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PUBLICADO EM: 19/09/2026 06h23


A exposição de um Brasil que preferíamos não enxergar




por Maurilio Biagi Filho, empresário

Há momentos em que um país é obrigado a olhar para o espelho, mesmo quando não gosta do que vê. O que estamos vivendo parece ser um desses momentos. A crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal (STF) ultrapassa, a meu ver, as pessoas diretamente envolvidas nos episódios que vieram a público. O que está em jogo é maior: é a imagem, a credibilidade e a confiança em uma das instituições fundamentais da República.

O que assistimos nos últimos dias foi difícil de compreender e ainda mais difícil de aceitar. Uma instituição que deveria simbolizar equilíbrio, sobriedade e respeito às regras terminou exposta em discussões, acusações, desentendimentos e disputas internas que pouco contribuíram para esclarecer aquilo que realmente interessa à sociedade e ao país.

O STF se mostrou, aos olhos de toda a Nação, incapaz de oferecer naquele momento a resposta que dele se esperava. Uma sessão que deveria contribuir para esclarecer os fatos terminou produzindo justamente o contrário: mais dúvidas, mais desconfiança e uma sensação de degradação institucional que não pode ser tratada como simples episódio de rotina ou divergência entre magistrados. Está claro aos olhos leigos que existem envolvimentos inadmissíveis.

Foi uma sessão que, certamente, a própria instituição preferiria poder apagar do calendário. Mas não se apagam episódios como esse. Eles ficam registrados na memória de um país e, principalmente, na percepção que os cidadãos passam a ter de suas instituições.

As manobras ficaram evidentes para quem acompanhou o episódio, ainda que nem todos tenham condições de compreender a complexidade dos argumentos jurídicos envolvidos. Para o cidadão comum, a impressão que ficou foi muito mais simples e preocupante: enquanto se discutiam ritos, relatorias e questões processuais, o que realmente importava permanecia sem resposta. E isso é grave. Conseguiram o que parece que queriam: criar uma nuvem de fumaça.

Não se trata de condenar previamente ninguém. Muito menos de transformar suspeitas em verdades definitivas. Investigação existe justamente para separar fatos de versões, responsabilidades de acusações e coincidências de relações impróprias. Mas uma instituição como o STF não pode esquecer que sua autoridade não nasce apenas da Constituição. Ela depende também da confiança que a sociedade deposita diariamente em seus integrantes.

E talvez seja justamente aí que o episódio do Banco Master tenha produzido algo que, por mais paradoxal que pareça, precisamos reconhecer. Em entrevista ao Estadão, Roberto Teixeira da Costa, ex-presidente da B3 e primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários, usou uma imagem muito forte para descrever o que Daniel Vorcaro acabou provocando: um verdadeiro striptease. Ao tirar a roupa, ficam expostas coisas que estavam escondidas. E o caso parece ter feito exatamente isso com uma parte do Brasil que muitos suspeitavam existir, mas que poucos tinham condições de enxergar com tanta nitidez. Vorcaro não inventou as fragilidades que vieram à tona. Ele as revelou.

As mensagens, relações, encontros, aproximações e interesses que surgiram ao longo das investigações desenharam um cenário que ultrapassa ideologias. É justamente essa talvez a parte mais desconfortável de toda a história: a influência do dinheiro e do poder parece não respeitar fronteiras ideológicas, partidárias ou institucionais.

De repente, descobrimos, ou confirmamos, que pessoas de mundos aparentemente muito diferentes podem circular pelos mesmos ambientes, manter relações, abrir portas e estabelecer conexões. E isso talvez seja mais preocupante do que qualquer disputa política circunstancial.

O Brasil que aparece por trás desse striptease é aquele que muitos de nós já desconfiávamos que existia, mas para o qual faltavam evidências, documentos, mensagens e fatos concretos que permitissem enxergá-lo com clareza. E há uma ironia triste nessa história: talvez uma das exceções mais curiosas seja justamente quem não tinha nenhuma relação, amizade ou proximidade com Vorcaro. Tornou-se quase uma surpresa descobrir alguém que não tivesse alguma história para contar sobre o banqueiro ou uma mensagenzinha, de maior ou menor gravidade, trocada com ele ou um dos seus discípulos.

Isso não significa que todas essas relações tenham sido ilegais ou que todas produzam alguma responsabilidade. Mas deveriam ser suficientemente relevantes para que a sociedade tenha o direito de conhecê-las e, quando necessário, vê-las submetidas ao escrutínio das instituições competentes. É assim que uma República saudável funciona.

O problema começa quando as instituições encarregadas de investigar, julgar e fiscalizar parecem mais preocupadas em discutir seus próprios conflitos do que em oferecer respostas claras à sociedade. Foi isso que o episódio no Supremo expôs de maneira especialmente dolorosa, deixando transparecer que tem alguns diretamente envolvidos.

Em vez de a instituição sair maior depois de enfrentar uma questão delicada, saiu menor. Não porque ministros tenham divergências, que são naturais e até desejáveis em uma Corte, mas porque o espetáculo público dessas divergências terminou por atingir aquilo que nenhum Poder pode perder: sua autoridade moral.

Uma instituição pode sobreviver a erros. Pode sobreviver a críticas. Pode sobreviver até a decisões impopulares. O que dificilmente sobrevive é à perda continuada de confiança. E talvez seja por isso que a manifestação da ministra Carmem Lúcia reconhecendo o constrangimento causado pelo episódio tenha sido tão significativa. Não porque uma frase possa resolver uma crise, mas porque reconhecer que uma instituição produziu um “mal-estar cívico” é reconhecer que alguma coisa ultrapassou os limites aceitáveis.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a imagem do Supremo hoje. É a confiança nas instituições amanhã. Está em jogo o presente e o futuro de uma Nação.

Não devemos, porém, cair na tentação de transformar esse momento em mais uma guerra de torcidas. O Brasil já está cansado disso. A crise do Supremo não deveria ser comemorada por quem sempre atacou o Supremo, assim como não deveria ser defendida cegamente por quem sempre o apoiou. Uma instituição republicana não pertence aos seus integrantes, aos seus admiradores ou aos seus críticos. Pertence ao País.

É justamente por isso que o que está acontecendo deveria provocar mais silêncio reflexivo do que gritaria política. Talvez seja também por isso que os memes tenham se multiplicado tanto. Em meio a uma espécie de luto institucional, o brasileiro encontrou no humor uma maneira de respirar. Rimos porque, às vezes, é a única maneira de suportar aquilo que, de outra forma, seria insuportável. Mas o humor não pode esconder a gravidade do momento.

Há algo profundamente preocupante quando a sociedade começa a olhar para suas instituições com desconfiança e passa a considerar normal aquilo que deveria causar espanto. Quando relações entre dinheiro, poder, política, negócios e instituições deixam de surpreender, estamos diante de um problema que não é de um ministro, de um banqueiro, de um partido ou de um governo. É um problema de cultura institucional.

O caso Vorcaro, com todas as investigações ainda em andamento e todas as responsabilidades que precisam ser individualmente apuradas, prestou involuntariamente um serviço ao País: iluminou ambientes que durante muito tempo permaneceram na penumbra. Agora é preciso coragem para manter a luz acesa. Não para condenar antecipadamente quem quer que seja, mas para permitir que as instituições façam aquilo que delas se espera: investigar quando houver motivos, julgar com independência, fiscalizar sem privilégios e prestar contas à sociedade.

O Brasil não precisa de heróis nem de salvadores. Precisa de instituições que funcionem. E talvez essa seja a grande lição desse estranho e doloroso episódio: não basta esconder a sujeira debaixo do tapete. Um dia alguém o levanta. E, quando isso acontece, a pior reação possível é discutir quem teve a culpa por levantá-lo. A melhor reação é limpar a casa.

Que essa série de terror, com doses de suspense, não se estenda por muitas temporadas, e que possamos ter episódios com finais mais felizes, ou, pelo menos, menos vergonhosos.

 


 


Maurilio Biagi Filho, empresário
Guilherme Fuzaro/divulgação
 

 


 
 






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