experiência na área comercial do agronegócio, iniciou sua trajetória como consultor de vendas na Agro Kayama, onde atuou por quase oito anos. Em 2019, ingressou na YANMAR Brasil como gestor regional comercial, passando a atuar na gestão de vendas, desenvolvimento de concessionárias, planejamento comercial e análise de mercado. A partir de 2022, assumiu a posição de coordenador de Desenvolvimento de Negócios e Inteligência de Mercado, com foco na expansão e no fortalecimento da rede de concessionários agrícolas, inteligência competitiva e planejamento estratégico. Desde setembro de 2024, é Coordenador Nacional Comercial da YANMAR Brasil, liderando a estratégia comercial da operação agrícola no país, o desenvolvimento da rede de concessionários e iniciativas voltadas ao crescimento e posicionamento da marca no mercado brasileiro.




