29/08/2025 10h57
Por que, apesar de 3 estupros, assassino de menina estava solto?
Aos 15, internado na Unei, Marcos Wilian foi espancado dentro da unidade e quase morreu
Por Lucia Morel
Com apenas 20 anos – faria 21 em outubro – Marcos Wilian Teixeira Timóteo acumulava uma longa ficha criminal antes de estuprar e matar uma menina de seis anos dentro da casa onde morava, na Vila Carvalho. A maior parte dos delitos ocorreu entre os 14 e 17 anos, período em que cumpriu medidas socioeducativas na Unei (Unidade Educacional de Internação) de Campo Grande.
Antes da maioridade, a Justiça registrou seis crimes distintos atribuídos a ele: um furto, três estupros de vulnerável e dois roubos. Entre as vítimas de abuso sexual estão um bebê de um ano, encontrado abandonado em um matagal em 2019, e uma menina de 11 anos em 2020. O terceiro caso não pode ser detalhado por estar sob sigilo, mas também ocorreu quando ele tinha 14 anos, conforme o sistema do Tribunal de Justiça.
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Após completar 18 anos, Marcos respondeu por dois crimes considerados mais leves: ameaça e injúria em contexto de violência doméstica. Apesar da reincidência, nunca cumpriu pena em presídio, já que a maioria dos casos foi cometida enquanto era menor de idade. Nessa condição, não é aplicado o Código Penal, mas o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que prevê medidas socioeducativas no lugar de penas de prisão.
Nos crimes sexuais, como estupro de vulnerável, a Justiça costuma determinar internação em regime fechado, principalmente quando há violência ou grave ameaça. O período máximo de internação, porém, é de três anos, independentemente da gravidade. Pela lei, o jovem deve ser liberado obrigatoriamente ao completar 21 anos, mesmo que não tenha cumprido integralmente a medida.

Marcos Wilian Teixeira Timóteo, aos 15 anos, depois de ser agredido em Unei. (Foto: Reprodução)
Histórico - Quando tinha 15 anos, Marcos chegou a ser espancado dentro da unidade e quase morreu. O processo em que aparece como vítima relata que outros três adolescentes tentaram matá-lo “porque cumpria medida de internação em razão de suposto cometimento de crime de estupro de vulnerável”. Ele foi levado à Santa Casa, medicado e liberado após se recuperar.
Esse processo ficou suspenso durante a pandemia. Nas diversas tentativas de citação para depor como vítima de tentativa de homicídio, não foi localizado. A ação terminou com condenação dos adolescentes envolvidos na agressão.
A ficha de Marcos Wilian também inclui contravenções penais aos 12 anos, furto qualificado aos 13, três casos de estupro de vulnerável entre os 14 e 15, entre eles, de um bebê de apenas um ano. Ele também foi internado duas vezes por roubo, sendo um deles acompanhado de tentativa de homicídio contra uma idosa, pelo qual ficou 45 dias na Unei.
No histórico dele ainda tem recente pedido de medida protetiva, de 2024, solicitada por uma dentista, que não quis dar entrevista sobre os motivos que a levaram a pedir essa proteção judicial. Normalmente, as restrições são impostas a agressor para proteger a mulher.
Já aos 19 anos, respondeu por ameaça e injúria em contexto de violência doméstica contra a mesma vítima, que chegou a pedir medidas protetivas deferidas pela Justiça. A reportagem entrou em contato com ela, mas não houve manifestação. Nesses casos, ele foi citado por edital porque estava em “local incerto e não sabido”.
Em abril de 2023, havia mandado de prisão em aberto contra Marcos Wilian, aparentemente nunca cumprido. Em fevereiro deste ano, a Justiça declarou a extinção da punibilidade em relação aos casos de ameaça e injúria.

Parte de procedimento em que Marcos cumpriu internação por roubar e esfaquear idosa. (Foto: Reprodução)
O crime - Na madrugada desta quinta-feira (28), o corpo de uma criança de seis anos foi encontrado no banheiro de uma casa alugada na Avenida Joaquim Manoel de Carvalho, Bairro Vila Carvalho. A menina estava enrolada em um cobertor, dentro da banheira, com sinais de abuso.
A residência onde o suspeito morava, conhecida na vizinhança pelo abandono, tinha poucos móveis e estava revirada. Em um dos cômodos havia apenas um pedaço de papelão no chão, ao lado de uma bacia, enquanto a cozinha guardava uma panela esquecida no fogão.
Imagens de câmera de segurança mostram a vítima saindo de casa na manhã de quarta-feira (27), na Vila Taquarussu, acompanhada de Marcos Wilian. Ele aparece de camiseta roxa, bermuda jeans e boné claro, atravessando a rua, enquanto a criança, de calça escura e camiseta branca, o segue de perto.
A ausência da menina só foi percebida pelos pais à tarde. Ao verificar as imagens, eles reconheceram o suspeito e acionaram a Polícia Militar. Horas depois, a criança foi encontrada morta.
Após o crime, Marcos Wilian fugiu. Nesta manhã, foi localizado na região do Inferninho, saída para Rochedo, em Campo Grande. Ele teria resistido à abordagem e foi baleado por policiais do GOI (Grupo de Operações e Investigações). Levado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Vila Almeida, não resistiu e morreu.
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