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Novo estudo aponta riscos de faixa preferencial para motos e recomenda cautela em expansão


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31/01/2026 05h56

Novo estudo aponta riscos de faixa preferencial para motos e recomenda cautela em expansão

Mariana Pires


Pesquisa conduzida pela organização global de saúde Vital Strategies mostra que o modelo paulistano, replicado no Rio de Janeiro e em outras capitais, aumentou o número de mortes em cruzamentos.

  • A Faixa Azul eleva, em média, de 100% a 120% os sinistros fatais com motociclistas em cruzamentos; 
  • Apesar do limite de velocidade de 50 km/h, a velocidade média das motos nas vias com Faixa Azul saltou de 58,3 km/h para 72,2 km/h; 
  • 96% dos motociclistas trafegam acima de 50 km/h e 81% trafegam acima de 60 km/h em vias com Faixa Azul.  

Um novo estudo independente revela que a Faixa Azul em São Paulo - sinalização de trânsito que delimita um corredor preferencial para motos no espaço entre as faixas de tráfego   aumentou drasticamente a velocidade média dos motociclistas e, como resultado, a sinalização provocou um aumento médio de 100% a 120% nas mortes de motociclistas em cruzamentos. O estudo foi conduzido por um consórcio formado pela Universidade de São Paulo (USP)Universidade Federal do Ceará (UFC) e Instituto Cordial, em parceria com a organização global de saúde pública Vital Strategies. 

O Brasil registrou 36.403 mortes no trânsito somente em 2024. Este é o quinto aumento consecutivo desde 2019, segundo o Ministério da Saúde. Desse total, mais de um terço, 14.994, eram ocupantes de motocicletas: um aumento de mais de 10% em relação a 2023. A cidade de São Paulo, maior metrópole do país, registrou 1.029 mortes totais no trânsito no mesmo período, das quais 46,74% eram ocupantes de veículos de duas rodas, razão pela qual a pressão por soluções para reduzir as mortes de motociclistas se intensifica. 

Iniciado em 2022 na capital paulista como um projeto-piloto nacional, o programa Faixa Azul experimentou rápida expansão, ultrapassando 200 km de extensão até hoje. No entanto, esse crescimento ocorreu sem evidências científicas da eficácia dessas faixas na redução de fatalidades. O lançamento do relatório ocorre em um momento crucial, enquanto a Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN) aguarda evidências técnicas conclusivas para decidir se a Faixa Azul deve ou não ser regulamentada e incorporada oficialmente à legislação de trânsito nacional. 

"Estamos vendo um aumento no número de condutores trafegando acima do limite de velocidade nas Faixas Azuis, o que coloca suas vidas e as de outros em risco. Portanto, precisamos ser muito cautelosos ao expandir este projeto. Esta é uma das primeiras evidências robustas sobre o efeito negativo da Faixa Azul na segurança dos motociclistas. Medidas como gestão de velocidade e aumento da fiscalização já provaram ser mais eficazes na prevenção de mortes de motociclistas," explica Ezequiel Dantas, Diretor de Vigilância de Lesões no Trânsito da Vital Strategies. 

Expansão nacional 
O modelo da Faixa Azul de São Paulo está sendo replicado em outras regiões do país, incluindo Rio de Janeiro (RJ), Fortaleza (CE), Salvador (BA), Porto Alegre (RS) e Belo Horizonte (MG). “Essa expansão levanta sérias preocupações, especialmente dado que São Paulo e Rio de Janeiro atualmente lideram o ranking de sinistros fatais com motocicletas no país”, alerta Dantas. 

Como parte do estudo, pesquisadores conversaram com motociclistas que expressaram uma forte sensação de conforto e pertencimento nas Faixas Azuis. “Mais espaço é mais tranquilo. Às vezes os carros estão muito juntos. Você acaba tentando desviar e acaba batendo em algo. Caindo, sabe? Esse espaço, esse espaço mais livre, ajuda. Ajudou muito”, comentou um dos motociclistas entrevistados durante o estudo. No entanto, a análise revela um paradoxo crítico: esse conforto percebido frequentemente se traduz em uma falsa sensação de segurança, encorajando velocidades significativamente mais altas. Consequentemente, o que parece 'mais seguro' para o piloto na verdade expõe a ele e aos outros a riscos maiores, particularmente nos cruzamentos. 

Faixa exclusiva organiza o fluxo, mas encoraja o excesso de velocidade 
Apesar do limite de velocidade sinalizado de 50 km/h, os dados revelam que as velocidades médias das motos nos meios de quadra em vias com Faixa Azul saltaram de 58,3 km/h para 72,2 km/h. O relatório conclui que a demarcação de solo sozinha é insuficiente para garantir a segurança. Monitoramento por drones e análise geoespacial indicam que as marcações criam um efeito de "pista livre", estimulando inadvertidamente velocidades significativamente acima do limite legal. 

Esse comportamento resultou em um cenário onde 96% dos motociclistas trafegam acima de 50 km/h e 81% trafegam acima de 60 km/h em vias com Faixa Azul, comparado a 71% e 35% em vias sem a intervenção, respectivamente. A consequência mais grave ocorre nos cruzamentos, onde a interação com outros veículos se intensifica. Nesses locais, o estudo aponta um aumento médio de 100% a 120% nos sinistros fatais. 

"A Faixa Azul organizou a convivência entre os veículos, mas não eliminou o risco físico. O que vimos foi um efeito colateral grave: a faixa tornou-se um corredor de aceleração. O motociclista ganha fluidez no meio da quadra, mas chega ao cruzamento com muito mais energia. Quando motoristas se encontram em um cruzamento e o impacto ocorre em altas velocidades, 70 ou 80 km/h, os resultados são dramáticos. Essa dinâmica explica por que as fatalidades dobraram nos cruzamentos, mesmo quando visualmente parece haver um trânsito mais organizado," explica Mateus Humberto, professor da Escola Politécnica da USP e coordenador do estudo. 

Ajustes para salvar vidas 
Dada a intenção da Prefeitura de São Paulo de expandir a rede e o interesse de outras cidades em adotar a Faixa Azul, os resultados do estudo indicam a necessidade de reconsiderar ou ajustar a medida. Para melhorar a segurança, os tomadores de decisão devem priorizar as melhores práticas de engenharia viária e fiscalização rigorosa; estratégias reforçadas por recursos técnicos como o Manual de Gestão de Velocidade da OMS, que identifica o controle de velocidade como o fator-chave na redução da gravidade dos sinistros. Além da infraestrutura, é crucial abordar aspectos socio-comportamentais, fomentando uma cultura de segurança viária onde o excesso de velocidade seja percebido como um comportamento desviante e não uma norma. Consequentemente, o consórcio recomenda que a evolução da política pública seja condicionada a um protocolo de segurança alinhado aos princípios da Visão Zero, garantindo que o sistema seja projetado para perdoar o erro humano e proteger vidas efetivamente. 

De acordo com especialistas, a gestão ativa de velocidade deve ser vista como uma medida de mitigação de risco em vez de uma solução definitiva. Existe uma preocupação de que o modelo atual dependa excessivamente do cumprimento voluntário dos limites pelos usuários, o que desafia os princípios de Sistemas Seguros, onde a própria infraestrutura deveria induzir o comportamento correto. Dada essa incerteza, a recomendação técnica é contra a expansão. No entanto, caso haja uma decisão administrativa de prosseguir, é imperativo que ela seja condicionada a estratégias de fiscalização (como monitoramento de velocidade média) e redesenhos, visando conter a gravidade dos sinistros à luz das limitações inerentes ao projeto. 

O impacto econômico e o peso sobre o SUS 
A urgência em adotar protocolos de segurança mais rígidos na Faixa Azul se insere em um contexto de prejuízo bilionário para o país. Um novo relatório do Banco Mundial, "The Burden of Road Traffic Injuries in Brazil" (o peso dos ferimentos no trânsito, em tradução livre), estima que os sinistros de trânsito custam ao Brasil US$ 61,3 bilhões anuais, o equivalente a 3,8% do PIB; o dobro do que o país investe em infraestrutura. A maior fatia desse custo (57%) corresponde aos "custos humanos", como dor e perda de qualidade de vida, seguidos pela perda de produtividade (17%). O impacto sobre a saúde pública também é crítico: dados da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) revelam que, em 2024, o SUS registrou uma internação por sinistro de trânsito a cada dois minutos, totalizando mais de 227 mil admissões hospitalares no ano.  

“Com base nas evidências disponíveis, a Faixa Azul não se qualifica atualmente como uma política de segurança viária, e sua expansão não é recomendada. Se mantida em caráter experimental, sua implementação deve ser gradual e condicionada a um protocolo robusto de monitoramento e avaliação”, conclui Dantas.  

O estudo utilizou uma metodologia científica reconhecida globalmente (Diferença‐nas‐Diferenças), que permite isolar o efeito da Faixa Azul ao comparar vias com e sem a intervenção (grupo de controle). A análise foi realizada através de pesquisas quantitativas, mensuração de velocidades por drones e visão computacional, além  de qualitativas, incluindo entrevistas semiestruturadas com motociclistas para elucidar mecanismos comportamentais. 

Leia o estudo completo neste link.

Sobre a Vital Strategies  
A Vital Strategies é uma organização global de saúde presente em mais de 80 países que trabalha com governos e sociedade civil para conceber e implementar estratégias e políticas para enfrentar alguns dos maiores desafios mundiais de saúde pública. A Vital Strategies apoia a concepção e implementação de políticas e práticas baseadas em evidências para alcançar impactos significativos no combate ao consumo de álcool, doenças crônicas não transmissíveis, epidemias, violência de gênero, sinistros de trânsito e outras causas de doenças, lesões e mortes. 

 

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