20/05/2026 06h55
Público 50+ deve responder por 35% do consumo brasileiro até 2044, pressionando empresas
O avanço da chamada economia da longevidade começa a provocar mudanças nas estratégias de empresas brasileiras. Setores como bancos, saúde, varejo, seguros e tecnologia já revisam produtos, serviços, canais de atendimento e políticas de gestão de pessoas diante do envelhecimento acelerado da população. O movimento, que já movimenta cerca de R$1,8 trilhão por ano no país, deve dobrar nas próximas duas décadas.
O tema ganha relevância em meio à transformação demográfica brasileira. Atualmente, o país soma cerca de 59 milhões de pessoas acima dos 50 anos, enquanto consumidores maduros já representam 24% das despesas de consumo dos domicílios brasileiros. A projeção é que esse grupo alcance 35% da participação no consumo nacional até 2044.
Além do impacto no consumo, empresas começam a enfrentar desafios relacionados à adaptação da força de trabalho, ao aumento da convivência entre diferentes gerações e à necessidade de desenvolver jornadas mais acessíveis para um público mais velho e digitalmente ativo.
Uma pesquisa do Procon-SP divulgada no fim de 2025 mostrou que 51% das pessoas acima dos 60 anos deixaram de contratar serviços ou concluir compras porque a empresa operava apenas por aplicativo, apesar de 92% afirmarem ter acesso à internet e utilizar apps.
Segundo Marco Aurélio Ferrari, diretor de Relações Institucionais da Conselheiros TrendsInnovation e ex-presidente do Observatório Social do Brasil em São Paulo, o avanço da longevidade começa a pressionar empresas a rever estruturas internas e estratégias de mercado.
“As empresas ainda operam, em muitos casos, com modelos desenhados para uma população mais jovem. A mudança demográfica exige adaptações na experiência do cliente, nos canais digitais, nos serviços e também na gestão de pessoas”, diz.
Segundo Ferrari, o impacto já começa a atingir diretamente áreas de recursos humanos e cultura organizacional. “As carreiras estão ficando mais longas e a convivência entre gerações se torna mais intensa dentro das empresas. Isso exige capacitação contínua, políticas de diversidade etária e modelos mais flexíveis de retenção e produtividade”, diz.
O avanço da economia prateada também tem ampliado a participação de profissionais maduros no mercado. Dados do Sebrae apontam que o Brasil já possui 4,5 milhões de empreendedores com mais de 60 anos, número 58% maior do que o registrado há uma década.
Relatórios recentes sobre consumo indicam ainda que pessoas acima dos 60 anos já apresentam gastos acima da média nacional em categorias como mercado, farmácia, itens para casa e eletrônicos, ampliando o interesse de empresas por estratégias voltadas ao público maduro.
Na avaliação de Ferrari, setores financeiros e de saúde estão entre os mais pressionados pela mudança demográfica. “Produtos financeiros ainda são pouco adaptados a ciclos de vida mais longos, enquanto parte dos serviços de saúde segue fragmentada para atender uma população que viverá mais tempo e terá novas demandas de consumo e bem-estar”, afirma.



