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Ataques a comunicadoras revelam um problema de estrutura


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10/08/2026 05h00

Ataques a comunicadoras revelam um problema de estrutura

assessoria


 

É preciso criar condições para que iniciativas locais tenham financiamento, estrutura e capacidade de permanecer nos territórios

No dia 24 de julho, Marcos Wesley, cofundador do Tapajós de Fato (PA), publicou em sua página no Instagram um vídeo em que relatava uma sequência de ameaças e episódios de censura sofridos por ele e pela equipe do veículo.

No vídeo, Marcos enumera episódios que, infelizmente, deixaram de ser exceção para quem faz comunicação independente na Amazônia: espingardas e revólveres apontados para si e para integrantes da equipe durante coberturas, ataques digitais, campanhas de difamação e sucessivas ameaças de morte, especialmente durante as eleições locais de 2022. “Estamos novamente em ano eleitoral e novamente diversos ataques voltaram a acontecer”, relata Marcos.

Em junho deste ano, outro episódio chamou atenção. A conta do Tapajós de Fato no Instagram permaneceu suspensa por mais de 40 dias pela Meta, sem qualquer justificativa pública. Para um veículo cuja principal forma de distribuição de conteúdo depende das plataformas digitais, o bloqueio significou não apenas perda de audiência, mas também dificuldades para manter o diálogo cotidiano com as comunidades que acompanha.

 

 

O caso do Tapajós de Fato não é isolado. Em maio deste ano, depois de quatro anos de uma batalha judicial, Tero Queiroz, diretor de jornalismo e fundador do TeatrineTV foi absolvido, em primeira instância, das acusações de calúnia e difamação motivadas pela publicação de uma nota informativa sobre recursos públicos destinados a uma Oscip responsável pela gestão de festivais culturais no estado.

Mesmo quando termina em absolvição, um processo pode consumir anos de trabalho, recursos financeiros e energia emocional. Custos que recaem de maneira especialmente pesada sobre pequenos veículos e coletivos locais.

A cofundadora e diretora-executiva do Instituto Tornavoz, Charlene Nagae, a coerção jurídica, principalmente de políticos e empresários,segue sendo estratégia recorrents para intimidar comunicadores e restringir a circulação de informações de interesse público.

“Embora o campo tenha obtido vitórias relevantes no STF, que reconheceu a existência do assédio judicial e estabeleceu mecanismos de mitigação, ainda temos o desafio de fazer com que os juízes de primeira e segunda instâncias apliquem esses entendimentos na prática”, aponta Nagae. Em ano eleitoral, a prática costuma se intensificar. “Em territórios periféricos e no interior do país, onde o jornalismo já opera no limite da sobrevivência, um único processo basta para amedrontar o comunicador e secar o debate público no momento em que a sociedade mais precisa de informações livres”, fala.

Quando olhamos para recortes interseccionais, o cenário fica ainda mais sensível. Mulheres comunicadoras, jornalistas negras, indígenas e pessoas LGBTQIAPN+ convivem com camadas adicionais de exposição. Ataques misóginos, violência sexualizada nas redes sociais, ameaças direcionadas às famílias e perseguições que exploram marcadores de gênero, raça e orientação sexual passaram a integrar o cotidiano de muitas profissionais. Como destaca a Artigo 19, reconhecer essas desigualdades é condição para construir políticas de proteção efetivas.

As respostas a esse cenário vêm sendo construídas por uma rede crescente de organizações. Elas monitoram violações, oferecem apoio jurídico e psicossocial, produzem protocolos de segurança, acompanham casos de perseguição e articulam respostas coletivas diante de situações de risco, fortalecendo a incidência por políticas públicas mais efetivas.

Esse trabalho é fundamental. Mas proteger quem comunica não significa apenas responder às ameaças quando elas acontecem.

Em muitos casos, a vulnerabilidade não decorre apenas da violência direta, mas da fragilidade institucional. Pequenas equipes acumulam funções, dependem de uma única fonte de financiamento, encontram dificuldades para responder a processos judiciais, investir em segurança digital ou planejar o longo prazo.

É nesse ponto que fortalecimento institucional e proteção deixam de ser agendas separadas.

O relatório prospectivo “Como será o jornalismo no Brasil em 2035?“, produzido pela Repórteres Sem Fronteiras em parceria com organizações brasileiras, identifica justamente o fortalecimento de redes de colaboração e a diversificação dos modelos de sustentabilidade como estratégias para tornar o ecossistema da informação mais resiliente.

Essa compreensão orienta o trabalho da Énois. Mais do que apoiar a produção de reportagens, investimos no fortalecimento institucional de organizações de comunicação, desenvolvendo planejamento estratégico, sustentabilidade financeira, governança, redes de colaboração e capacidade de responder aos desafios cotidianos de seus territórios.

Nosso trabalho parte das necessidades identificadas por cada organização, reconhecendo que proteger quem comunica também passa por fortalecer sua autonomia e sua capacidade de permanecer nos territórios.

Toda vez que uma iniciativa local consegue permanecer de pé, fortalece não apenas o ecossistema da informação, mas também a capacidade das comunidades de compreender, registrar e transformar a própria realidade.


   

Da formação à pesquisa: Julia Neres investiga racismo ambiental a partir dos Racionais MC’s

A formação da Rede Énois também pode virar pesquisa, produção de conhecimento e novas formas de olhar para o território. Foi assim com Julia Neres, graduanda em Educomunicação pela ECA/USP, pesquisadora e coordenadora de projetos em design e educomunicação.

Em 2024, Julia participou da formação “Como mitigar desinformação socioambiental em contexto urbano e periférico?”, experiência que ampliou suas reflexões sobre comunicação, território, justiça climática e circulação de informações socioambientais.

A partir desse percurso, desenvolveu uma pesquisa que articula racismo ambiental, cultura hip-hop, educação ambiental e práticas educomunicativas. O resultado é a publicação “Racismo Ambiental – Sobrevivendo no Inferno: leituras socioambientais a partir de obras dos Racionais MC’s”, desenvolvida pelo MIRANTE – Coletivo de Design Periférico por meio do Programa VAI, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

É mais uma história que mostra como fortalecer pessoas e seus processos de formação também é fortalecer novas narrativas sobre os territórios.

   

Énois fortalece a Agência Lume e o jornalismo feito a partir do território

Em Rio das Pedras, a Agência Lume mostra que organizações não precisam esperar um novo projeto para começar a transformar seus territórios. Há anos, a Lume produz comunicação com a comunidade, forma jovens, promove educação midiática, registra a memória local e articula redes em torno de temas como saúde, clima e educação.

Em julho, a Énois acompanhou uma dessas ações: um encontro com 17 professores da rede pública local para discutir o ensino da história de Rio das Pedras e construir materiais pedagógicos para as escolas da região.

A Énois acompanha a trajetória da Lume desde o início, apoiando seu fortalecimento institucional e a construção de caminhos para sua sustentabilidade. Para nós, captação também é reconhecer organizações que já geram impacto e criar condições para que tenham estrutura e receita recorrente para fazer esse trabalho de forma digna.

É esse o nosso papel: fortalecer quem produz informação, articula redes e impulsiona o desenvolvimento a partir dos próprios territórios.

 




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