- mell280
04/07/2026 09h39
A democracia entrou na era da guerra cognitiva
A manifestação de Donald Trump sobre o Brasil é apenas o sintoma mais visível de uma transformação muito mais profunda: a disputa política deixou de ocorrer apenas entre candidatos e passou a ser travada por algoritmos, plataformas digitais e sistemas de Inteligência Artificial capazes de influenciar a formação da vontade popular.
A publicação de Donald Trump na Truth Social, dirigindo-se diretamente ao Brasil, não deve ser interpretada apenas como mais um episódio da política internacional ou como um desdobramento natural da polarização contemporânea. Seu significado é muito mais amplo. Ela representa um sinal inequívoco de que as democracias ingressaram em uma nova etapa histórica, na qual a disputa pelo poder ultrapassou as fronteiras territoriais e passou a ocorrer, silenciosamente, no campo da informação, da percepção e da cognição humana.
Há pelo menos quatro anos venho alertando para essa transformação. Sempre sustentei que a maior ameaça às democracias do século XXI não seria apenas a desinformação, as fake news ou os discursos extremados. Esses fenômenos são apenas manifestações visíveis de uma mudança muito mais profunda. O verdadeiro desafio está na capacidade da Inteligência Artificial de reorganizar o ambiente informacional onde as pessoas constroem suas convicções, moldam sua percepção da realidade e tomam decisões políticas. A disputa eleitoral deixou de ocorrer apenas entre candidatos. Ela passou a ocorrer entre sistemas capazes de influenciar a própria arquitetura da percepção humana.
O mundo começou a compreender essa transformação em 2016. O escândalo da Cambridge Analytica revelou que milhões de dados pessoais poderiam ser utilizados para construir perfis psicográficos altamente sofisticados, permitindo o chamado microtargeting: a entrega de mensagens políticas personalizadas segundo características emocionais e comportamentais de cada indivíduo. Paralelamente, investigações conduzidas pelas autoridades norte-americanas examinaram operações de influência estrangeira no ambiente digital durante aquele processo eleitoral. Independentemente das diferentes interpretações sobre seus impactos concretos, uma conclusão tornou-se inevitável: a política ingressava definitivamente na era da guerra cognitiva.
Desde então, a Inteligência Artificial elevou essa realidade a um patamar sem precedentes. Algoritmos já são capazes de identificar padrões emocionais, antecipar comportamentos, produzir conteúdos sintéticos praticamente indistinguíveis da realidade e potencializar narrativas em escala global. A questão já não é saber se essas tecnologias podem influenciar eleições. A verdadeira pergunta é até que ponto conseguem interferir no processo mental que antecede a formação da vontade política.
Essa distinção é decisiva. Durante décadas imaginamos que a comunicação política tinha como objetivo convencer o eleitor. Hoje compreendemos que existe uma estratégia muito mais sofisticada: reorganizar o ambiente cognitivo onde esse eleitor constrói suas referências. O algoritmo não precisa alterar diretamente uma opinião. Basta decidir quais informações terão visibilidade, quais desaparecerão do debate público, quais emoções serão continuamente estimuladas e quais narrativas serão repetidas até adquirirem aparência de consenso. A liberdade permanece formalmente preservada, mas o ambiente intelectual que sustenta essa liberdade passa a ser condicionado por sistemas cuja lógica permanece praticamente invisível.
É precisamente nesse ponto que a Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma inovação tecnológica para tornar-se um tema de soberania nacional. Durante séculos, acreditamos que a independência de um Estado era medida por sua capacidade de proteger seu território, suas instituições e suas fronteiras. Essa concepção tornou-se insuficiente. A soberania do século XXI será também cognitiva. Um país que não compreende quem influencia o fluxo de informações consumido por sua população corre o risco de perder, gradualmente, a autonomia sobre a formação de sua própria opinião pública.
Infelizmente, o Brasil chegou ao último ciclo eleitoral sem construir um marco regulatório capaz de enfrentar essa nova realidade. O Congresso Nacional perdeu uma oportunidade histórica de oferecer ao país instrumentos mínimos de transparência algorítmica, auditoria, rastreabilidade de conteúdos sintéticos e responsabilização compatíveis com o extraordinário poder adquirido pelas plataformas digitais e pelos sistemas de Inteligência Artificial. Não se trata de restringir a inovação nem de limitar a liberdade de expressão. Trata-se de proteger um dos pilares essenciais da democracia: a liberdade com que o cidadão forma sua consciência.
É exatamente por isso que a manifestação de Donald Trump deve ser compreendida para além de seu conteúdo político. Ela simboliza o ingresso definitivo do Brasil em uma arena global de influência informacional, onde Estados, corporações, plataformas digitais e atores transnacionais disputam narrativas, atenção e percepção. Ignorar essa realidade seria repetir o erro de quem insiste em preparar exércitos para guerras que já terminaram.
O maior patrimônio de uma democracia nunca foi apenas a integridade de suas urnas. Sempre foi a liberdade intelectual de seus cidadãos. As democracias do século passado preocuparam-se em proteger o voto. As democracias do século XXI precisarão proteger aquilo que antecede o voto: a consciência. Porque uma nação não começa a perder sua soberania quando deixam de respeitar o resultado de suas eleições. Ela começa a perdê-la quando já não controla a arquitetura informacional que molda a percepção coletiva. A história demonstra que nenhuma democracia sucumbe de uma única vez. Ela se enfraquece lentamente, à medida que transfere para agentes externos a capacidade de organizar a realidade sobre a qual seu povo pensa, decide e escolhe seu futuro. É exatamente esse o alerta que o Brasil não pode mais ignorar.
Marcelo Senise
Sociólogo, estrategista político, especialista em comportamento humano e em Inteligência Artificial aplicada à Comunicação Política. Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial. Autor de A Delicada (Ou Não) Arte da Desconstrução Política e da trilogia Blindagem Essencial.


