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Tecnologia e IA só geram valor quando reduzem custo estrutural


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13/01/2026 05h28

Tecnologia e IA só geram valor quando reduzem custo estrutural

Renata Rebesco


Marcelo Antoniazzi, CEO da Gouvêa Consulting.

Por Marcelo Antoniazzi, CEO da Gouvêa Consulting

A discussão sobre inteligência artificial no varejo amadureceu. Se antes o foco estava em vitrines tecnológicas e experiências chamativas, hoje o que diferencia as operações mais eficientes é algo bem menos visível: processos silenciosos, integrados e orientados à redução de custo estrutural.

Essa constatação ficou evidente durante o Study Tour da Gouvêa realizado em Nova York nos dias 8 e 9 de janeiro. Mais do que visitar lojas icônicas, o objetivo foi observar como a tecnologia — especialmente a Inteligência Artificial — está sendo aplicada no core da operação, e não como discurso.

Tecnologia não é vitrine. É infraestrutura invisível

O padrão observado nas lojas visitadas é claro: a tecnologia que gera valor é aquela que o cliente não percebe diretamente. Ela atua antes da jornada, garantindo disponibilidade, velocidade, precisão e previsibilidade.

Em redes como PUMA e H&M, o uso intensivo de RFID e a visibilidade total de estoque permitem reposição sob demanda, menos ruptura e menor capital empatado. Não há telas explicando o sistema ao consumidor. O ganho aparece na execução: produto certo, no lugar certo, no momento certo.

A Nespresso é um dos exemplos mais didáticos dessa lógica. Seu modelo depende de compra recorrente de cápsulas, sustentada por uma base instalada de máquinas e por uma logística altamente previsível. A tecnologia garante disponibilidade contínua, reduz custo operacional e evita ruptura — elementos críticos para manter recorrência, reduzir CAC - Customer Acquisition Cost ou Custo de Aquisição de Cliente - ao longo do tempo e expandir o LTV, sigla para Lifetime Value ou Valor do Tempo de Vida do Cliente. Aqui, a IA não cria espetáculo: ela protege o modelo econômico.

Tempo é custo: eficiência como vantagem competitiva

Outro eixo central observado no tour foi a obsessão operacional pelo tempo. Na Whole Foods Market, o checkout biométrico reduz filas, mão de obra improdutiva e custo por transação. Já na Target, a eficiência vem da padronização inteligente de fluxo, retirada e reposição, permitindo maior produtividade com a mesma estrutura física.

Em ambos os casos, o consumidor não “compra tecnologia”. Ele compra conveniência, previsibilidade e simplicidade.

Serviços que evitam o custo errado

A servitização, processo estratégico de transformar um produto em uma oferta combinada de produto com serviço, criando receita recorrente, maior valor percebido e fidelização, apareceu como um dos vetores mais relevantes de geração de valor. Na Ulta Beauty, ferramentas de diagnóstico e recomendação assistida reduzem devoluções, aumentam assertividade na escolha e fortalecem fidelidade. A tecnologia não substitui o vendedor — ela reduz erro de decisão.

A loja da Wilson transforma serviços técnicos, como stringing e manutenção, em relacionamento recorrente, elevando margem e reduzindo dependência de promoções. Já a Petco utiliza serviços de tosa e veterinário agendados para reduzir ociosidade operacional e estabilizar receita.

Em todos esses casos, o serviço não é um “extra”. É uma forma de evitar custos invisíveis: devoluções, retrabalho, promoções e aquisição constante de novos clientes.

IA no core — não no conceito

Quando a IA atua diretamente no coração do negócio, o impacto é ainda mais evidente. A The RealReal utiliza algoritmos para autenticação, catalogação e precificação, reduzindo drasticamente custo manual e risco operacional. A segunda mão da H&M Pre-Loved só se sustenta porque a tecnologia garante rastreabilidade, controle de estoque e margem.

No Meta Lab, a loja funciona como espaço de educação e teste. Ao permitir experimentação orientada, a empresa reduz devoluções, suporte e frustração pós-compra — um exemplo claro de IA aplicada à eficiência, não ao espetáculo.

Clienteling gera receita sem aumentar custo

No luxo, o melhor exemplo é a Louis Vuitton. Eles usam o clienteling, uma estratégia de relacionamento personalizado em que vendedores e marcas utilizam dados do cliente para criar interações contínuas, relevantes e individuais, antes, durante e depois da venda.

O uso avançado desses dados sustenta um atendimento altamente consultivo, personalizado e consistente. O resultado é aumento de ticket médio e LTV sem erosão de margem — tecnologia amplificando o humano, sem romper a experiência premium.

Conclusão: menos palco, mais operação

O principal aprendizado do Study Tour é simples e poderoso: o cliente não paga por tecnologia. Ele paga por produto disponível, preço justo e por uma jornada sem atrito.

A IA relevante não faz barulho. Ela reduz custo estrutural, elimina ineficiências e transforma operação eficiente em confiança e recorrência.

Nessa jornada vimos que o futuro do varejo não será mais tecnológico. Será mais inteligente, mais previsível e mais orientado a serviço.

E isso já está acontecendo — longe do palco, dentro da operação.

Marcelo Antoniazzi é CEO da Gouvêa Consulting que integra a Gouvêa Ecosystem

SOBRE A GOUVÊA ECOSYSTEM

A Gouvêa Ecosystem é um ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as frentes do setor de consumo, varejo e distribuição. Fundada em 1988, é referência no Brasil e no mundo por sua visão estratégica, atuação prática e profunda compreensão do setor. É membro do Ebeltoft Group, consórcio global de consultorias especializadas em varejo. Saiba mais em: https://gouveaecosystem.com

 

Marcelo Antoniazzi, CEO da Gouvêa Consulting.


 
Marcelo Antoniazzi, CEO da Gouvêa Consulting.
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