- mell280
02/01/2026 15h03
Médicos Sem Fronteiras: ameaça de Israel de suspender registro de organizações internacionais é um duro golpe em Gaza e na Cisjordânia
Sistema de saúde em Gaza foi dizimado pelas forças israelenses, e ao bloquear o trabalho das organizações, Israel viola as obrigações estabelecidas pelo direito humanitário internacional
A ameaça de Israel de suspender o registro de Médicos Sem Fronteiras (MSF) e de outras organizações não governamentais internacionais (ONGIs) é uma tentativa cínica e calculada de impedir que as organizações ofereçam serviços em Gaza e na Cisjordânia, violando as obrigações de Israel sob o direito internacional humanitário.
Negar assistência médica a civis é inaceitável em qualquer circunstância, e é revoltante que a ajuda humanitária seja usada como ferramenta política ou de punição coletiva. Agora é hora de agir. Israel está intensificando seu grave ataque à resposta humanitária, ameaçando diretamente os cuidados médicos e a ajuda aos civis.
MSF refuta de forma veemente as alegações feitas pelas autoridades israelenses nos últimos dias. MSF nunca empregaria conscientemente alguém envolvido em atividades militares, o que contradiz nossos valores e ética fundamentais. Se os relatos do que nossas equipes veem com seus próprios olhos em Gaza – morte, destruição e as consequências humanas da violência genocida – são desagradáveis para alguns, a culpa é daqueles que cometem essas atrocidades, não daqueles que falam sobre elas.
MSF tem preocupações legítimas em relação à exigência, para o registro, de que sejam compartilhadas informações pessoais de nossa equipe palestina com as autoridades israelenses, agravadas pelo fato de 15 colegas de MSF terem sido mortos pelas forças israelenses.
Em qualquer contexto – especialmente naquele em que profissionais médicos e humanitários têm sido intimidados, detidos arbitrariamente, atacados e mortos em grande número – exigir listas de profissionais como condição para acesso ao território é uma medida ultrajante e exagerada. Isso prejudica a independência e a neutralidade humanitárias e se torna ainda mais perigoso pela ausência de qualquer entendimento sobre como esses dados confidenciais serão usados, armazenados ou compartilhados.
No entanto, em vez de dialogar com MSF para ouvir nossas preocupações, o Ministério responsável pelo processo de registro ignorou nossos repetidos pedidos de reunião e nos acusa na imprensa de abrigar conscientemente supostos terroristas.
As forças israelenses mataram e feriram centenas de milhares de civis, destruindo deliberadamente infraestruturas essenciais e atacando equipes médicas, humanitárias e jornalistas. Elas assumiram o controle de mais da metade da Faixa de Gaza, forçaram a população a se concentrar em áreas cada vez menores, em condições desumanas, e criaram escassez de itens de primeira necessidade, bloqueando e atrasando a entrada de produtos essenciais, incluindo suprimentos médicos.
Atualmente, MSF apoia um em cada cinco leitos hospitalares de Gaza e auxilia uma em cada três mães durante o parto. O apoio que oferecemos não é suficiente para atender a todas as necessidades dos palestinos, mas retirá-lo terá um custo terrível. O fato de Israel impedir MSF e dezenas de outras organizações de prestar serviços às pessoas no território, depois que as forças israelenses destruíram o sistema de saúde de Gaza, é uma escalada dos ataques realizados contra os palestinos nos últimos dois anos.
Os serviços disponíveis para a população de Gaza são agora muito inferiores ao necessário, devido aos bloqueios e restrições impostos por Israel. Pelo terceiro inverno consecutivo, a Faixa de Gaza tem sido assolada por temperaturas baixas, chuvas torrenciais e ventos fortes. As condições meteorológicas destruíram e inundaram os abrigos improvisados onde as pessoas vivem, enquanto Israel continua a bloquear a entrada de suprimentos como tendas, lonas e alojamentos temporários.
Agora, o governo israelense busca proibir a pouca ajuda e os serviços que existem. MSF continua buscando as autoridades israelenses para que possamos manter nossas atividades vitais e apoiar o sistema de saúde devastado de Gaza. Permitir a ajuda humanitária não é um favor; é uma obrigação determinada pelo direito internacional. Hoje, mais do que nunca, os palestinos precisam de mais serviços, não menos.



