- mell280
03/08/2026 12h00
Da primeira à quarta onda: como mudou a relação do brasileiro com o café
O café deixou de ser apenas um produto cotidiano para incorporar qualidade, tecnologia, rastreabilidade e novas formas de consumo sem abandonar a tradição do cafezinho
A forma como os brasileiros consomem café passou por uma transformação significativa nas últimas décadas. Da popularização da bebida como item essencial da rotina até a valorização da origem dos grãos, dos métodos de preparo e da tecnologia aplicada à produção, as chamadas "ondas do café" ajudam a explicar a evolução do mercado e do comportamento do consumidor. O tema ganha cada vez mais relevância à medida que o Brasil mantém sua posição entre os maiores consumidores mundiais da bebida e amplia o interesse pelos cafés especiais.
Embora as quatro ondas sejam frequentemente utilizadas para compreender a evolução do setor cafeeiro, especialistas ressaltam que elas não representam fases que substituem umas às outras. Na prática, convivem simultaneamente. Um mesmo consumidor pode preparar um café filtrado tradicional pela manhã, utilizar uma cápsula durante o expediente e escolher uma cafeteria especializada para experimentar métodos artesanais no fim de semana.
"Quando falamos das ondas do café, não estamos dizendo que uma substituiu a outra. Elas coexistem e refletem diferentes formas de consumir a bebida. O brasileiro continua apreciando o cafezinho tradicional, mas também passou a explorar cafés especiais, novos métodos de preparo e experiências mais personalizadas. Isso mostra o amadurecimento do consumidor e a diversidade que o mercado oferece atualmente", afirma André Henning, cofundador da Go Coffee, maior rede nacional de cafeterias.
Primeira onda consolidou o café como símbolo da rotina brasileira
A primeira onda do café foi marcada pela industrialização, pela produção em larga escala e pela democratização do acesso à bebida. Nesse período, o café passou a ocupar lugar permanente nas residências, padarias, escritórios e estabelecimentos comerciais, tornando-se um dos principais símbolos da hospitalidade brasileira. “O foco estava na praticidade, no preço e na disponibilidade. O produto era comercializado principalmente na forma de café torrado e moído, com pouca informação sobre origem, variedade ou produtor. O tradicional preparo em filtro de pano consolidou o chamado ‘cafezinho’, consumido tanto como parte da rotina de trabalho quanto em momentos de convivência familiar”, comenta Elói Ferreira, cofundador e desenvolvedor de produtos da Go Coffee.
Segunda onda transformou o café em experiência de consumo
Com a expansão das cafeterias e da cultura do espresso, surgiu uma nova relação entre consumidor e bebida. A segunda onda ampliou o papel do café para além da função de despertar ou acompanhar refeições, tornando-o também um elemento de socialização, lazer, estudo e trabalho. Nesse cenário, ganharam espaço bebidas como cappuccino, latte, mocha e macchiato, além da popularização das máquinas de espresso e das cápsulas domésticas. A experiência passou a incluir ambiente, atendimento e variedade de receitas, acompanhando mudanças no estilo de vida urbano e nas preferências dos consumidores.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), o crescimento dos cafés em cápsulas reflete justamente a busca por conveniência, praticidade e qualidade, características que marcaram essa etapa da evolução do mercado. "A segunda onda foi importante porque mudou o papel das cafeterias. Elas deixaram de ser apenas um local para consumir café e passaram a funcionar como espaços de encontro, trabalho e convivência. Ao mesmo tempo, o consumidor começou a experimentar novos formatos, como o espresso e as bebidas à base de leite, ampliando sua relação com o café para além do hábito diário", lembra Ferreira.
Terceira onda valorizou origem, cafés especiais e trabalho artesanal
A terceira onda representou uma mudança profunda na forma como o café passou a ser percebido. Inspirado em conceitos semelhantes aos do universo dos vinhos, o consumidor passou a valorizar fatores como terroir, variedade do grão, processamento, perfil sensorial, torra e métodos de preparo. Foi nesse contexto que cresceram os cafés especiais, os métodos filtrados como V60, Chemex, Aeropress e prensa francesa, além da atuação técnica dos baristas na orientação ao consumidor. “Também aumentou o interesse pela rastreabilidade, permitindo conhecer a fazenda de origem, o produtor e as características específicas de cada lote. Com isso, o Brasil deixou de ser reconhecido apenas como um grande produtor em volume e passou a conquistar espaço internacional pela qualidade dos cafés especiais, pelos microlotes e pelos produtores premiados”, explica o especialista.
A nova onda: Quarta onda reúne ciência, tecnologia, sustentabilidade e precisão
Considerada uma tendência ainda em consolidação, a chamada quarta onda amplia o debate sobre qualidade ao incorporar ciência, tecnologia e inovação em todas as etapas da cadeia produtiva. Entre as principais características estão o uso de dados para controle preciso de moagem, temperatura, tempo de extração e proporção da bebida, além da adoção de inteligência artificial, automação, equipamentos conectados, fermentações experimentais e sistemas de rastreabilidade.
Outro aspecto relevante é a crescente preocupação com sustentabilidade, transparência comercial, remuneração da cadeia produtiva e personalização da experiência do consumidor. “Embora ainda não exista consenso acadêmico sobre uma definição única da quarta onda, entidades internacionais como a Specialty Coffee Association vêm ampliando seus critérios de avaliação para considerar diferentes dimensões de qualidade, contexto produtivo e atributos sensoriais. Em breve devemos ter algo mais consolidado”, ressalta Elói Ferreira.
Consumidor amplia repertório sem abandonar a tradição
A evolução das ondas do café mostra que o brasileiro não deixou de consumir o tradicional cafezinho, mas ampliou significativamente suas possibilidades de escolha. Hoje convivem diferentes perfis de consumo: cafés filtrados, espresso, bebidas geladas, cápsulas, métodos especiais e grãos de diversas origens. A decisão de compra passou a considerar não apenas preço e conveniência, mas também qualidade, procedência, impacto socioambiental e experiência.
Dados da ABIC indicam que o Brasil consumiu aproximadamente 21,4 milhões de sacas de café em 2025, mantendo-se como o segundo maior mercado consumidor do mundo. A entidade estima ainda um consumo médio de cerca de 1.400 xícaras por pessoa ao ano, demonstrando a importância econômica, cultural e social da bebida no país.
"O mercado de café evoluiu acompanhando as mudanças no comportamento do consumidor. Hoje existe espaço para diferentes perfis de consumo, desde o café tradicional até experiências mais sofisticadas, e isso fortalece toda a cadeia produtiva. Quanto maior o acesso à informação sobre qualidade, origem e formas de preparo, mais o consumidor participa desse movimento de valorização do café brasileiro”, destaca Henning.
Para o empresário, essa transformação aproxima toda a cadeia produtiva do consumidor e fortalece a valorização do café brasileiro. "Quanto mais informação chega ao consumidor, maior é sua capacidade de fazer escolhas conscientes. Isso beneficia produtores, torrefações, cafeterias e, principalmente, quem deseja viver novas experiências sem abrir mão da qualidade", finaliza.
Sobre a Go Coffee
Fundada em 2017, em Curitiba, a Go Coffee se consolidou rapidamente como uma das principais referências nacionais no mercado de cafés especiais. Hoje comercializa mensalmente mais de uma tonelada de café, com grãos colhidos principalmente no Sul de Minas e na Alta Mogiana, importante região produtora do estado de São Paulo. A marca se destaca por um cardápio diverso, que reforça sua proposta de unir praticidade, qualidade e experiência. Para mais informações, acesse o site www.gocoffee.com.br ou o perfil oficial da rede no Instagram: @gocoffeebrasil.


