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Marca Godidiko transforma arte Kadiwéu em produto da economia criativa


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  • mell280

30/08/2026 06h46

Marca Godidiko transforma arte Kadiwéu em produto da economia criativa

Comunicação FIB, Alexsandro Nogueira


O lançamento da marca Godidiko – Produtos do Território Indígena Kadiwéu, durante a 25ª edição do Festival de Inverno de Bonito, aproxima tradição e mercado. Para Luciana Azambuja, superintendente de Economia Criativa da SETESC e coordenadora do espaço de Bioeconomia da secretaria, a iniciativa materializa esse conceito ao transformar saberes tradicionais em artefatos com potencial de mercado, preservando identidade e origem.

 

 

A marca reúne peças produzidas por mulheres Kadiwéus, após um processo de qualificação desenvolvido em parceria com as organizações Mupan – Mulheres e Lideranças pelas Áreas Úmidas e a Wetlands International Brasil. O catálogo inclui vasos de cerâmica, pratos, travessas, objetos de decoração, peças pintadas, tecidos e camisetas. A proposta é agregar valor ao artesanato não apenas pelo design, mas pela história e pelo conhecimento incorporados em cada produto. “A gente quer que as pessoas reconheçam não apenas o produto pronto, mas também quem o produziu, como produziu e de onde vem essa sabedoria ancestral”, afirma Luciana.

A iniciativa é resultado de um processo iniciado em 2015, quando as duas organizações passaram a atuar no território Kadiwéu a convite das próprias lideranças. Durante sua implementação, surgiram demandas relacionadas à valorização da cultura, ao protagonismo feminino e à geração de renda. A Godidiko nasce desse contexto.

Segundo Lilian Ribeiro Pereira, coordenadora do componente Modo de Vida da Wetlands International Brasil e da Mupan, a marca foi validada para representar as seis aldeias Kadiweus do Estado. A atuação das organizações, diz ela, é de facilitação, aproximando as artesãs das ferramentas da economia criativa e criando condições para ampliar a comercialização da produção. “Hoje é o lançamento da marca Godidiko, uma marca que representa as aldeias, a cultura, a arte, os desenhos e a forma de viver do povo Kadiwéu”, afirma.

A escala produtiva ainda é difícil de mensurar. A disponibilidade de matéria-prima interfere diretamente na quantidade de peças produzidas. A cerâmica depende da coleta de argila, enquanto outros produtos utilizam materiais encontrados no próprio território. Entre eles está o pau-santo, madeira também presente no Chaco paraguaio. No território Kadiwéu, a utilização ocorre após a morte natural da árvore. A madeira é fervida para a extração de uma resina usada como pigmento escuro.

Para Benilda Virgílio, pesquisadora na área de antropologia social e integrante do povo Kadiwéu, o valor da produção não se resume à possibilidade de comercialização. Os grafismos são uma forma ancestral de comunicação e identificação. Segundo relatos dos anciãos, os desenhos foram um presente da entidade espiritual e passaram a funcionar como uma espécie de linguagem visual. No passado, marcas em pedras também teriam sido usadas para indicar a passagem de grupos por determinados lugares.

Essa linguagem permanece presente na cerâmica e nas pinturas corporais. Os desenhos são produzidos com pigmentos naturais, como carvão, urucum, jenipapo, cal e diferentes tipos de barro. As cores estão associadas ao ambiente e algumas tonalidades são encontradas apenas no território Kadiwéu. Os grafismos também podem carregar referências familiares e significados relacionados a diferentes momentos da vida. “É uma linguagem”, resume Benilda.

História

A produção Kadiwéu chamou a atenção de pesquisadores estrangeiros desde o século 19. O etnólogo italiano Guido Boggiani registrou artefatos e imagens durante sua passagem pelo território. Décadas depois, entre 1935 e 1936, Claude Lévi-Strauss documentou pinturas corporais e faciais, destacando a geometria e a complexidade dos desenhos. Para Benilda, esses registros ajudaram a projetar a arte Kadiwéu para outros públicos, mas não definem sua origem. A tradição, segundo ela, é muito mais antiga e vem sendo reinterpretada pelas novas gerações. “A gente tenta, de alguma forma, fazer uma leitura do passado entre a tradição e a modernidade”, afirma.

A estratégia também coloca a produção artesanal dentro de uma discussão mais ampla sobre a conservação ambiental. Para ela, a produção cultural está ligada ao próprio modo de vida e à relação com o ambiente. “Hoje, o povo Kadiwéu continua sendo guardião do meio ambiente dessa região”, afirma.

Com cerca de 1,6 mil integrantes distribuídos em seis aldeias, além de moradores em municípios como Bonito, Bodoquena e Aquidauana, os Kadiwéus mantêm na cerâmica, nos grafismos e na pintura corporal instrumentos de transmissão de memória. A Godidiko acrescenta a essa cadeia um componente econômico: transformar conhecimento tradicional em produto, ampliar o mercado para o artesanato e manter nas mãos dos próprios criadores a narrativa sobre sua origem.

 

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