- mell280
15/07/2026 11h00
Ansiedade, status e crédito fácil alimentam o endividamento das famílias
Por Sara Chiarapa, planejadora financeira certificada CFP® e Consultora de Fortunas na MZM Wealth Management*
O aumento recorde do endividamento das famílias brasileiras revela um problema maior do que renda apertada, juros altos ou falta de educação financeira. Esses fatores importam, mas não explicam sozinhos a profundidade do fenômeno. Cada vez mais, o consumo tem sido usado como resposta emocional para ansiedade, frustração, comparação social e necessidade de pertencimento. A compra deixa de ser apenas uma decisão racional e passa a funcionar como tentativa de compensação psicológica. O resultado é uma sociedade que gasta para aliviar desconfortos momentâneos e, depois, transforma esse alívio em dívida duradoura.
Quatro em cada cinco famílias brasileiras estão endividadas, o maior nível já registrado pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, em abril de 2026. O dado já seria alarmante por si só, mas o ponto mais revelador está no avanço do endividamento também entre famílias com renda superior a dez salários mínimos. Quando o problema cresce inclusive entre quem tem mais margem financeira, fica claro que a discussão não pode ser reduzida à falta de dinheiro. Há uma mudança cultural em curso. O desequilíbrio passou a ser parte do modo como muitas pessoas organizam sua vida material, sua imagem social e sua sensação de progresso.
É aqui que o debate costuma ser simplificado. A resposta mais comum é repetir que falta educação financeira. Falta, sem dúvida. No entanto, essa explicação é insuficiente quando ignora o ambiente em que as decisões de consumo são tomadas. Redes sociais transformaram a vida cotidiana em vitrine permanente. Viagens, restaurantes, roupas, carros e experiências aparecem como sinais públicos de sucesso. Nesse cenário, muita gente não compra apenas um produto ou serviço, compra uma versão de si mesma que deseja exibir. O cartão de crédito, presente em cerca de 85% dos casos de endividamento apontados pela PEIC, funciona como ponte entre a vida possível e a vida performada. Ele permite antecipar pertencimento antes que a renda consiga sustentá-lo.
Por isso, a defesa pura e simples da educação financeira precisa ser confrontada. Saber calcular juros, montar planilhas ou entender orçamento não impede, sozinho, uma decisão tomada sob pressão emocional, comparação social ou insegurança. Como demonstra Morgan Housel em “A Psicologia Financeira”, a relação com o dinheiro é moldada por experiências pessoais, crenças, medos e expectativas acumuladas ao longo da vida. Pessoas instruídas também se endividam. Profissionais bem remunerados também perdem controle. Famílias com renda maior também entram em ciclos de consumo incompatíveis com a construção de patrimônio. O erro está em tratar o consumidor como alguém que apenas precisa de informação, quando muitas vezes ele precisa reconhecer os gatilhos que o levam a gastar contra o próprio interesse.
Também seria confortável colocar toda a responsabilidade no indivíduo, como se o endividamento fosse apenas resultado de escolhas ruins. Essa leitura ignora o papel de um mercado que estimula crédito fácil, parcelamento prolongado, urgência artificial e recompensas imediatas. A lógica comercial contemporânea sabe explorar a ansiedade do consumidor. Compra-se com um clique, parcela-se em segundos e empurra-se a consequência para o mês seguinte. Ao mesmo tempo, a sociedade continua valorizando sinais externos de prosperidade mais do que segurança financeira real. Nesse ambiente, viver abaixo do próprio padrão de renda parece fracasso, enquanto financiar aparência é tratado como normalidade.
Enfrentar o endividamento exige uma mudança mais corajosa do que pedir ao consumidor que “se organize melhor”. Educação financeira precisa deixar de ser apenas técnica e passar a discutir comportamento, desejo, status, crédito e pressão social. Instituições financeiras devem ser cobradas por práticas mais responsáveis de oferta e concessão de crédito. Empresas e plataformas precisam reconhecer seu papel na criação de estímulos permanentes ao consumo impulsivo. E o indivíduo, por sua vez, precisa abandonar a ideia de que prosperidade se prova pela aparência. Enquanto o país tratar consumo como pertencimento e dívida como preço aceitável da validação social, milhões de brasileiros continuarão comprando alívio imediato com dinheiro que ainda não têm.
Sara Chiarapa é planejadora financeira certificada CFP® (Certified Financial Planner), Consultora de Fortunas na MZM Wealth Management. Atua há mais de 18 anos no mercado financeiro, com ampla experiência em consultoria de investimentos, organização patrimonial, proteção familiar e planejamento sucessório para o segmento private.


