24/04/2026 13h00
Stablecoins avançam no mercado global de pagamentos
Crescimento de 72% no volume de transações redefine o papel dos ativos digitais na infraestrutura financeira internacional tanto para pessoas físicas quanto empresas
O mercado global de stablecoins - criptomoedas cujo valor é atrelado a um ativo estável, como o dólar americano, por exemplo -, atravessa um ciclo de expansão sem precedentes. O volume de transações com esses ativos atingiu a marca de US$ 33 trilhões no ano passado, representando um crescimento de 72% em relação ao período anterior, de acordo com dados da Artemis Analytics. Um dos fatores para isso está no fato de que, aos poucos, as stablecoins estão ganhando espaço no mercado global de pagamentos tanto para empresas quanto para pessoas físicas.
Levantamento recente da TRM Labs (empresa líder em inteligência de blockchain) aponta que o Brasil figura entre os cinco maiores mercados do mundo em adoção de stablecoins. Apenas Estados Unidos, Índia, Paquistão e Filipinas se posicionam à frente. “Há um conjunto de fatores que posicionam o Brasil de forma estratégica neste cenário, sendo também uma figura de destaque no cenário das Américas”, explica Fernando Carvalho, diretor de Operações da OnilX. “A Tether, por exemplo, é uma criptomoeda lastreada em dólar, sendo muito usada para pagamentos e investimentos graças a sua estabilidade”, ressalta.
Custo das remessas: o impacto das stablecoins
O fluxo e o custo das remessas internacionais é um fator impulsionador para as stablecoins. O modelo convencional Swift, responsável pelo trânsito de dinheiro entre fronteiras, é considerado caro, lento e pouco efetivo. O principal problema são as tarifas intermediárias, especialmente entre instituições financeiras distintas. É comum que o custo dessa transação seja de até 5% sobre a remessa, acrescido também de spread e outras cobranças adicionais. Ou seja, US$ 50 em um valor de US$ 1.000.
Ao adotar stablecoins, a mesma operação custa centavos e acontece em segundos. É possível converter os recursos nas exchanges locais de forma rápida e ágil. “Há uma analogia possível com o cenário doméstico. Assim como o Pix superou rapidamente o TED e o DOC em velocidade, custo e eficiência, as stablecoins operam em relação ao Swift como uma infraestrutura de nova geração frente a um sistema com mais de cinco décadas de operação. A tendência é de uma troca rápida devido aos benefícios”, esclarece Carvalho.
Não é à toa que, Recentemente, o sistema Swift afirmou estar na fase de design de um livro-razão compartilhado baseado em blockchain. Ou seja, a mesma lógica adotada pelas stablecoins atualmente. Essa disputa, porém, envolve mais do que tecnologia, porque carrega consigo aspectos de regulação, que precisa seguir evoluindo junto com a capacidade de escala e a construção de uma infraestrutura segura e eficiente.
América Latina lidera adoção por necessidade
O Brasil não está sozinho nessa trajetória de busca por meios mais econômicos e eficientes de transferir valores entre fronteiras. Pesquisa da Fireblocks revela que pagamentos transfronteiriços são o principal caso de uso de stablecoins na América Latina, citados por 71% das instituições regionais como aplicação prioritária — índice significativamente superior à média global de 49%.
A base de infraestrutura regional também é considerada cada vez mais sólida: 86% das empresas latino-americanas reportam parcerias estabelecidas para integração com stablecoins, e 71% declararam ter APIs e carteiras digitais prontas para operação. “A adoção na região não é guiada por apetite especulativo, mas por uma necessidade econômica concreta: reduzir fricção, custo e tempo nas transferências internacionais. O ecossistema está maduro o suficiente para escalar”, opina o diretor de Operações da OnilX.
O mercado B2B: bilhões em eficiência potencial
Se no contexto das remessas pessoais o impacto já é expressivo, no segmento corporativo o potencial de transformação é ainda mais significativo. Uma análise da consultoria McKinsey estima que os pagamentos B2B com stablecoins já movimentam cerca de US$ 226 bilhões por ano — valor que, apesar de representar apenas 0,01% do volume global de transações entre empresas, sinaliza uma adoção inicial concentrada justamente nos casos de maior retorno: pagamentos em cadeias de suprimentos internacionais, gestão de liquidez e liquidação de operações comerciais transfronteiriças.
Para pequenas e médias empresas, o diferencial é ainda mais evidente. Atrasos de liquidação e taxas elevadas no sistema tradicional comprometem o fluxo de caixa e a competitividade dessas organizações em mercados internacionais — gargalos que as stablecoins endereçam com precisão.




