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A conversa sobre dinheiro que famílias ricas brasileiras evitaram e 2026 está forçando


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  • mell280

31/07/2026 15h20

A conversa sobre dinheiro que famílias ricas brasileiras evitaram e 2026 está forçando

Iago Almeida


Por Sara Chiarapa, planejadora financeira certificada CFP® e Consultora de Fortunas na MZM Wealth Management*

Estamos entrando em uma das maiores mudanças patrimoniais da história moderna, e o debate público ainda insiste em olhar para o lugar errado. Fala-se muito sobre trilhões de dólares que passarão de uma geração para outra, sobre imposto, imóveis, empresas familiares e estruturas sucessórias. Entretanto, o centro do problema não está apenas em como transferir patrimônio, mas em saber se quem vai recebê-lo está preparado para administrá-lo. Herança sem preparo pode deixar de ser legado e virar apenas um intervalo curto entre a construção de riqueza e sua destruição.

O tamanho da transferência impressiona, mas não deve desviar o foco do ponto central: quanto mais riqueza circular entre gerações, maior será o risco de conflitos, decisões ruins e perda patrimonial sem preparo prévio. Segundo a Cerulli Associates, cerca de US$ 124 trilhões devem ser transferidos até 2048. Já o Global Wealth Report 2025, do UBS, estima mais de US$ 83 trilhões em transferências patrimoniais globais nas próximas duas décadas. No Brasil, o alerta é ainda mais relevante. De acordo com o relatório, o país deve ser o segundo do mundo em volume de riqueza a ser herdada, com cerca de US$ 9 trilhões, à frente da China nesse recorte.

Além disso, 2026 adiciona um ingrediente de urgência. A discussão sucessória ficou mais cara e mais complexa com as mudanças no ITCMD. A Emenda Constitucional 132/2023 e o PLP 108/2024 determinam que o imposto seja progressivo e calculado sobre o valor de mercado dos bens, e não mais sobre valores históricos ou contábeis, alcançando imóveis, participações societárias, aplicações financeiras e bens no exterior. Em algumas transmissões, especialmente envolvendo imóveis, cotas empresariais e ativos intangíveis, o valor a pagar pode dobrar ou até triplicar. Esse novo cenário deveria provocar uma conversa madura dentro das famílias. No entanto, muitas ainda tratam o planejamento sucessório como um assunto desconfortável, quase uma antecipação da morte, quando na verdade ele é uma ferramenta de continuidade, proteção e responsabilidade.

Testamentos, holdings, doações em vida, seguros e acordos societários ajudam a organizar a transferência patrimonial, mas não sustentam sozinhos a continuidade de um legado. Para que a riqueza atravesse gerações, é necessário investir também em educação financeira, governança familiar e diálogo entre pais, filhos e netos. Uma família pode ter uma estrutura patrimonial tecnicamente bem desenhada e, ainda assim, ver o legado se fragmentar por conflitos entre herdeiros, consumo desordenado, falta de propósito, disputas de poder ou incapacidade de tomar decisões conjuntas. O patrimônio raramente se perde apenas por um erro de investimento. Muitas vezes, ele se perde antes, na ausência de valores compartilhados e de preparo emocional para lidar com dinheiro, poder e responsabilidade.

Nesse ponto, o Brasil enfrenta uma contradição evidente. Ao mesmo tempo em que possui um dos maiores volumes de riqueza a ser transferida no mundo, ainda cultiva baixa cultura de planejamento sucessório. Famílias constroem empresas ao longo de décadas, compram imóveis, acumulam participações societárias e formam carteiras financeiras, mas deixam para discutir a sucessão quando surge uma doença, uma disputa ou uma mudança tributária. O resultado é que a conversa chega tarde, normalmente carregada de tensão. Herdeiros que nunca participaram de decisões passam a decidir sobre ativos complexos. Pais que nunca falaram sobre propósito patrimonial esperam que os filhos preservem uma visão que nunca foi transmitida. Nesse vazio, o dinheiro deixa de ser instrumento de continuidade e passa a ser fonte de desorganização.

A maior transferência de riqueza da história não será vencida por quem apenas pagar menos imposto ou organizar melhor documentos. Esses passos são relevantes, contudo insuficientes. As famílias que atravessarão esse ciclo com mais segurança serão aquelas capazes de formar herdeiros antes de transferir ativos, criando espaços de conversa, educação financeira, protocolos familiares, governança e clareza sobre o papel do patrimônio. O verdadeiro legado não está em entregar bens para a próxima geração, mas em entregar capacidade de decisão. Sem isso, o risco é que trilhões mudem de mãos sem mudar de mentalidade. E riqueza sem mentalidade costuma durar menos do que levou para ser construída.

Sara Chiarapa é planejadora financeira certificada CFP® (Certified Financial Planner), Consultora de Fortunas na MZM Wealth Management. Atua há mais de 18 anos no mercado financeiro, com ampla experiência em consultoria de investimentos, organização patrimonial, proteção familiar e planejamento sucessório para o segmento private.

 



 


 





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