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22/03/2026 10h02
Relatório expõe água ruim em rios de MS, sob pressão de esgoto e desmate
Estudo mostra piora nos indicadores e classificação apenas regular ao longo de todo o ano
Por Inara Silva
No Dia Mundial da Àgua, levantamento realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica chama a atenção para a baixa qualidade das águas dos rios de Mato Grosso do Sul que fazem parte do bioma. Os dados constam no relatório “Observando os Rios 2026 - O retrato da qualidade da água nos rios da Mata Atlântica”, divulgado nesta semana pela instituição, às vésperas do Dia Mundial da Água, celebrado neste 22 de março.
O estudo apresenta dados coletados entre janeiro e dezembro de 2025 e indica que, em nível nacional, quase 80% dos pontos monitorados apresentaram qualidade regular.
No Estado, o monitoramento ocorre em 10 pontos dentro da bacia do Rio Paraguai. Os resultados locais mostram um cenário de estabilidade em patamar intermediário, sem avanços significativos na qualidade da água ao longo de 2025. Em todo o ano, as águas analisadas ficaram em situação regular de qualidade, o único registro de água com qualidade boa ocorreu em janeiro de 2025, no Rio Formoso, com pontuação 36, e no restante do ano o mesmo trecho permaneceu em condição regular variando de 29 a 34.
Segundo o relatório, a pontuação varia de péssima (menor de 20) a ótima (maior que 40). No entanto, no Estado, a qualidade da água passou a maior parte do ano em regular (entre 26 e 35).
Tabela com o Índice de Qualidade da Água (Foto: Reprodução)
Rios de MS - No Rio Aquidauana, por exemplo, medições feitas na Chácara São Paulo indicaram qualidade regular durante praticamente todo o ano, com índices variando entre 26,9 e 34. Em abril houve piora para a classificação ruim, com índice 25. Em comparação com 2024, quando houve registro pontual de qualidade boa em outubro, o desempenho geral se manteve estagnado.
Situação semelhante foi observada no Rio Formoso, em Bonito. O rio apresentou qualidade boa apenas em janeiro, com índice 36, mas voltou ao padrão regular nos demais meses, com variações entre 29 e 34. Já o Rio Miranda, monitorado em diferentes pontos, também registrou oscilações dentro da mesma faixa: no Quilombo Aquiran, houve dois meses com qualidade ruim (índice 26), enquanto nos demais períodos predominou a classificação regular, entre 27 e 31. No trecho do Salobra e em áreas de Corumbá, a condição permaneceu regular ao longo de todo o ano.
Outros cursos d’água acompanhados por instituições locais, como o Córrego Bonito e o Córrego Restinga, também não apresentaram melhora expressiva nos indicadores mais recentes. Seis pontos de coleta de água, no entanto, não apresentaram atualização de dados no período.
O monitoramento no Estado envolve diferentes atores, como o IASB (Instituto das Águas da Serra da Bodoquena), comunidades tradicionais como o Quilombo Aquiran e organizações como a SOS Pantanal, além de iniciativas locais em Aquidauana, Bonito, Miranda e Corumbá.
Bacias hidrográficas da Mata Atlântica (Foto: Reprodução})
Tendência nacional - O cenário observado em Mato Grosso do Sul reflete um quadro mais amplo. Em todo o Brasil, a qualidade da água dos rios da Mata Atlântica permanece estagnada em níveis considerados insatisfatórios. O relatório reúne dados de 1.209 análises feitas entre janeiro e dezembro de 2025, em 162 pontos de coleta distribuídos por 128 rios e corpos d’água, em 86 municípios de 14 estados. Os resultados mostram que:
O levantamento aponta que nenhum ponto atingiu qualidade ótima. Apenas 3,1% foram classificados como bons, 78,4% apresentaram qualidade regular, 15,4% foram considerados ruins e 3,1% ficaram na faixa péssima
Na prática, quase oito em cada dez pontos monitorados apresentam qualidade apenas regular, um nível que indica água utilizável, mas com limitações e necessidade de tratamento para consumo humano.
A comparação com 2024 revela leve piora, houve queda no número de pontos com qualidade boa e houve aumento das classificações regular e ruim, mantendo o quadro de pressão constante sobre os recursos hídricos.
Falta de saneamento - Segundo o levantamento, a qualidade da água está diretamente relacionada a problemas estruturais ainda não resolvidos no país. Entre os principais fatores estão a falta de saneamento básico, o lançamento de esgoto sem tratamento, o desmatamento, especialmente da vegetação ciliar, o uso de agrotóxicos, a urbanização desordenada e os efeitos das mudanças climáticas.
Mesmo assim, cerca de 81,5% dos pontos ainda permitem usos múltiplos da água, como abastecimento (com tratamento), irrigação, atividades industriais e lazer. Especialistas alertam, porém, que esse equilíbrio é frágil e pode se deteriorar sem intervenções.
Bioma - A Mata Atlântica é considerada um dos biomas mais importantes do país. Reconhecida como Reserva da Biosfera pela Unesco e Patrimônio Nacional pela Constituição de 1988, ela abriga mais de 70% da população brasileira e desempenha papel fundamental na regulação do clima, no ciclo da água e na conservação da biodiversidade.
Apesar disso, restam apenas cerca de 24% de sua cobertura original, o que aumenta a vulnerabilidade dos rios e nascentes.
Sinal de alerta - O estudo demonstra que os rios monitorados não estão em colapso, mas permanecem longe do ideal, o que indica um sistema em equilíbrio instável, pressionado por fatores ambientais e pela ausência de políticas estruturais mais eficazes. A conclusão do relatório reforça a urgência de investimentos em saneamento, recuperação de matas ciliares e gestão integrada das bacias hidrográficas.


