19/06/2026 12h37
Vai e volta nas regras de importação cria novo desafio para o varejo digital
Por Alan Ribeiro, Diretor de Marketing da UNICOPAG*
O debate sobre a “taxa das blusinhas” já acabou. O mercado agora tenta calcular o tamanho do estrago provocado pela mudança repentina nas regras de importação. A decisão do governo federal de zerar o imposto sobre compras internacionais de até US$ 50 devolveu competitividade imediata ao produto chinês e desmontou a estratégia adotada por parte do varejo digital nos últimos dois anos. Empresas que reforçaram estoque nacional, ampliaram armazenagem e aumentaram compra local para reduzir exposição às importações agora correm o risco de ficar com mercadorias mais caras do que o produto vindo diretamente da China. O problema deixou de ser tributário. Virou financeiro.
A reação do mercado à taxação tinha sido concreta. Segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria em abril de 2026, a cobrança sobre remessas internacionais evitou a entrada de R$ 4,5 bilhões em importados apenas em 2025 e ajudou a preservar 135,8 mil empregos no país. A entidade também estima que R$ 19,7 bilhões permaneceram circulando na economia brasileira no último ano por causa da medida. Esses números mostram que empresas reorganizaram operação, apostaram em estoque local e assumiram custos maiores acreditando que a política de tributação teria continuidade. Agora, muitas dessas companhias descobriram que compraram caro em um mercado que voltou a premiar quem importa barato.
A consequência mais imediata é o congelamento de decisões estratégicas. Grandes operadores do e-commerce reduziram negociações com fabricantes nacionais e passaram a adiar contratos de exclusividade até entender se a isenção será mantida ou se o governo voltará atrás nos próximos meses. Dados da Receita Federal divulgados em maio de 2026 mostram que a tributação das compras internacionais arrecadou R$ 1,78 bilhão apenas entre janeiro e abril deste ano. Isso torna a mudança ainda mais contraditória. O governo sustentou durante meses que a taxação era necessária para equilibrar concorrência, arrecadar e proteger empregos. Depois desmontou a própria narrativa sem qualquer transição para o setor.
Existe a leitura de que o fim da taxa beneficia o consumidor ao reduzir preços em um momento de renda pressionada. O problema é que essa análise ignora o efeito sobre quem investe no país. O desconto aparece imediatamente para o consumidor. O prejuízo fica concentrado no varejo que operou dentro da regra anterior. Em segmentos como eletrônicos leves, acessórios, utilidades domésticas e moda rápida, a diferença entre o custo do estoque nacional e o produto importado voltou a crescer rapidamente desde o anúncio da isenção. Muitas empresas agora terão de liquidar mercadoria com margem reduzida para conseguir competir com plataformas internacionais.
O maior dano dessa mudança não está no imposto em si, mas na falta de previsibilidade. A reforma tributária já obriga empresas a rever operação e estrutura de custos pensando em 2027. Ao mesmo tempo, o varejo digital passou a conviver com mudanças repentinas nas regras de importação, o que torna qualquer planejamento mais arriscado. Quando o empresário deixa de confiar na duração das políticas econômicas, a tendência é simples. Investimento é adiado, expansão é suspensa e o caixa vira prioridade absoluta.
O fim da taxa das blusinhas não fortaleceu o varejo brasileiro nem resolveu o problema do consumidor. Apenas criou mais um ciclo de incerteza em um setor que depende de escala, previsibilidade e margem apertada para operar. Enquanto o Brasil altera regras em sequência, a indústria chinesa continua entregando volume, velocidade e preço. O mercado brasileiro, por outro lado, passou a trabalhar sem horizonte claro e com medo de tomar a próxima decisão errada.
*Alan Ribeiro é Diretor de Marketing da UNICOPAG, empresa especializada em soluções de pagamento para e-commerce. Com mais de 15 anos de experiência no setor de tecnologia e varejo digital, atua na análise de tendências de mercado, comportamento do consumidor e estratégias de competitividade no comércio eletrônico.



