- mell280
26/06/2026 07h03
Experiência do Vale do Taquari, RS, em 2023 e 2024, fundamenta novo conceito para identificar áreas de destruição extrema em enchentes
Nova categoria técnica propõe diferenciar locais apenas inundados daqueles onde a força da água provoca colapso de edificações, erosão severa e elevado risco à vida humana
As enchentes no Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024 foram uma sucessão de desastres climáticos extremos que culminaram na maior catástrofe natural da história do estado e uma das maiores do Brasil. O período foi marcado por volumes extraordinários de chuva, provocados por fatores como o fenômeno El Niño, eventos climáticos de curta janela de previsibilidade e as mudanças climáticas globais. As chuvas sobrecarregaram as bacias hidrográficas e causaram cheias generalizadas de rios, lagos e o transbordamento do Lago Guaíba, em cujas margens está a capital do RS, Porto Alegre. Cerca de 95% dos 497 municípios do Estado foi afetada de alguma forma.
Tradicionalmente, os estudos de risco utilizam mapas que indicam a extensão das áreas sujeitas à inundação, permitindo identificar os locais potencialmente atingidos pela elevação do nível dos rios. Um grupo de pesquisadores gaúchos, entretanto, argumenta que esse tipo de representação, embora importante para a gestão territorial, não é suficiente para explicar os padrões de destruição observados durante eventos hidrológicos extremos.
A partir das enchentes que atingiram o Vale do Taquari entre 2023 e 2024, incluindo a catástrofe de maio de 2024, considerada a maior da história do Rio Grande do Sul, pesquisadores formalizaram o conceito de Zona de Arraste, uma nova categoria de análise destinada a identificar os setores onde a força da correnteza transforma uma inundação em um fenômeno de elevada capacidade destrutiva.
A proposta foi apresentada em uma Nota Técnica disponível online. O trabalho é assinado por Sofia Royer Moraes, Izabele Colusso, Marcelo Arioli Heck, Jamile Weizenmann e Juliana Lombard Souza, pesquisadores vinculados à Universidade do Vale do Taquari (Univates), à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Segundo os autores, a ideia surgiu da necessidade de compreender um fenômeno que se repetiu em diferentes municípios atingidos pelas enchentes. Durante os levantamentos de campo realizados após os desastres, a equipe observou que áreas submetidas ao mesmo evento hidrológico apresentavam consequências radicalmente distintas.
A gênese da ideia
A origem do conceito está diretamente relacionada aos trabalhos desenvolvidos pela Univates em convênio com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano do Rio Grande do Sul (SEDUR/SR), durante a elaboração dos estudos de zoneamento para municípios atingidos pelas enchentes do Vale do Taquari. Quando analisou os danos observados em cidades como Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Muçum, Roca Sales e Colinas, a equipe identificou padrões recorrentes que não eram plenamente representados pelos mapas tradicionais de suscetibilidade à inundação.
Em alguns locais, a água avançava sobre ruas e edificações, provocando danos materiais e interrupções temporárias das atividades urbanas. Em outros, a correnteza possuía energia suficiente para arrancar casas de suas fundações, destruir pontes, remover pavimentações, provocar erosão intensa das margens e alterar permanentemente a configuração da paisagem.
As diferenças revelavam que a presença da água não era capaz de explicar a magnitude dos impactos observados. Tornava-se necessário compreender como a água se deslocava pelo território e com que intensidade exercia sua força sobre estruturas naturais e construídas.
Foi a partir dessa constatação que os pesquisadores passaram a desenvolver uma categoria específica para representar os locais submetidos a processos hidrodinâmicos mais intensos. A Zona de Arraste é definida como o subconjunto das áreas inundáveis onde a energia hidráulica alcança níveis capazes de produzir erosão severa, destruição estrutural, deslocamento de edificações, fragmentação da paisagem e elevado risco à vida humana.
Embora o conceito seja uma proposta nova, seus fundamentos estão apoiados em princípios físicos amplamente reconhecidos pela literatura científica internacional. Estudos sobre perigos hidrológicos demonstram que a profundidade da água, isoladamente, não determina o potencial destrutivo de uma enchente, pois a velocidade do fluxo e a energia associada ao movimento da água constituem fatores importantes para a ocorrência dos danos mais graves.
Na prática, significa que duas áreas podem registrar níveis semelhantes de inundação e, ainda assim, apresentar consequências completamente diferentes. Enquanto uma delas pode sofrer apenas alagamentos temporários, outra pode ser atravessada por correntes capazes de destruir edificações e comprometer permanentemente a ocupação humana.
Como foi elaborada a proposta
Os autores ressaltam que a proposta não pretende substituir os instrumentos já existentes de mapeamento de risco. Pelo contrário, a Zona de Arraste foi concebida como uma ferramenta complementar às chamadas Zonas de Suscetibilidade à Inundação. Enquanto estas delimitam toda a extensão potencialmente atingida pelas águas, a nova categoria permite identificar os setores onde a inundação assume características particularmente destrutivas em razão da velocidade e da energia do fluxo.
Para consolidar cientificamente a proposta, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática da literatura especializada em bases nacionais e internacionais. Foram consultados repositórios reconhecidos internacionalmente, utilizando descritores (palavras-chave) em diferentes idiomas relacionados à dinâmica das enchentes e aos processos de arraste.
O objetivo era verificar se já existia uma definição consolidada para a expressão “Zona de Arraste” no campo dos estudos hidrológicos. O levantamento revelou que o termo aparecia de maneira esporádica em diferentes contextos, mas sem uma formulação conceitual estável, sem metodologia de identificação própria e sem critérios operacionais claramente definidos para sua aplicação em estudos territoriais.
A aplicação
A ausência de uma referência consolidada reforçou a necessidade de registrar formalmente a categoria desenvolvida pelos pesquisadores. A Nota Técnica busca justamente estabelecer seus fundamentos conceituais, físicos e geomorfológicos, criando uma base comum para futuras pesquisas e aplicações práticas, como, por exemplo, em legislação e diretrizes urbanas.
Além do interesse acadêmico, os autores destacam o potencial de utilização do conceito em iniciativas públicas voltadas à gestão de riscos, comunicação de emergências e à adaptação climática. Nos últimos anos, eventos extremos associados a chuvas intensas e inundações passaram a ocorrer com maior frequência em diferentes regiões do Brasil, ampliando os desafios enfrentados por gestores públicos, equipes de defesa civil e órgãos responsáveis pelo planejamento urbano.
Nesse contexto, a identificação das Zonas de Arraste pode contribuir para decisões mais precisas sobre ocupação do solo, expansão urbana e reconstrução de áreas atingidas por desastres. A proposta permite distinguir situações em que estratégias de adaptação podem ser suficientes daquelas em que a permanência da ocupação humana se torna tecnicamente inadequada.
Segundo a Nota Técnica, áreas sujeitas apenas à inundação podem comportar medidas como elevação de edificações, utilização de materiais resistentes à água, implantação de sistemas construtivos adaptados ou adoção de protocolos específicos de proteção. Já nas Zonas de Arraste, onde a força da corrente supera a capacidade de resistência das estruturas convencionais, as alternativas mais consistentes tendem a envolver a desocupação permanente e a implementação de programas de reassentamento das populações que ocupam esses locais.
A diferenciação possui implicações diretas para a elaboração de planos diretores, cartas geotécnicas, planos de contingência, estratégias de defesa civil e programas de reconstrução pós-desastre. Também pode auxiliar na priorização de investimentos públicos destinados à redução de vulnerabilidades territoriais.
Resultados
A proposta já começa a produzir repercussões práticas. O conceito serviu de referência para estudos desenvolvidos pelo Governo do Rio Grande do Sul no âmbito do projeto RioS, iniciativa voltada à reconstrução e ao planejamento territorial de municípios atingidos pelas enchentes. Nesse contexto, foram mapeadas as chamadas Zonas de Arraste Expandidas em nove municípios do Vale do Taquari.
De acordo com os autores, as análises posteriores realizadas pelo Estado incorporaram novas bases cartográficas, imagens de satélite, levantamentos de campo e procedimentos técnicos complementares. Ainda assim, os resultados apresentaram elevada convergência com os limites originalmente identificados pelos estudos que deram origem ao conceito, o que reforça a consistência da abordagem desenvolvida.
Os pesquisadores observam, entretanto, que a formalização da Zona de Arraste representa apenas uma etapa inicial de um processo mais amplo de consolidação científica. Novos estudos estão em desenvolvimento para aprofundar os critérios de delimitação da categoria, incluindo modelagem hidrodinâmica bidimensional, validações estatísticas, análises quantitativas e aperfeiçoamento dos parâmetros operacionais utilizados nos mapeamentos.
A expectativa é que essas pesquisas permitam ampliar a aplicabilidade do conceito em diferentes contextos geográficos, contribuindo para sua incorporação em metodologias de avaliação de risco utilizadas em outras regiões do país.
Citação da Nota Técnica:
MORAES, Sofia Royer; COLUSSO, Izabele; HECK, Marcelo Arioli; WEIZENMANN, Jamile; SOUZA, Juliana Lombard; WENDT, Lucas George. Zonas de Arraste: um novo parâmetro para o planejamento territorial em cidades suscetíveis a inundações extremas — definição conceitual, fundamentos e aplicação ao Vale do Taquari (RS). Nota Técnica Univates, nº 01/2026, Lajeado, 24/06/2026. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.20835994.
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Texto: Redação Univates
Imagens:
Áreas de Zonas de Arraste identificadas em municípios do Vale do Taquari/RS: Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Encantado, Estrela, Muçum, Roca Sales e Colinas
10) Zonas de Arraste (em vermelho) e de Inundação em Muçum - Crédito - Divulgação, Univates.png
8) Zonas de Arraste (em vermelho) e de Inundação em Roca Sales - Crédito - Divulgação, Univates.png
7) Zonas de Arraste (em vermelho) e de Inundação em Encantado - Crédito - Divulgação, Univates.png
6) Zonas de Arraste (em vermelho) e de Inundação em Estrela - Crédito - Divulgação, Univates.png
4) Zonas de Arraste (em vermelho) e de Inundação em Colinas - Crédito - Divulgação, Univates.png
Imagens de uma zona de arraste em Cruzeiro do Sul/RS
2) Passo de Estrela, em Cruzeiro do Sul, em junho de 2024 - Crédito - Lucas George Wendt.png
1) Passo de Estrela, em Cruzeiro do Sul, em junho de 2024 - Crédito - Lucas George Wendt.png


