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AgrochemShow aponta crédito restrito e maior pressão regulatória para a safra 2026/27


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14/08/2026 10h56

AgrochemShow aponta crédito restrito e maior pressão regulatória para a safra 2026/27

Kassi Bonissoni


Evento reuniu aproximadamente 1.000 participantes de 12 países e mostrou que recordes de registros coexistem com demora nas análises, novas exigências de risco e incertezas no abastecimento

Registro de agrotóxicos, avaliação de risco, cadeia de suprimentos da China, crédito para a safra 2026/27, agricultura regenerativa, tecnologia de aplicação e inteligência artificial estiveram entre os principais temas do 17º Brasil AgrochemShow, realizado nos dias 3 e 4 de agosto, no Centro de Eventos São Luís, em São Paulo.

Organizado pela AllierBrasil em parceria com o Conselho Chinês para Promoção do Comércio Internacional da Indústria Química (CCPIT CHEM), o encontro reuniu aproximadamente 1.000 participantes de 12 países. A exposição abrangeu agroquímicos, bioinsumos, fertilizantes, equipamentos, laboratórios, consultorias, logística e outros serviços para o agronegócio.

Recorde de registros não eliminou o passivo

O Brasil aprovou o recorde de 912 registros de agrotóxicos em 2025 e havia concedido outros 473 até 7 de julho de 2026, segundo dados apresentados por Flavio Hirata, sócio da AllierBrasil e fundador do look2agro™. O ritmo de aprovações, entretanto, não significa que o acesso ao mercado tenha se tornado rápido. Entre os produtos aprovados em 2025, as ações judiciais reduziram o prazo médio em aproximadamente um ano e meio, mas não eliminaram o passivo regulatório.

Hirata também destacou que 158 produtos foram retirados do mercado e 228 pleitos foram cancelados em 2025. Segundo ele, esses casos representam investimentos que não se converteram em produtos disponíveis aos agricultores nem em retorno para as empresas. A apresentação ainda tratou da implantação do Sistema Integrado de Agrotóxicos, Produtos de Controle Ambiental e Afins (SISPA), do sistema FLORA e do aumento do controle pós-registro.

Adriana Torres de Sousa, gerente de Monitoramento e Avaliação do Risco da Gerência-Geral de Toxicologia da Anvisa, explicou que a RDC nº 998/2025 padronizou a avaliação do risco não dietético para operadores, trabalhadores de reentrada, residentes e transeuntes. A vigência operacional começou em 1º de junho de 2026, e a apresentação do Documento de Avaliação de Risco Ocupacional e de Residentes (DAROC) passou a ser obrigatória em determinados processos. Pedidos sem o documento podem ficar sobrestados.

A regulamentação ainda incompleta da Lei nº 14.785/2023 também mantém espaço para disputas judiciais. Luciana Fabri Mazza, sócia do escritório Mazza e Manente de Almeida Advogados, mostrou que MAPA e Anvisa adotam interpretações diferentes sobre a aplicação imediata de prazos e procedimentos previstos na lei, o que continua alimentando a judicialização.

Crédito e China pressionam as decisões de compra

Para a safra 2026/27, Marcelo Pedroso, gerente de suprimentos do Grupo Agromave, apontou crédito mais restrito, endividamento dos agricultores, volatilidade dos fertilizantes e piora das relações de troca. O grupo, que possui 17 lojas e atende mais de 40 municípios, procura fornecedores capazes de combinar qualidade, competitividade comercial e eficiência logística.

A perspectiva das empresas compradoras também apareceu no debate conduzido por José Francisco de Paula Neto, superintendente de negócios da Coplacana. A cooperativa apresentou as demandas de agricultores e os desafios de abastecimento e comercialização de defensivos, fertilizantes, máquinas e outros insumos.

No comércio internacional, Zhang Jinlong, consultor atuando na indústria chinesa de agroquímicos, informou que as importações brasileiras de pesticidas somaram aproximadamente 333,4 mil toneladas no primeiro semestre de 2026, queda de 7,5%. Apesar da retração, as exportações chinesas de produtos formulados ao Brasil voltaram a crescer em junho.

Conflitos e restrições logísticas afetaram o fornecimento de petróleo, enxofre, bromo e gás natural, utilizados pela indústria. Zhang ponderou, porém, que a incerteza também pode ser usada para estimular compras antecipadas, embora o mercado chinês continue convivendo com excesso de capacidade produtiva e pressão sobre preços.

Eficiência deixou de ser apenas uma pauta ambiental

Os resultados do projeto Regenera Cerrado mostraram como eficiência produtiva e sustentabilidade estão se aproximando. Eliana Maria Gouveia Fontes, coordenadora científica da iniciativa e pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, apresentou dados de mais de 1.600 hectares de soja e milho. Os talhões regenerativos adotaram aproximadamente 70% das práticas avaliadas, ante 37% nos sistemas convencionais.

Nas áreas com maior Índice Regenerativo, a população de Fusarium oxysporum foi 44,2% menor e a de Fusarium solani, 18,7% inferior. O trabalho também registrou melhoria da infiltração de água e da estrutura do solo, mais de 50 táxons de abelhas e maior controle biológico. A expansão do modelo, entretanto, ainda depende de capacitação, assistência técnica, métricas, tecnologias de monitoramento e crédito adaptado ao período de transição.

Marcelo da Costa Ferreira, professor titular da Unesp de Jaboticabal, relacionou o aumento da demanda mundial por alimentos à necessidade de produzir mais por hectare. Tecnologias de aplicação, drones e pulverizações localizadas foram apontados como instrumentos para melhorar a deposição, reduzir deriva, desperdícios e exposição a agroquímicos.

Outro destaque foi o uso prático da inteligência artificial. Guilherme Sanches, engenheiro agrícola, especialista em Inteligência Artificial e Big Data e criador do projeto OagronomIA, mostrou como essas ferramentas já podem apoiar diferentes atividades na rotina dos profissionais do agronegócio. Segundo ele, a capacitação será necessária para que o setor incorpore a tecnologia sem perder produtividade e competitividade.

Estudos regulatórios e conexão internacional

Nos bate-papos técnicos, Terry Chow, diretor comercial da ALS em Hangzhou, e Diogo Zoltay, gerente do Laboratório de Toxicologia e Ecotoxicologia da ALS Laboratórios, abordaram estratégias regulatórias e estudos conduzidos sob Boas Práticas de Laboratório para produtos biológicos e agroquímicos.

Em outra sessão, Lahys Caetano Tomaz, sócia e diretora da SCI-AGRO, apresentou as diferenças entre os estudos de five batch destinados a produtos genéricos e a novos ingredientes ativos. Sergio Graff, diretor médico da Toxiclin, discutiu o DAROC sob a perspectiva da toxicologia médica e da avaliação dos grupos expostos durante ou após a aplicação.

Alexandre Jorge Tavares dos Santos, diretor-geral da Plantec Laboratórios, e Leticia Santos, bióloga e consultora de negócios, apresentaram a abordagem do laboratório para estudos relacionados ao RT25 e à avaliação de risco para abelhas.

A experiência regulatória do Paraguai foi apresentada por María Fernanda Cáceres Sanabria, gerente regulatória da Registros Paraguay. Ela explicou que o registro de pesticidas no país é conduzido pelo Serviço Nacional de Qualidade e Sanidade Vegetal e de Sementes (SENAVE), detalhou as exigências aplicáveis a produtos químicos e biológicos e indicou prazo de 12 a 15 meses para a avaliação.

Arrecadação de alimentos

As inscrições para o 17º Brasil AgrochemShow foram realizadas através de cestas básicas que foram doadas para a ONG Crê-Ser, de São Paulo. Ao todo, foram arrecadados 22.800 kg de alimentos, totalizando R$ 180.000. Desde 2005, o evento conecta empresas estrangeiras interessadas no mercado brasileiro a companhias e profissionais da cadeia nacional de insumos agrícolas.