04/03/2026 05h43
Conselho Federal de Economia analisa o desempenho do PIB
Caíque Rocha
Confira a análise de Antonio Corrêa de Lacerda, conselheiro federal do Cofecon:
O crescimento de 2,3% está alinhado ao potencial da economia brasileira ou revela um ritmo ainda aquém das necessidades do país?
Embora restrito, o crescimento da economia tem superado as expectativas, a inflação está na média, o desemprego é o mais baixo desde 2014 e a renda média se recuperou. Há também avanços significativas na distribuição de renda. Também contribuiu para o desempenho favorável a retomada de programas sociais de elevado impacto, como o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, o Farmácia Popular, o Pé de Meia na educação, para citar os principais.
Como a taxa de juros praticada ao longo do ano impactou o desempenho do PIB?
Os juros elevados por longo período geram enormes distorções:
1) Representam um “prêmio” ao ócio, na medida em que, com raríssimas exceções, não há outras atividades econômicas tão rentáveis - ou seja o retorno esperado de qualquer outro empreendimento dificilmente supera o “custo de oportunidade” representado pelos juros;
2) Ao contrário da maioria dos países, o prêmio às aplicações de curto prazo praticamente equivale aos retornos das aplicações de longo prazo, sendo um incentivo à liquidez;
3) As taxas de juros básicas elevadas também pressionam o custo do crédito e financiamento, dificultando o funding para empreendimentos.
Sob o ponto de vista das contas públicas, o custo de financiamento da dívida pública brasileira se mostra como um grande desafio. Ao longo das últimas duas décadas e meia, essa tem sido nossa realidade, da qual o atual governo ainda não conseguiu se desvencilhar. O gasto com pagamento de juros atingiu R$ 718,3 bilhões no final de 2023 (6,6% do PIB), R$ 870 bilhões (7,7% do PIB) em 2024 e R$ 1 trilhão (8,0% do PIB), em 2025.
Como o senhor avalia a taxa de investimento de 16,8%?
A economia brasileira convive com o dilema de baixo investimento (Formação Bruta de Capital Fixo), ainda próximo de apenas 17% do Produto Interno Bruto (PIB), muito abaixo de padrões internacionais, mesmo considerando os países em desenvolvimento.
Mas também neste campo há movimento em curso. Os desembolsos do Programa Nova Indústria Brasil (NIB) já somam R$ 300 bilhões e devem atingir R$ 370 bilhões até o final de 2026. Os investimentos totais em infraestrutura, incluindo os setores público e privado, têm atingido níveis recorde e devem chegar a R$ 1 trilhão no acumulado do período 2023-2026. Cerca de 30% deste montante foi financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), destacando ainda o papel do banco na estruturação do financiamento de projetos privados.
De que maneira o cenário internacional influenciou o resultado brasileiro em 2025?
O cenário internacional trouxe desafios importantes, entre os quais se destacam os efeitos prevalentes pós-pandemia de Covid-19, com impactos significativos na desorganização das cadeias internacionais de suprimentos, também impactadas pelas guerras Rússia-Ucrania, Israel-Hamas, EUA-Irã, assim como os desdobramentos da crise climática e a guerra comercial (a partir das decisões do presidente norte-americano no que se refere à imposição de tarifas e desordem dos órgãos multilaterais de comércio).
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