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Menopausa: muito além do calorão, um novo olhar para saúde da mulher


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10/09/2026 10h00 - Atualizado em 10/09/2026 12h57

Menopausa: muito além do calorão, um novo olhar para saúde da mulher

Muito além do "calorão": menopausa na visão da medicina funcional integrativa.

POstado por redação Hosana de Lourdes


Médico Anderson Miziara falou do assunto ao tudodoms
A menopausa é uma fase natural da vida da mulher, mas os sintomas e as mudanças provocadas pela queda hormonal podem afetar muito mais do que a temperatura do corpo. Sono, humor, memória, disposição, massa muscular, saúde óssea e cardiovascular também podem ser impactados, tornando o acompanhamento médico fundamental para preservar a qualidade de vida e a longevidade.
 
Em um tema que ainda é cercado de dúvidas, tabus e, muitas vezes, desinformação, o médico Dr. Anderson Miziara, de Maracaju, aborda o assunto especialmente para o Portal Tudo do MS, trazendo um olhar da medicina funcional integrativa sobre a menopausa e os cuidados que podem fazer diferença nessa etapa.
 
A proposta é ampliar a conversa e levar informação às mulheres de Maracaju e de todo Mato Grosso do Sul, mostrando que cuidar da saúde nessa fase vai muito além de combater o chamado “calorão”. É preciso olhar para a mulher de forma integral, compreender os sinais do organismo e buscar orientação profissional para que cada caso seja avaliado de maneira individualizada.
 
Cansaço, insônia, névoa mental, dores no corpo, alterações de humor. A menopausa não é só uma onda de calor — é um evento que afeta o corpo inteiro e atinge coração, ossos, cérebro e até o intestino. Para a medicina funcional integrativa, o cuidado começa muito antes e vai além da reposição hormonal, bora saber mais do assunto: 
 
 
 
Uma fase da vida (quase) invisível
 
Ela chega, em média, aos 48 anos — mas raramente avisa. A menopausa, definida como a última menstruação, confirmada após doze meses sem o ciclo, é precedida por um longo processo de transição chamado climatério, que pode começar já aos 38, 40 anos, quando os ciclos se tornam irregulares e os hormônios começam a oscilar. Só que, ao contrário do que o senso comum sugere, os sintomas não esperam a menstruação cessar: muitas mulheres sentem os primeiros sinais anos antes do diagnóstico.
 
O cenário brasileiro é expressivo: dados do IBGE reunidos pela FEBRASGO estimam cerca de 17 milhões de mulheres no climatério, entre 40 e 65 anos — 9,2 milhões delas já na menopausa. Apesar disso, a fase segue cercada de tabus, silêncio, eufemismos e piadas. 
 
Muitas mulheres costumam ouvir, mesmo em consultórios médicos, que "isso é normal, é só uma fase" e não são devidamente tratadas, e com isso sofrem com os efeitos devastadores da menopausa. Uma publicação de 2025 no European Journal of Gynaecology foi mais direta: classificou a menopausa como uma condição desafiadora, mal compreendida e sistematicamente subtratada. Normalizar o sofrimento não é o mesmo que cuidar dele.
 
O "calorão" é só a ponta do iceberg
 
Quando se fala em menopausa, a imagem que vem à cabeça é a da onda de calor. Ela existe e afeta mais de 70% das mulheres — e, ao contrário do que se imaginava, não passa rápido: estudos de longo prazo mostram que os fogachos podem persistir por mais de sete anos. Mas reduzi-los ao centro da questão é um erro que custa caro à saúde feminina.Mulheres que não sentem fogacho também precisam de tratamento.
 
O espectro de sintomas documentado é muito mais amplo: disfunção sexual, humor disfórico e alterações de sono; fadiga física e queixas reumatológicas, como dores articulares e musculares; alterações cognitivas e perda de memória — a famosa "névoa mental"; ressecamento vaginal e sintomas urinários; além, claro, dos fogachos e ondas de calor. São queixas que atingem o corpo, a mente e a vida social — afetam o trabalho, os relacionamentos, a libido e a autoestima. E há um alerta importante: os sintomas podem ser debilitantes e não devem ser minimizados por ninguém — nem pela família, nem pelo profissional de saúde.
 
Um evento de corpo inteiro
 
Talvez o ponto mais subestimado seja este: a queda hormonal não é um problema localizado. Receptores de estrogênio, androgênio e progesterona estão presentes em todos os órgãos do corpo da mulher — massa muscular, sistema cardiovascular, sistema nervoso central e tecido ósseo, como aponta a Diretriz Brasileira de Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa (2024). Por isso, a privação hormonal é um evento sistêmico, não localizado.
 
O estrogênio protege o endotélio, a camada interna dos vasos, estimulando a síntese de óxido nítrico — vasodilatação e proteção da parede arterial — e reduzindo a oxidação do LDL, o principal agressor da parede dos vasos. Ele também regula o equilíbrio entre a atividade osteoclástica e osteoblástica, sendo fundamental para o remodelamento ósseo: nos primeiros anos após a menopausa, a perda de densidade óssea se acelera, aumentando o risco de osteoporose e fraturas. No plano metabólico, a privação hormonal se associa a mudanças na composição corporal e no perfil metabólico. Em resumo: o que acontece na menopausa não fica na menopausa. Ela é um divisor de águas para a saúde cardiovascular, óssea, metabólica e cognitiva das próximas décadas.
 
E é aqui que entra um dos insights centrais da medicina funcional integrativa: o corpo não funciona em gavetas. O metabolismo hormonal depende de um intestino saudável — o chamado "estroboloma", o conjunto de bactérias intestinais que participa do metabolismo e da recirculação do estrogênio. Uma disbiose, um intestino com permeabilidade aumentada, pode comprometer a eficácia de qualquer terapia. O fígado também tem papel central: o estrogênio passa por fases de detoxificação hepática que dependem de nutrientes como vitaminas do complexo B, ácido fólico e glutationa. Cuidar do hormônio, na visão integrativa, é cuidar do intestino, do fígado, do sono, da mente da alimentação e do estilo de vida ao mesmo tempo.
 
O silêncio que custa caro
 
Diante de um quadro tão amplo, o que se vê é subtratamento em escala. Pesquisa Ipsos divulgada em outubro de 2025 mostrou que 44% das brasileiras com sintomas da menopausa não fazem nenhum tipo de tratamento — e as barreiras começam antes do consultório. No levantamento, familiares apareceram como origem de informações equivocadas para 41% das entrevistadas; profissionais de saúde, para 38%. Ou seja: a desinformação chega de casa e, por vezes, do próprio consultório.
 
Parte desse receio tem história. O estudo WHI, publicado em 2002 com uma metodologia hoje considerada inadequada — estrogênio equino conjugado associado a um progestagênio sintético, via oral, em mulheres em média 12 anos após a menopausa —, gerou um alerta de caixa preta da FDA e décadas de "hormonofobia". Mulheres passaram a temer a terapia hormonal mais do que as doenças que ela ajuda a prevenir, e médicos passaram a evitar prescrevê-la. Revisões posteriores demonstraram que os riscos foram superestimados, com melhora significativa quando se ajusta a seleção das pacientes, a via de administração e o tipo de hormônio utilizado.
 
A ciência, porém, avançou. Em um marco regulatório histórico, a FDA removeu, em 10 de novembro de 2025, os alertas de caixa preta dos produtos de terapia hormonal — uma validação regulatória das evidências acumuladas nas últimas décadas. No Brasil, o Ministério da Saúde publicou em 2026 um manual de atenção às mulheres na transição da menopausa, e as sociedades médicas atualizaram consensos reforçando a individualização do cuidado.
 
O problema, agora, não é falta de informação científica: é falta de acesso, de acolhimento e de escuta.
 
O cuidado começa na escuta
 
A boa notícia é que existe tratamento — e ele começa muito antes de qualquer receita. O primeiro passo é um atendimento que escute a mulher de verdade, sem minimizar queixas. Os sintomas devem ser investigados e documentados, porque o diagnóstico nem sempre aparece em exame: em ciclos irregulares, uma coleta de sangue pode pegar um pico hormonal transitório e mascarar um quadro ativo de climatério. A clínica deve sempre sobrepor o exame isolado — confiar exclusivamente nos valores laboratoriais pode levar ao subdiagnóstico e à ausência de tratamento adequado em pacientes sintomáticas.
 
Quando a terapia hormonal é indicada — sobretudo para mulheres com menos de 60 anos ou dentro dos primeiros dez anos após a menopausa, a chamada "janela de oportunidade" —, a decisão deve ser individualizada: avaliação de risco cardiovascular, escolha da via de administração, tipo de hormônio e dose mínima eficaz. A via transdérmica é preferencial, por apresentar menor risco trombótico, já que não passa pela primeira passagem hepática. E a escolha do progestagênio importa: a progesterona bioidêntica, além de proteger o endométrio, tem efeito GABAérgico, com benefícios para o sono, o humor e a ansiedade — algo que as progestinas sintéticas não oferecem. Os resultados clínicos costumam aparecer entre dois e três meses de tratamento.
 
É aqui, porém, que a medicina funcional integrativa propõe uma mudança de postura que muitos ainda desconhecem: a terapia hormonal não deve ser iniciada de forma isolada. Além da reposição hormonal, o cuidado passa pela "preparação do terreno" — otimização metabólica e inflamatória, protocolo de emagrecimento quando necessário (incluindo, quando indicado, o uso de medicamentos, como a semaglutida e tirzepatida), alimentação adequada, suporte nutricional estratégico, cuidado com o intestino, sono de qualidade e manejo do estresse. Minhaexperiência clínica documenta resultados expressivos comacompanhamento integrado.
 
O que não pode continuar é o padrão observado frequentemente em minha rotina de consultório: mulheres climatéricas ou menopausarecebendo apenas antidepressivos, sem que a origem hormonal das queixas seja valorizada — perpetuando sintomas, e assimcomprometendo a saúde, qualidade de vida e a longevidade. 
 
Informação é o primeiro tratamento
 
A menopausa não é uma doença — é uma fase da vida – mas aumenta o risco de outras doenças graves. 
 
Ela exige cuidado, informação, acolhimento e acompanhamento. 
 
Tratá-la com atenção é fundamental para prevenção de: doenças cardiovasculares, osteoporose, artrose, sarcopenia, declínio cognitivo/demência, ansiedade, depressão... E evitar sofrimento desnecessário — é melhorar a saúde e qualidade de vida para os 30, 40, 50 anos que ainda virão.
 
Na visão da medicina funcional integrativa, o equilíbrio hormonal é um pilar entre muitos — e não o único. Alimentação, exercício físico, saúde intestinal, manejo do estresse e sono caminham junto com a terapia hormonala. É um cuidado que enxerga a mulher como um todo, não apenas o sintoma.Médico Anderson Miziara   (Foto Hosana de Lourdes)
 
Quebrar o tabu é o primeiro passo. Falar sobre menopausa na mesa de jantar, no ambiente de trabalho e nas consultas médicas; reconhecer os sintomas como legítimos; e buscar profissionais que acolham, em vez de minimizar. A mulher que se informa deixa de atravessar essa fase no escuro. E a sociedade que a acolhe deixa de tratar como invisível exatamente quem sustenta famílias, empresas e comunidades — em plenitude, por muito mais tempo.
 
Fontes dos dados
 
● Arquivos fornecidos: Fisiologia Endócrina Feminina e TRH — Ginecologia Integrativa e Aula: Terapia Hormonal na Menopausa — Evidências, Segurança e Atualização Clínica (material de educação médica continuada, 2025/2026)
● FEBRASGO — 17 milhões de mulheres no climatério no Brasil (febrasgo.org.br)
● CNN Brasil — 44% das brasileiras com menopausa não fazem tratamento (Ipsos, outubro de 2025)
● Agência Brasil — Anvisa aprova medicamento não hormonal contra sintomas da menopausa (2026)
● Ministério da Saúde — Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa (2026)
 

 





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