- mell280
05/11/2026 07h00
Sorgo ganha mercado e pode dobrar área plantada no Brasil até 2035
Demanda de usinas flex, avanço das exportações para a China e evolução tecnológica ampliam a competitividade da cultura e abrem novas oportunidades para o produtor
O sorgo está entrando em uma nova fase de expansão no Brasil. Tradicionalmente destinado à alimentação animal, o grão começa a conquistar espaço em outros mercados, impulsionado pela demanda de usinas de etanol, pelo avanço das exportações para a China e pela evolução tecnológica das sementes e do manejo. A combinação desses fatores pode transformar a cultura em uma das protagonistas da diversificação agrícola brasileira nos próximos anos, com potencial para dobrar a área cultivada até 2035.
De acordo com Enilson Nogueira, consultor e analista de mercado agrícola vinculado ao Grupo Tático de Aumento de Produtividade (GETAP) e à consultoria Céleres, novas perspectivas de demanda estão impulsionando o crescimento da cultura. Um desses motores está relacionado às usinas, que podem utilizar diferentes matérias-primas na produção de etanol, desde a cana-de-açúcar até os grãos. Em regiões como o Vale do Araguaia, em Mato Grosso, além de áreas de Goiás, Maranhão e Bahia, onde essas indústrias estão presentes, o sorgo surge como uma alternativa para complementar o milho, especialmente em locais sujeitos a riscos climáticos durante a segunda safra.
Mais adaptada a condições de menor disponibilidade hídrica, essa cultura pode oferecer maior estabilidade produtiva em determinadas situações, além de uma vantagem econômica. “O sorgo tem sido negociado entre 10% e 15% abaixo do preço do milho, diferencial que favorece sua utilização pelas usinas e amplia o interesse por ele”, destaca Nogueira.
A dimensão dessa oportunidade fica evidente quando se considera o volume de consumo do setor. Tomando como referência uma indústria com demanda de 30 milhões de toneladas de grãos, a substituição de apenas 5% desse volume por sorgo representaria um mercado potencial de 1,5 milhão de toneladas, o equivalente a quase 30% da produção brasileira da cultura. “Um esforço relativamente pequeno para incorporar o sorgo à matriz de matérias-primas dessas usinas já provoca um impacto muito grande na dinâmica de oferta e demanda desse segmento”, afirma o analista.
China abre novas perspectivas
Se o mercado interno começa a oferecer novas possibilidades de consumo, o comércio internacional acrescenta outra frente de crescimento. A habilitação de exportadores e armazéns brasileiros para comercializar sorgo com a China ampliou as perspectivas para o grão em um dos mercados mais relevantes do mundo.
Maior consumidor global de sorgo, o país asiático utiliza a matéria-prima tanto na alimentação animal quanto na produção de bebidas tradicionais, como o baijiu, destilado que pode ser elaborado a partir do cereal. Essa diversidade de aplicações contribui para sustentar a demanda e cria condições para que o grão alcance preços competitivos em relação ao milho.
Na avaliação de Nogueira, o avanço das compras chinesas também pode beneficiar a formação de preços no Brasil. “Quando os valores obtidos nas exportações se aproximam dos praticados para o milho, o sorgo ganha competitividade e passa a contar com uma referência comercial adicional”, afirma.
Para o agricultor, isso significa mais do que a possibilidade de vender um volume maior. A presença de compradores internacionais amplia as alternativas de negociação e reduz a dependência de um único canal de comercialização, historicamente concentrado na indústria de alimentação animal. “Agora, o produtor conta com diferentes alternativas de mercado: exportadores, usinas e compradores do setor de alimentação animal. Essa diversificação reduz os riscos comerciais associados à produção”, explica o analista.
Exportações podem alcançar 2 milhões de toneladas
As estimativas para o ciclo 2025/26 indicam que as exportações brasileiras de sorgo podem alcançar cerca de 2 milhões de toneladas, ante aproximadamente 100 mil toneladas no ano anterior. Caso confirmado, o salto representará uma mudança expressiva na dimensão do mercado e poderá contribuir para estimular novos investimentos na cultura.
Considerando esse volume, a demanda externa corresponderia a uma produção equivalente a quase 400 mil hectares de sorgo, dependendo da produtividade alcançada. A perspectiva de expansão das compras chinesas, somada ao consumo de outros países e à demanda das usinas brasileiras, reforça o potencial de crescimento da cadeia.
O potencial de expansão também se reflete nas projeções para a área cultivada. De acordo com o consultor, considerando o cenário atual, a área plantada com sorgo, estimada em cerca de 2,2 milhões de hectares, poderá dobrar até 2035, caso se mantenha a tendência de crescimento da demanda e dos investimentos em tecnologia. “Considerando apenas grãos, o sorgo poderá figurar, nos próximos anos, entre as três culturas mais importantes do país em área plantada, ampliando sua participação na segunda safra”, projeta.
Tecnologia aumenta a competitividade
O avanço da cultura também está relacionado à evolução tecnológica. No passado, a disponibilidade mais limitada de materiais genéticos e de tecnologias específicas de manejo restringia o potencial produtivo do sorgo e dificultava sua consolidação como alternativa ao milho na segunda safra.
Esse cenário começou a mudar nos últimos cinco anos, período em que as perspectivas de crescimento da demanda estimularam empresas a ampliar os investimentos em sementes e soluções de manejo. Segundo o analista, já existem lavouras que alcançam produtividades de 130 a 140 sacas por hectare na segunda safra, aproximando-se dos níveis registrados pelo milho em determinadas condições de cultivo.
A combinação entre potencial produtivo, custo de produção e maior resiliência climática fortalece a posição do sorgo no planejamento agrícola. Em regiões onde o risco de perdas do milho de segunda safra é mais elevado, a cultura pode contribuir para diversificar as estratégias de produção e melhorar a relação entre risco e retorno.
Além disso, a ampliação dos canais de comercialização ajuda a tornar a decisão de plantio mais previsível. “Com alternativas de venda para usinas, exportadores e indústrias de ração, o produtor passa a avaliar o sorgo não apenas pelas características agronômicas, mas também pelas oportunidades comerciais disponíveis em sua região”, finaliza o especialista.
O avanço do mercado também reforça a importância de reconhecer e valorizar os produtores que investem na cultura. Nesse contexto, o GETAP (Grupo Tático de Aumento da Produtividade) anunciará agora no final de novembro em um evento em Indaiatuba-SP, os primeiros ganhadores da premiação Sorgo, iniciativa que busca destacar os resultados alcançados no campo e prestigiar os agricultores que contribuem para o desenvolvimento de uma cultura em expansão no agro brasileiro.
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