- mell280
28/04/2026 10h48
Real valorizado impulsiona demanda por dólar digital
Movimento cresce entre empresas e pessoas físicas que aproveitam o câmbio mais favorável para transações internacionais, hedge e dolarização patrimonial
A recente valorização do real frente ao dólar abriu uma nova janela para empresas e pessoas físicas acessarem a moeda americana em condições mais favoráveis, e esse movimento já começou a aparecer na demanda por USDT, stablecoin atrelada ao dólar usada como forma de dólar digital para transações internacionais, proteção cambial e dolarização patrimonial.
Em abril, o dólar atingiu a menor cotação frente ao real dos últimos dois anos, o que abriu uma janela de entrada para quem deseja ficar exposto à moeda americana, intensificando o movimento dos últimos anos. Para se ter uma ideia, em 2025, o mercado cripto brasileiro movimentou mais de R$ 500 bilhões, sendo o USDT responsável por cerca de 65% de todo o volume, superando o Bitcoin como o ativo principal em liquidez e proteção. Somente o USDT (Tether) foi responsável por R$ 326,89 bilhões, o que equivale a quase 65% do total declarado. Junto com o USDC, as moedas pareadas ao dólar respondem por 71,2% do volume financeiro no país.
Na Corpx Bank, instituição de pagamento que atua com foco em soluções para empresas, a procura pelo ativo vem crescendo tanto no segmento corporativo quanto entre clientes individuais, em um ambiente em que agilidade, eficiência operacional e acesso simplificado à moeda forte ganham peso nas decisões financeiras.
A leitura da companhia é que o dólar em patamar mais baixo frente ao real não reduz o interesse pela moeda americana, mas cria uma oportunidade tática de entrada. “Quando o dólar recua frente ao real, cresce a percepção de oportunidade. Para as empresas, isso aparece na antecipação de pagamentos ao exterior, na formação de caixa em dólar e na proteção de margens. Para a pessoa física, o movimento vem muito ligado à dolarização patrimonial e à busca por um meio mais simples de acessar a moeda americana”, afirma Amanda Prado, CEO da Corpx.
A tese encontra respaldo na avaliação de Felipe Martorano, analista de criptomoedas da Levante Investimentos, para quem a demanda por dólar segue estrutural, mesmo em momentos de valorização do real. Segundo ele, o cenário atual parece muito mais uma janela de oportunidade para dolarização do que um sinal de enfraquecimento dessa demanda. Na avaliação do analista, grande parte dos ativos globais continua sendo precificada em dólar, o que sustenta a procura por stablecoins atreladas à moeda americana, especialmente entre quem busca exposição internacional por meio do mercado cripto.
Martorano também destaca que a eficiência operacional ajuda a explicar essa tendência. Segundo ele, o uso de stablecoins pode reduzir custos em operações internacionais e, em alguns casos, ser de 10% a 15% mais eficiente do que meios tradicionais. Para o analista, isso reforça que o avanço do USDT não está ligado apenas à proteção patrimonial, mas também à busca por uma infraestrutura mais prática de movimentação em dólar.
Na Corpx, esse movimento ocorre sobre uma base de escala relevante. A companhia reúne mais de 54 mil clientes empresariais e processa R$ 6,3 bilhões mensais via Pix, com infraestrutura desenhada para absorver grandes volumes sem perda de desempenho. A instituição estima elevar seu volume mensal via PIX para cerca de R$ 15 bilhões até 2029, impulsionada por parcerias B2B e soluções white label. “Nosso plano estratégico prevê mais de 300 novas integrações corporativas nos próximos anos, com foco especial em empresas que operam volumes massivos e precisam de estabilidade contínua”, afirma Amanda.
Segundo Amanda Prado, a expansão do USDT não se explica apenas pelo câmbio mais favorável, mas também por uma mudança no uso do ativo. “O USDT ganhou espaço porque combina velocidade, previsibilidade e facilidade de movimentação internacional. Em vez de enxergar a stablecoin apenas como ativo digital, muitos clientes já a tratam como uma infraestrutura para transacionar em dólar”, diz.
Esse ponto também aparece na análise da Levante Investimentos. Martorano afirma que as stablecoins já se consolidam como uma das formas mais simples e eficientes de acessar o dólar, especialmente quando se considera custo e velocidade. Embora contas internacionais e remessas tradicionais ainda sejam mais populares, ele avalia que essa dinâmica tende a mudar à medida que a infraestrutura do setor evolui. “Na prática, quem já utilizou stablecoins atreladas ao dólar raramente volta aos meios tradicionais”, aponta o analista.
Na avaliação da Corpx, a alta da demanda por USDT reflete usos distintos. No ambiente corporativo, a stablecoin ganha espaço em pagamentos internacionais, hedge operacional e gestão de caixa em moeda forte. Entre pessoas físicas, cresce como instrumento de dolarização patrimonial e acesso mais direto ao dólar digital.
“Nesse contexto, a USDT passa a ser usada não só como proteção, mas como instrumento de eficiência financeira. Uma empresa que importa, exporta ou tem despesa recorrente em dólar consegue ganhar agilidade e reduzir etapas na operação. Já para o cliente pessoa física, o apelo está na possibilidade de acessar dólar digital de forma mais direta, especialmente em momentos de câmbio mais atraente”, afirma Amanda.
A CEO da Corpx observa ainda que o ativo ocupa um espaço diferente do dólar físico e dos fundos cambiais. “O USDT não compete diretamente com o dólar físico nem com o fundo cambial. Ele ocupa um espaço próprio: o de dólar digital com liquidez, mobilidade e aplicação prática em pagamentos, proteção cambial e movimentações internacionais. O dólar físico atende uma necessidade mais pontual, como viagem ou reserva em espécie, enquanto o fundo em dólar funciona mais como instrumento de alocação. O USDT se diferencia justamente por unir acesso ao dólar com uso prático e agilidade operacional”, diz.
Martorano acrescenta que a valorização do real pode até alterar o perfil de parte da demanda, trazendo investidores mais oportunistas, mas não muda o componente estrutural da busca por proteção em moeda forte. Segundo ele, o investidor estratégico tende a enxergar o atual nível do câmbio como ponto de entrada mais favorável para diversificação patrimonial. Por isso, o cenário mais racional, em sua visão, não é tentar prever a direção do dólar no curto prazo, mas construir posição gradualmente.
Para Amanda Prado, a tendência é que essa procura continue enquanto o mercado enxergar no câmbio atual uma oportunidade de posicionamento. “O dólar em patamar mais baixo frente ao real não elimina o risco cambial. Ele cria uma janela para empresas e investidores se posicionarem melhor. É por isso que a demanda por USDT cresce tanto em hedge quanto em transação. O cliente quer aproveitar o câmbio favorável sem abrir mão de flexibilidade”, afirma.
Na visão de Martorano, o papel das stablecoins tende a se expandir ainda mais nos próximos anos, funcionando ao mesmo tempo como porta de entrada para a dolarização patrimonial e como instrumento eficiente de caixa e movimentação internacional. Para a Corpx, esse avanço depende justamente da combinação entre tecnologia, segurança, compliance e escala operacional, elementos que passaram a ser decisivos em um mercado que busca inovação, mas com responsabilidade.


