- mell280
05/09/2026 04h47
Dia de Campo apresenta cultivares e manejo do trigo irrigado no Cerrado
A Embrapa participou, na quarta-feira (2), do Dia de Campo de Trigo Irrigado, realizado pela Coopa-DF na Fazenda Maragato e Chimango, no PAD-DF. O evento contou com quatro estações e, em uma delas, os participantes puderam conhecer algumas das cultivares de trigo irrigado desenvolvidas pela Embrapa, além de práticas de manejo recomendadas para as condições do Cerrado.
Na abertura do evento, o presidente da Coopa-DF, José Guilherme Brenner, destacou o pioneirismo da cooperativa na triticultura do Cerrado e a parceria histórica com a Embrapa, além da participação mais recente de outras empresas no desenvolvimento de novas cultivares. Segundo ele, a cultura vive um momento de transição, com materiais mais antigos enfrentando maior pressão de doenças e novas opções ainda em processo de conhecimento e validação pelos produtores. Apesar dos desafios, Brenner demonstrou confiança de que esse processo poderá levar o trigo no Cerrado a um novo patamar tecnológico e produtivo.
Na estação técnica, o pesquisador da Embrapa Cerrados Julio Albrecht apresentou a trajetória e os avanços da cultura do trigo no Cerrado, destacando o papel da Embrapa no desenvolvimento do sistema de produção e de cultivares adaptadas à região. Segundo ele, a instituição trabalha com trigo no Cerrado desde 1975 e acompanhou a expansão da cultura, que passou de uma área inicialmente muito pequena para cerca de 400 mil hectares atualmente, com perspectiva de alcançar um milhão de hectares nos próximos anos. Nesse processo, o pesquisador ressaltou a importância de parceiros como a Coopa-DF e a participação crescente da iniciativa privada no desenvolvimento e lançamento de cultivares.
Ao abordar o trigo irrigado, Albrecht explicou que, no Brasil Central, a recomendação geral é o cultivo em áreas acima de 500 metros de altitude. “A janela de semeadura vai de abril ao fim de maio, mas, de forma geral, maio oferece as melhores condições para a obtenção de altas produtividades”, afirmou. Segundo ele, plantios mais precoces aumentam o risco de brusone e manchas foliares, enquanto semeaduras mais tardias elevam a possibilidade de ocorrência de chuvas na colheita, com impactos sobre a germinação e a qualidade dos grãos.
Entre as cultivares apresentadas, Albrecht destacou a BRS 264, lançada em 2006 e ainda uma das mais plantadas no Cerrado devido à combinação de alta produtividade, precocidade e qualidade industrial. A cultivar apresenta ciclo entre 110 e 120 dias e já alcançou 9,6 toneladas por hectare em 119 dias, resultado que, segundo o pesquisador, evidencia seu alto potencial produtivo em relação ao ciclo. Para ele, a qualidade do glúten e a boa aceitação pelos moinhos também contribuem para sua permanência no mercado.
Outra cultivar apresentada foi a BRS Savana, inicialmente recomendada para cultivo de sequeiro e cuja indicação deverá ser ampliada para áreas irrigadas. Desenvolvida para as condições do Cerrado, apresenta tolerância ao calor, à seca e à brusone, além de boa qualidade industrial. Segundo ele, em lavouras de sequeiro, essa cultivar já apresentou rendimentos superiores a 80 sacas por hectare e, sob irrigação, resultados entre 125 e 145 sacas por hectare, desempenho que motivou a ampliação de sua recomendação.
Já a BRS Cracker, segundo ele, foi desenvolvida para atender a um mercado específico de trigo destinado à fabricação de biscoitos. Derivada da genética da BRS 264, ela apresenta menor força de glúten e grão mais mole, características desejáveis para esse segmento da indústria. Por se tratar de um nicho de mercado, Albrecht recomendou que a produção seja previamente articulada com os moinhos. A cultivar também é precoce, produtiva e apresenta maior tolerância à brusone que a BRS 264.
“Embora outras culturas possam proporcionar maior rentabilidade imediata, o trigo oferece benefícios como a produção de palhada que reduz a infestação de ervas daninhas, a supressão de doenças, a redução da infestação de nematóides além de outras melhorias para o sistema de produção. Outro diferencial do Cerrado é produzir trigo na entressafra e realizar as primeiras colheitas do País, o que favorece preços, qualidade e comercialização”, afirmou.
Manejo do trigo irrigado
O pesquisador Jorge Chagas, da Embrapa Trigo, apresentou orientações práticas para o manejo do trigo irrigado no Cerrado, destacando que altas produtividades dependem principalmente do planejamento e do equilíbrio entre cultivar, época de semeadura, densidade de plantas, adubação, irrigação e uso do regulador de crescimento.
Segundo ele, o planejamento começa pela organização da rotação e da sucessão de culturas nos pivôs, de forma que a área esteja disponível na época mais adequada para a semeadura. Também é importante antecipar a aquisição de sementes e demais insumos. “A escolha da cultivar deve considerar, além do potencial produtivo, a época de semeadura, o ciclo, o manejo exigido e a aceitação do produto pelos moinhos”, recomendou.
Para obter maior potencial produtivo, Chagas apontou como período preferencial de semeadura aproximadamente a primeira quinzena de maio, com ajustes de acordo com a cultivar e os riscos de doenças e chuvas na colheita. A uniformidade da semeadura também foi destacada como fator essencial, pois interfere na eficiência do uso dos insumos e, principalmente, na aplicação do regulador de crescimento.
Ele informou que as cultivares BRS 264, BRS Savana e BRS Cracker apresentam características semelhantes de manejo e menor perfilhamento, o que exige atenção à densidade de semeadura. “A recomendação fica em torno de 400 a 450 sementes viáveis por metro quadrado, mas o cálculo deve considerar o peso de mil sementes, a germinação e a plantabilidade. Densidades excessivas aumentam o risco de acamamento e podem exigir redução da adubação nitrogenada ou ajustes na irrigação”, explicou.
Na adubação, o pesquisador ressaltou a importância de conhecer as condições do solo e o histórico da área para garantir que as plantas recebam os nutrientes necessários. Segundo ele, os primeiros 30 a 35 dias após a emergência são especialmente importantes, pois boa parte do potencial produtivo do trigo é definida nesse período. Por isso, o manejo adequado da fertilidade desde o início da lavoura é fundamental para alcançar boas produtividades.
Outro ponto destacado pelo pesquisador foi o uso do regulador de crescimento, que ajuda a controlar o porte das plantas, fortalecer sua estrutura e reduzir o risco de acamamento. Segundo Chagas, essa prática é importante para alcançar altas produtividades no trigo irrigado. “Para que o produto tenha bom resultado, é preciso considerar fatores como a quantidade de plantas na área, a adubação, a uniformidade da lavoura e, principalmente, o momento correto da aplicação. A identificação desse momento é um dos aspectos mais técnicos do manejo do trigo irrigado”, afirmou.
Chagas também recomendou evitar a irrigação imediatamente após a aplicação do regulador, para reduzir perdas do produto, e chamou a atenção para possíveis sobreposições durante a pulverização. Informou ainda que a Embrapa Cerrados disponibiliza gratuitamente uma ferramenta de monitoramento da irrigação, que está sendo atualizada para contemplar as principais cultivares utilizadas atualmente na região. Acesse em https://hidro-cpac.nuvem.ti.embrapa.br/.
Ele ressaltou, no entendo, que não existe um manejo único para todas as propriedades. “O produtor deve fazer ajustes graduais conforme a resposta da cultura e as características de cada área. Em sistemas irrigados, nos quais o trigo convive com diferentes rotações, plantas de cobertura, hortaliças, algodão e outras culturas, o manejo deve ser construído considerando todo o sistema produtivo”, afirmou.
Avaliação em campo
O Dia de Campo foi realizado na Fazenda Maragato e Chimango, do produtor Alan Cenci. Há mais de 20 anos cultivando trigo com materiais da Embrapa, ele acompanha de perto a evolução da cultura no Cerrado. Dos 560 hectares da propriedade, 180 são destinados ao trigo, em rotação com soja, milho e feijão. Para Cenci, o avanço das cultivares, especialmente em produtividade e resistência a doenças, tem sido fundamental para dar mais segurança ao produtor.
A fazenda também funciona como vitrine e área de avaliação de novos materiais. Neste ano, 16 cultivares de três empresas estão sendo comparadas e serão colhidas separadamente para análise de rendimento e qualidade no moinho. O ano passado (2025) o destaque maior foi a cultivar da Embrapa BRS Savana que produziu 145 sacos/hectare. “Os materiais que se destacarem aqui são os que provavelmente vamos plantar nos próximos anos”, afirmou.
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