- mell280
30/08/2026 06h23 - Atualizado em 30/08/2026 09h51
Mulheres na dianteira: aos 77, Ramona Vieira mantém vivo o som das comitivas
Aos 77 anos, Ramona Vieira carrega na memória o som das comitivas que atravessaram gerações de pantaneiros. Nascida no Passo da Ariranha, em Nioaque, ela começou a conviver com o gado ainda criança. Aos 16 anos, aprendeu a tocar o berrante. No fim dos anos de 1960, já atuava como ponteira, posição tradicionalmente ocupada por homens em uma comitiva. Na tarde deste sábado (29), durante o Festival de Inverno de Bonito, ela compartilhou parte dessa experiência em uma oficina voltada à transmissão desse tipo de conhecimento ao público.
A atividade reuniu 15 mulheres interessadas em aprender a tocar o berrante e conhecer mais sobre a tradição das comitivas. Entre os convidados palestrantes esteve o luthier Sebastião Brandão, de 83 anos, artesão especializado na fabricação de viola de cocho. Ele também contou sua trajetória ligada ao campo, como boiadeiro. A presença de diferentes gerações e experiências deu à oficina uma dimensão de respeito à memória e preservação da tradição pantaneira.
Ramona contou à plateia que enfrentou muita resistência quando ocupou a dianteira da comitiva. “Eu sempre fui tinhosa. Desde pequena. Minha mãe falava que eu era rebelde”, conta.
A palestrante revela que na lida, não havia muito espaço para negociação. Ela seguia à frente, tocando o berrante, enquanto o marido permanecia na culatra. “Os homens não aceitavam. Muitos ficavam com ciúme, não gostavam, mas não tinha outra alternativa. Era eu mesma.”
Para Ramona, ocupar esse lugar significou romper com o preconceito estabelecido nas propriedades rurais daquela época.
O berrante também foi uma conquista pessoal. Ramona não teve professor. Aprendeu observando os outros peões. Prestava atenção nos movimentos da boca e insistia até conseguir reproduzir o som das comitivas.
Entre os costumes da época estava engraxar o berrante com pinga ou gordura, prática usada para cuidar do instrumento e facilitar sua conservação.
Entre as participantes da oficina que ocorreu na casa de Memoria Raída, estava Adriana Sales, professora de 40 anos, natural de Rio Brilhante e moradora de Dourados. Para ela, aprender a tocar berrante representa mais do que adquirir uma habilidade ligada às comitivas. É também uma forma de reconhecer a trajetória de mulheres e ampliar o empoderamento feminino na preservação da cultura pantaneira.
“O berrante é algo muito representativo nas comitivas e na história do Pantanal. E uma mulher à frente disso, para a época, era algo inovador. Tem um simbolismo. Faz com que nós ainda nos espelhemos nas outras e façamos coisas que temos vontade de fazer”, afirma Adriana.
Hoje, o instrumento funciona como uma ponte entre passado e presente. Para Ramona, tocar berrante é uma maneira de preservar a cultura das comitivas e recuperar lembranças de uma vida entre fazendas e jornadas no campo. “Traz lembranças, memórias de quando eu trabalhava de ponteira de gado”, diz.
A Casa da Memória Raída é um museu de contação de histórias que reuniu memórias materiais e imateriais para lembrar que Bonito – MS também é maravilhoso pela cultura e tradição de sua gente.
Fotos Daniel Reino


