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Crise no varejo global: 2.490 falências revelam problema estrutural nos setores


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19/08/2026 09h11

Crise no varejo global: 2.490 falências revelam problema estrutural nos setores

assessoria


"E o ponto que mais importa não é o nível da Selic hoje, é a duração, porque dívida corporativa vence e precisa ser rolada, e quem captou barato lá atrás está renovando muito mais caro agora", André Matos, CEO da MA7 Capital.

       “Em um ambiente de juros elevados e avanço dos pedidos de recuperação judicial, o impacto sobre o ecossistema de startups vai além do encarecimento do crédito. O capital passa a ter um custo de oportunidade maior, enquanto investidores também se tornam mais atentos ao risco de inadimplência, à capacidade de geração de caixa e à sustentabilidade financeira das empresas. Uma sequência de recuperações judiciais entre companhias relevantes pode reforçar esse comportamento, levando fundos de venture capital a exigir modelos mais eficientes, receitas mais previsíveis e caminhos mais claros para a rentabilidade antes de realizar novos aportes. Para startups, isso significa menos espaço para estratégias de crescimento sustentadas apenas por sucessivas rodadas de captação e maior cobrança por disciplina financeira, controle de custos e capacidade de execução. Ao mesmo tempo, períodos de reestruturação empresarial também podem abrir oportunidades para negócios de tecnologia que ofereçam soluções de redução de custos, aumento de produtividade, gestão de crédito, análise de risco e eficiência operacional. Para o venture capital, portanto, o aumento das recuperações judiciais não significa necessariamente paralisação dos investimentos, mas tende a elevar o nível de exigência na alocação de recursos. Nos próximos meses, será importante acompanhar não apenas a trajetória da Selic e o volume de novas rodadas, mas também o comportamento dos valuations, a disponibilidade de capital para estágios iniciais e se o aumento das reestruturações empresariais começa a provocar uma aversão maior ao risco em toda a cadeia de investimentos”, Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest.

       “Em um ambiente de juros ainda elevados e maior pressão sobre o caixa das empresas, o mercado começa a olhar menos apenas para o tamanho da dívida e mais para a qualidade da estrutura que existe por trás daquele crédito. É justamente nesse ponto que instrumentos como os FIDCs ganham relevância. Uma estrutura bem desenhada permite estabelecer critérios para os recebíveis que entram na carteira, definir limites de concentração e diversificação, acompanhar a performance dos ativos e estabelecer mecanismos de proteção. Isso não elimina o risco de crédito, mas contribui para identificá-lo, dimensioná-lo e acompanhá-lo de maneira mais transparente. Para o investidor, essa governança amplia a visibilidade sobre a qualidade dos ativos e sobre as proteções existentes na operação. Para as empresas, o FIDC pode representar um importante canal de financiamento, especialmente em momentos em que o crédito bancário tradicional se torna mais seletivo. Por isso, uma eventual sequência de recuperações judiciais não deve ser interpretada automaticamente como uma crise dos FIDCs ou do crédito privado. O que tende a ocorrer é uma seleção mais rigorosa: estruturas mais frágeis passam a ser penalizadas, enquanto operações com qualidade de recebíveis, diversificação, garantias e outros mecanismos de proteção, quando existentes, e acompanhamento adequado ganham importância. Em momentos de maior incerteza, a robustez de uma operação não decorre simplesmente do instrumento utilizado, mas da qualidade de sua estruturação, da seleção dos ativos, da governança e do acompanhamento ao longo de todo o ciclo do crédito.” Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.

       “Eu tomaria cuidado com a leitura simples de que juro alto está quebrando o varejo, porque a Alemanha teve quase 2.500 falências no setor em um ano com juro muito menor que o nosso, e a Sears chegou ao fim de 2025 com apenas cinco lojas nos Estados Unidos. Existe uma transformação estrutural em curso no mundo inteiro, tanto que o varejo global até voltou a crescer em termos reais no ano passado. O que o juro brasileiro faz é outra coisa, ele antecipa e agrava a conta, porque tira da empresa o tempo de se adaptar. Uma companhia que teria cinco anos para mudar de modelo passa a ter um. E o ponto que mais importa não é o nível da Selic hoje, é a duração, porque dívida corporativa vence e precisa ser rolada, e quem captou barato lá atrás está renovando muito mais caro agora. Por isso eu espero mais casos, e os sinais que eu acompanharia são três, concentração de vencimentos no curto prazo, ressalva do auditor sobre continuidade operacional, que apareceu antes dos dois maiores casos recentes, e dependência de garantia real para sustentar linha de crédito. E o aperto vem pelas duas pontas, porque enquanto a empresa rola dívida mais cara, o cliente dela já entrega perto de trinta por cento de tudo o que ganha só para pagar prestação e juro de dívidas que já contraiu. Ou seja, de cada mil reais que entram, quase trezentos saem antes de a família decidir qualquer coisa, e é justamente essa parcela que sobraria para trocar a geladeira ou o sofá”, André Matos, CEO da MA7 Capital.
       Os juros altos funcionam inicialmente como catalisadores. Mas, quando permanecem elevados por muito tempo, deixam de infringir dano apenas ao custo de alavancagem das empresas e passam a comprometer também a operação: aumentam despesas financeiras, dificultam o refinanciamento e reduzem a geração de caixa. Setores como varejo e construção civil sofrem pelos dois lados. A empresa enfrenta crédito mais caro ao mesmo tempo em que seus clientes encontram maior restrição para financiar consumo ou aquisição de imóveis. Portanto, mesmo com emprego elevado como temos atualmente no Brasil, parcelas mais caras e menor disponibilidade de crédito podem enfraquecer a demanda. Quanto mais prolongado o ciclo restritivo, maior o risco de transformar uma fragilidade financeira em deterioração operacional, seguida de inadimplência, reestruturação ou recuperação judicial. O sinal mais importante, portanto, não é apenas o nível dos juros, mas por quanto tempo empresas e consumidores conseguem suportá-lo”, Cassio Viana de Jesus, diretor de Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital.

       “O aperto monetário costuma aparecer primeiro justamente onde existe maior dependência de crédito sem garantia, capital de giro curto e refinanciamentos frequentes. À medida que os juros permanecem altos, uma parcela crescente do caixa empresarial passa a ser destinada ao serviço da dívida, reduzindo a margem disponível para estoque, expansão e investimento. Se, simultaneamente, o consumo perde força, ocorre um efeito de pinça: entra menos caixa enquanto financiar a operação custa mais. É essa combinação, e não simplesmente uma Selic elevada, que pode aumentar os casos de reestruturação. Nesse ambiente, operações com garantias podem ganhar importância porque permitem reorganizar passivos, alongar prazos e reduzir o prêmio de risco em relação a linhas mais caras, mas garantia não substitui capacidade de pagamento. Crédito saudável depende de compatibilidade entre dívida, geração de caixa e prazo. Para a atividade econômica, o risco aparece quando empresas começam a cortar investimento para preservar liquidez. Os próximos sinais relevantes serão a inadimplência empresarial, a evolução do custo das novas operações, a demanda por renegociação e a capacidade das empresas de trocar passivos curtos e caros por estruturas financeiras mais compatíveis com seu fluxo de caixa”, Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.

       “O principal risco neste momento não está apenas no fato de a Selic continuar elevada, mas no tempo durante o qual as empresas precisarão conviver com esse custo de capital. Uma companhia pode suportar alguns meses de juros altos com caixa e linhas contratadas anteriormente. O problema aparece quando a dívida vence e precisa ser renovada a taxas muito superiores às que financiaram sua expansão. É nesse momento que uma dificuldade de liquidez pode se transformar em problema de solvência. No Brasil, a Selic ainda está em 14% e a inadimplência das pessoas jurídicas já apresenta avanço, o que tende a tornar investidores e credores mais seletivos. Esse processo pode aumentar spreads, exigir mais garantias e separar de maneira muito mais clara empresas com geração consistente de caixa daquelas dependentes de refinanciamento recorrente. Se essa seletividade se disseminar, o efeito macroeconômico aparece por meio de menor investimento e expansão empresarial mais cautelosa. Nos próximos meses, mais importante do que acompanhar apenas a Selic será observar os spreads de crédito, os vencimentos das dívidas corporativas, a cobertura de juros, a geração de caixa e a evolução da inadimplência”, Gustavo Assis, CEO da Asset.

       “Uma característica importante desta fase do ciclo é que a restrição de crédito não termina na empresa que enfrenta dificuldade financeira. Ela pode percorrer toda a cadeia. Quando uma grande companhia passa a pagar fornecedores em prazos maiores, reduz compras ou encontra dificuldades para financiar estoques, empresas menores que dependem daquele fluxo também precisam buscar capital de giro. Se o crédito estiver caro justamente nesse momento, um problema originalmente concentrado pode se espalhar pela cadeia produtiva. Esse é um dos mecanismos pelos quais juros elevados podem ganhar dimensão macroeconômica. A resposta, porém, não precisa vir exclusivamente do crédito bancário tradicional. Empresas com grande relacionamento com clientes, fornecedores e distribuidores dispõem de dados transacionais que podem permitir estruturas de crédito mais precisas, inclusive dentro de modelos de embedded finance. O ponto central é usar informação para precificar risco, e não simplesmente ampliar concessão. Nos próximos meses, será necessário observar prazo médio de pagamento das empresas, inadimplência entre fornecedores, custo do capital de giro e disponibilidade de funding. Quanto maior a capacidade de transformar dados operacionais em avaliação financeira, menor tende a ser a dependência de decisões genéricas de crédito em períodos de maior aversão ao risco.”, Leticia Moschioni, Sócia da Finscale. 

       “O Brasil não atravessa esse processo isoladamente. A economia mundial entrou em uma fase particularmente complexa, em que o crescimento permanece positivo, mas a desinflação perdeu velocidade e os bancos centrais continuam condicionados por riscos de energia, geopolítica e atividade. O FMI projeta crescimento global de 3% em 2026 e afirma que o processo de desinflação perdeu força; na Europa, o BCE manteve os juros em julho depois de elevá-los em junho, enquanto o Federal Reserve também adotou postura cautelosa em sua reunião de julho. Isso importa para empresas brasileiras porque o custo de capital doméstico não depende apenas da Selic. Juros internacionais, prêmio de risco, dólar e fluxos de capital influenciam o preço do financiamento e a disponibilidade de recursos. Portanto, mesmo uma queda gradual dos juros brasileiros não significa retorno imediato ao ambiente de dinheiro barato da década passada. Para os próximos meses, a questão central será saber se o mundo conseguirá reduzir juros sem reacender inflação ou provocar deterioração econômica mais forte. Para empresas e investidores, esse cenário reforça a importância de liquidez, diversificação geográfica e exposição a diferentes moedas e classes de ativos, em vez de depender de uma única trajetória para a economia brasileira”, Fábio Murad, Sócio e Fundador da Ipê Avaliações.


 

 




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